Leandro Reis
O repórter chegou no prédio de Heleno Rios, laureado poeta local, duas horas depois de atender a ligação do próprio na redação, anunciando a grande novidade: quebrava-se o silêncio de quase uma década, o poeta tinha concebido uma nova obra.
O modo apressado e ansioso levava a crer que era a sua primeira entrevista de nome. Já carregava o bloco de notas na mão, a caneta pregada no bolso da camisa, a mochila que devia conter os livros de Heleno Rios, talvez uma de suas gravuras ou colagens dos tempos em que os poemas rarearam, compradas num sebo do centro da cidade; pelo tom cinzento dos cabelos e da barba, um cínico diria que a pauta tinha chegado tarde demais.
O porteiro tocou insistente o interfone e esperou, balançando a cabeça atrás do vidro, espremendo os lábios num bico desesperançado.
Talvez tudo não tivesse passado de um surto psicótico de Rios, do qual estava recuperado e agora nem devia se lembrar da entrevista. A verdade é que o poeta tinha sumido do mapa, possivelmente louco, e não saía de casa a não ser para descer as escadas até a portaria, aonde encontrava os entregadores de comida e sobretudo de bebida.
As especulações davam conta de que a morte repentina de Jacinto Vilela, seu parceiro na arte e na vida, tinham-no devastado a ponto de se recolher em clínicas de repouso, e que agora vivia sob medicação e outros artifícios. Diziam que não escrevia mais e sequer lia um verso; por isso a ligação de Rios já lhe parecia um trote, o último chiste do antigo sátiro.
O barulho exagerado do portão eletrônico o tranquilizou, abrindo o caminho do umbral até a porta do apartamento de Rios. O poeta atendeu com um meio sorriso e, sem dizer nada, convidou o entrevistador a entrar. Usava um chamativo quimono verde, ornado com detalhes dourados (pequenos répteis?, o repórter tentava decifrar).
Rios voltou as costas para o repórter e andou com esforço até a mesa, aonde, com ainda mais esforço, puxou uma cadeira para o convidado. O repórter pode ter sentido remorso, caso tenha se lembrado de uma brincadeira grave na redação quando os colegas especulavam o estado que agora ele confirmava como real.
Mas, quando se sentou à mesa, sacou o gravador, abriu o bloquinho e despregou a caneta do bolso quase ao mesmo tempo em que apertava sua ponta num clic, como a dar a partida numa corrida ou numa luta, ele já era de novo um homem do ofício.
– Bom, acredito que minha curiosidade seja a mesma de todos os nossos leitores. Talvez da cidade inteira, do país – começou, sorrindo e fingindo naturalidade. – Do que se trata essa nova obra? É um livro de poemas?
Esperou ainda com o sorriso erguido, o máximo que podia. Rios continuava sentado na cadeira, como enraizado, olhando para um ponto além do corpo diante dele, na parede lisa ou no móvel atrás do homem com caneta e papel.
– Bem, quando o senhor ligou para a redação, foi uma felicidade para nós – disse, mentindo – Disse que tinha – e olhou estupidamente para ler a palavra no bloquinho – Disse que tinha “concebido” uma nova obra. É um livro de poemas, não é? – e sorriu de novo.
Rios era mais um móvel da casa, ou o contrário, uma pedra, inamovível, o quimono verde como lodo aderido à superfície. Estava provavelmente morto.
– Então o senhor não escreveu um livro de poemas, é isso? É uma performance, o senhor concebeu uma nova performance e vai apresentá-la no museu da capital?
Ou morto, ou louco, ou caquético, ou desligado, o velho não ia se mover. O repórter largou a caneta e começou a se virar para trás, com a lentidão da desconfiança, para o ponto que fixava o olhar de Rios. Solitário em cima do móvel de madeira, o porta-retrato com o rosto zombeteiro de Jacinto Vilela ocupando quase todo o quadro, enquanto o perfil magro de Rios se deslocava ao fundo, ambos engolidos por um céu de praia.
– É uma foto muito bonita que o senhor tem aí. Vilela, um espírito livre…
Interrompeu-se ao ver que Rios tinha fechado os olhos quando ouviu o nome do parceiro, depois de um discreto suspiro. Aquilo o animou.
