
JD Salinger foi um dos autores mais influentes do século 20. O Apanhador no Campo de Centeio, que ele escreveu enquanto era um soldado lutando na Segunda Guerra, é obra central da literatura moderna. Com sua escrita espontânea, prenunciou a literatura beatnik. Salinger renovou a prosa de ficção com seu farto uso de gírias e jargões, sua técnica brilhante nos diálogos, seus mergulhos psicológicos e especialmente na criação de personagens excêntricos, como Holden Caulfield e toda a família Glass. Alguns dos Glass aparecem em Nove Histórias, sua mais famosa coletânea de contos, como “Um dia ideal para os peixes-banana”, uma fascinante história sobre zen e suicídio.
Bem, é chover no molhado dizer que vocês precisam ler tudo do Salinger, né.
CLOSE READING
O conto é quase todo estruturado em um longo diálogo, como muitas das histórias de Salinger. Impressiona que mesmo hoje, 2019, o texto mantenha o frescor de quando foi escrito, no pós-guerra, nos anos 50. Descendente direto do minimalismo de Hemingway, ele contém um ou mais histórias ocultas. Usa somente o indispensável.
O homem grisalho, pivô do texto, é um quase anônimo Lee. O sujeito que liga para ele se chama Arthur. Lee está acompanhado de uma moça, e, pelo contexto, percebemos que estão em um quarto, em uma cama, está meio escuro, então devem ter acabado de transar. Arthur pergunta a Lee se ele viu que horas sua mulher, Joanie, sair da festa – deduzimos que Lee também estava na festa. Salinger nunca nomeia a moça que está com o grisalho, mas percebemos, ao longo do diálogo, ser Joanie. Percebemos ainda que Arthur e Lee são muito amigos.
Ou seja, estamos vendo uma clássica história de traição. Mas ela é toda baseada em omissões, mentiras e suposições. O grisalho consola e aconselha o amigo a quem acabou de trair. O amigo corno na verdade não gosta da moça, e a critica o tempo todo. Por fim, o amigo liga para o grisalho para dizer que a moça chegou em casa, o que é uma mentira – mas é um jeito de ele não se rebaixar perante ao amigo, sem saber que o amigo no fundo o está corneando. Ou será que adivinhou? Nunca saberemos.
Este é um dos subtextos da história: quem está de fato traindo quem? O outro subtexto, trazido por uma breve história por Arthur, é seu conflito no trabalho. Talvez o problema todo seja o trabalho, não o amor. Mas isso fica para uma interpretação do leitor.
PROPOSTA
É isso o que você vai escrever: uma história sobre mentiras. A mentira será o eixo central do seu texto – ou uma mentira descarada, ou uma velada, ou uma verdade que vem à luz, ou uma mentira que está sendo escondida, ou uma mentira omitida.
Em seu conto haverá três personagens.
Será narrado na terceira pessoa.
Todo o seu conto se dará em uma única cena.
A maior parte do seu texto será feita de diálogos.
Para a sua narrativa, você deverá escolher como mote uma das citações abaixo. Tente lembrar uma história sua ou que tenha se passado com alguém que você conhece que pode ser epigrafada por uma dessas aspas:
“Se você contar a verdade, não vai ter que se lembrar de nada” – Mark Twain
“Não estou bravo porque você mentiu pra mim, estou puto porque daqui pra frente não vou mais poder acreditar em você”― Friedrich Nietzsche
“Acima de tudo, não minta para você mesmo. O homem que mente para si mesmo e ouve sua própria mentira chega a um ponto em que não distingue a verdade nele, ou ao redor dele, então perde todo o respeito por si mesmo e pelos outros. E ao perder o respeito ele perde a capacidade de amar”― Dostoiévski, Os Irmãos Karamazóv
“Minto para mim mesmo o tempo todo. Mas nunca acredito em mim”― S.E. Hinton, Vidas Sem Rumo
“Se você não diz a verdade sobre você mesmo, você não pode dizer a verdade sobre outras pessoas”― Virginia Woolf
“Uma mentira contada várias vezes acaba se tornando uma verdade”― Adolf Hitler
“Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é uma mentira”― Yevgeny Yevtushenko
“Qualquer coisa é melhor do que mentiras e enganos”― Tolstói, Anna Karênina
“As pessoas não são o que acham que são, e sim o que escondem o que são”― André Malraux
“Oh, não chore, me desculpe, eu te enganei tanto, mas é assim que as coisas são” ― Vladimir Nabokov, Lolita
“Quem acredita em um gato merece tudo o que o gato vai te dar” ― Neil Gaiman, Stardust
Em no máximo 9 mil toques.