– Bem, o senhor tem um histórico polêmico como performer. Nem todo mundo entendeu o que você estava fazendo nas décadas passadas. Primeiro, depois de ganhar dois prêmios nacionais, o senhor para de escrever poesia. Quer dizer, para de publicar, porque escreveu dezenas de poemas para outros poetas locais, sob a condição de assinar com os nomes deles. A crítica hoje já entende como uma performance. É claro que depois o senhor se revelou como autor de todos aqueles versos, mas isso talvez não venha ao caso. Já naquela época o senhor começou a ser chamado de fantasma…
E imediatamente se arrependeu de ter dito aquela palavra. Mas o fantasma continuava flutuando impassível sobre a cadeira.
– Depois o senhor resolveu radicalizar. E qual o papel de Vilela nisso tudo? Quer dizer, vocês se conheceram um pouco antes de A morte do autor, sua performance até hoje mais falada. Quer dizer, depois disso houve uma moda de pessoas fingindo a própria morte, mudando de identidade. Vocês incorporaram o desejo mundial de deixar o corpo e continuar vivendo. Quero saber de quem foi a ideia, quem pode ter pensado, Vilela, com seu jeito dionisíaco, o senhor, tão austero, quem pensou em tomar aquelas pílulas e deixar o bilhete em cima da privada escrito “E o autor ressuscitou no terceiro dia”? Quer dizer, hoje, em trabalho solo, isso se comunica com sua nova obra, seu novo livro de poemas, sua nova performance, o quebrar de seu longo silêncio…?
Então um ruído. Rios se ajeitou dentro do quimono, fazendo ranger a cadeira. Embora o repórter já os tivesse notado, o som e o cheiro do desuso se apoderavam dos sentidos, aproveitando-se do silêncio para tomar a casa. Os olhos do poeta, cerrados como tumbas, revelaram-se.
– Que diferença faz, meu filho, se é um livro de poemas ou se é a puta que te pariu?
Já não havia mais sorriso no rosto do repórter.
– Olha… – ter dito a frase subitamente pareceu cansá-lo. – Estou em paz com minha consciência. Cumpri e estou cumprindo o meu papel, designado pelo Senhor do Universo… no teatro sacramental e alegórico da vida, da história. – O repórter largou a caneta e passou as palmas das mãos na calça, secando o suor. – O que tenho a oferecer, tenho por amor à verdade, não por amor ao livro. Os que rejeitaram os meus ensinamentos não poderão reclamar de mim; eles mesmos se condenaram.
As palavras de Rios revolviam a sala, reacendendo os objetos antes ignorados pelo repórter: na bancada junto à janela, à direita do entrevistado, as pernas de uma tesoura recém-partida servindo de peso sobre pilhas de recortes, talvez imagens de revistas ou jornais; acima da bancada, numa prateleira curta, uma máscara azul com padrões geométricos encostada na parede, dividindo o espaço com uma pequena estátua de Jesus Cristo com as mãos quebradas. Notava, também, golpeados pela luz da tarde avançada, os dragões dourados sucedendo uns aos outros num movimento circular no quimono de Rios, como se comessem suas próprias caudas.
– Nem tudo lhe é revelado no momento do evento. Eu mesmo só entendi minha missão quando Jacinto deixou o mundo. Todos falam de nossa performance A morte do autor. A morte de meu holograma é a morte de meus espectadores. E minha ressurreição.
Se pudesse pesquisar naquele momento, o repórter confirmaria a suspeita de que era a primeira vez que Heleno Rios falava da morte de seu companheiro.
– Napoleão sempre usava uma camisa vermelha na guerra. Caso fosse ferido, seus soldados não perderiam o ímpeto. Jacinto era uma extensão do meu corpo… meu terceiro e meu quarto braço. – O bloquinho do entrevistador e a caneta já eram enfeites esquecidos. O gravador parecia gravar para ninguém, para um ouvinte distante, que nunca chegaria. Que língua Rios tinha passado a falar? O repórter apertava os olhos. – Mas Jacinto rejeitou meus ensinamentos. Ele mesmo se condenou. Escrita é morte. No princípio era o verbo.
– O que o senhor quer dizer com isso?
– Jesus de Nazaré era um garoto molambento, um mitômano. Até que um dia, num golpe de sorte, ou vingança dos céus, ele passou a operar milagres. Foi o primeiro mentiroso performático, como todos nós. Mas os tais milagres o deixaram incrédulo, e desesperado, porque perdeu o controle da mentira. Mas eventualmente precisou vivê-la, carregá-la nos ombros, e não foi por outra coisa que aceitou de bom grado a crucificação. O cara simplesmente não aguentava mais…
Rios continuou a falar e até já balançava os braços, mas era o corpo do repórter que parecia sair do eixo, suando apesar do vento forte que entrava pela janela e balançava as mangas do quimono do poeta.
– Há coisas que não parecem acontecer a você, que parecem frutos de um demônio que dá formas e cores às intenções mais ocultas, como alguém que empurra suas mãos numa vala cheia de sangue, e só depois você percebe que o sangue escorre do seu próprio corpo.
No canto da sala, entre o sofá e a bancada com os recortes, um biombo vermelho. Pode tê-lo percebido ali muito antes, quando entrou no apartamento de Rios.
– Ele mesmo, Jacinto, parecia prever a ordem dos eventos. Não havia mais nada a fazer nesta província chamada corpo. – E fechou os olhos longamente, mas depois voltou a abri-los – Vamos lá, meu filho, faça a pergunta. A cidade toda especula.
– Você tem… um biombo na sala.
– Tudo tem o seu lugar. Naquela foto que você acha bonita, Jacinto tinha acabado de voltar de duas semanas alcoólicas na Índia. Não preciso entrar em detalhes: um jovem poeta na terra da transcendência. Bom, vamos lá, comeu todo mundo, não é o que pensam? Pois voltou louco, intempestivo. Subiu a escada de incêndio e ficou gritando meu nome junto com nomes bíblicos, junto com palavras em latim. Tinha aprendido magia negra e a usava contra mim. Escrevia frases em latim nas paredes e acordava berrando, dizendo que as palavras tinham se voltado contra ele. É claro que tinham.
Se estivesse em pleno domínio dos sentidos, talvez o repórter recolhesse o gravador e saísse correndo até a porta; talvez continuasse ali e tentasse obter uma confissão, os detalhes da morte de Jacinto. Ligaria para o editor; ligaria para a polícia. Mas tinha a impressão de que o biombo se movia, talvez pela força do vento.
– Nossa última obra, que hoje virá à luz, tem suas origens aqui neste mesmo quarteirão, mais especificamente no fim da rua: na Catedral. Há muitos anos, antes ainda de A morte do autor, eu e Jacinto vivíamos neste mesmo apartamento, jovens e drogados, drogados e felizes e jovens e mortos. Costumávamos encontrar o garoto no porto, envoltos na maresia, olhando os cargueiros alargando os vincos da paisagem. Tomávamos ali mesmo, no cais. Depois assistíamos à missa sagrada em latim, tendo incríveis epifanias sensoriais.
Pendurado no biombo, um quimono verde como o de Rios, os dragões dourados revoando na brisa vespertina.
– “Uma mentira dita mil vezes se torna verdade”, Jacinto costumava dizer, citando Hitler. Bem, ele achava que a frase era de Hitler, e se decepcionou um pouco quando soube que era de Goebbels. Mas eu continuo gostando. É como o nosso epitáfio.
E finalmente se levantou, desta vez sem dificuldade, e caminhou até o biombo. Agora era o repórter que continuava olhando para um ponto fixo diante de si, talvez na prateleira, na máscara azul ou no Cristo sem mãos.
Notou que Rios tinha saído de trás do biombo quando os recortes empilhados na bancada começaram a voar sem o peso da tesoura. As pernas, ou os dentes afiados da tesoura, cada uma em seu buraco, ofereciam-se nas palmas das mãos perfuradas do velho risonho, risonho e iluminado, suplicando que o repórter assinasse sua última obra – uma última performance um tanto dramática, caso Jacinto Vilela pudesse opinar.
