(Angélica)
Marçal está abrindo um vinho tinto quando o celular toca. O número é desconhecido. Só atende depois que a rolha sai da garrafa. A sala do apartamento está escura, só com a luminária perto do sofá acesa, e ele acabou de tirar os sapatos. Na mesa, uma taça, um queijo gorgonzola e uma cesta cheia de torradas.
– Senhor Marçal? – Ele tenta se lembrar de alguma conhecida com a voz tão rouca como a que está do outro lado da linha. Pensa por um momento numa ex-namorada dos tempos de faculdade, mas o senhor faz com que desconsidere essa hipótese.
– Sou eu, quem é?
– Desculpa ligar a esta hora, sei que é tarde. É a doutora Beatriz que está falando, trabalho aqui no hospital. O senhor é o marido da Maria Eugênia, não é?
– Algum problema?
– Tenho uma notícia pro senhor.
– Pode falar.
– O senhor está sentado?
Marçal que estava enchendo a taça de vinho, assim que ouve essa pergunta põe a garrafa sobre a mesa e diz: – E por que você quer que eu me sente?
– Pra não cair de costas.
– Fala logo. Você está me deixando ansioso. O que aconteceu?
– É que quando a Maria Eugênia estava com o tanatopraxista…
– O tanato… o quê?
– O responsável por melhorar a aparência dos cadáveres.
– Ah… Ele está precisando de alguma coisa? Deixei o vestido aí. – Marçal toma um gole do vinho, levanta as sobrancelhas coçando a cabeça como se quisesse acabar logo com a conversa.
– É que na hora que o tanatopraxista foi dar a injeção pra retirar o sangue da Maria Eugênia, viu que o dedo mindinho dela tinha se levantado.
– Hã? Como assim? – Ele desabotoa a parte de cima da camisa, coloca o celular no viva voz em cima da mesa e se senta pegando um pedaço de queijo.
– Ele disse que em seguida o dedinho começou a se mover como se estivesse chamando alguém. Num vai e vem, sabe? Foi muita sorte ele ter visto justo nesse momento, já estava com a seringa na mão, se tivesse aplicado…
– Beatriz, né? Beatriz, você me liga a essa hora da noite pra falar que o dedinho da Maria Eugênia se mexeu? Estou exausto. Tive um dia horrível, tenha dó.
– O que estou falando é sério.
– Não, você não está falando sério, está de brincadeira comigo. Não é hora de passar trote.
– Por favor, me deixe continuar, já estou acabando.
– Então seja rápida. Estou perdendo a paciência.
– Logo depois o tanatopraxista pegou um tufo de algodão e colocou na frente da narina da Maria Eugênia. Ele foi em direção aos lábios, ou seja, ela estava respirando.
Marçal, que está com a taça na boca, engasga e um jato de vinho voa manchando a toalha. Tosse duas vezes antes de conseguir respirar, pega o aparelho da mesa e tira do viva voz. – Você enlouqueceu? Você só pode estar louca. Quando saí do hospital Maria Eugênia tinha acabado de morrer. Está certo que o corpo não tinha esfriado, mas os lábios já estavam roxos. E agora você me vem com esta, está querendo me dizer o quê? Que a minha mulher ressuscitou? – Com a unha começa a quebrar a borda de uma torrada espalhando os farelos pela mesa.
– Não inteiramente. Ainda estamos fazendo alguns procedimentos.
Levantando a voz, Marçal pergunta: – Que procedimentos? Cadê o Dr. Leandro? Me passa pra ele. Ele é o médico da Maria Eugênia, deixa eu falar com ele.
Beatriz, com a voz mais calma do mundo, como se fosse locutora de um programa de meditação, diz: – No momento é impossível. Assim que o tanatopraxista percebeu que Maria Eugênia estava viva, chamou o médico de plantão e correram com ela pra UTI. A equipe toda está lá dentro. O Dr. Leandro chegou não faz muito tempo e me pediu pra avisar o senhor.
– Olha, espero que essa história seja verdade, se não for, vou aí apertar o seu pescoço, entendeu? E o que mais você tem pra me dizer? – Agora com a faca, Marçal começa a despedaçar o queijo, e em seguida, colocando a lâmina na horizontal, espreme a massa amarelada com veias verdes até que fique colada ao prato. O celular toca na outra linha. Ele afasta o aparelho da orelha e vê Susy escrito no visor. Recusa a chamada, enquanto isso a doutora Beatriz continua falando com sua voz rouca e modulada.
– A última notícia que tive foi que o rim voltou a funcionar. Mas pode ser que Maria Eugênia tenha sequelas, ainda é cedo pra avaliar.
– Que tipo de sequela? – Marçal faz uma pergunta automática, quer ler a mensagem que chegou no Whatsapp.
– Uma é certa. É que antes de descobrir que ela estava respirando, o tanatopraxista passou um desinfetante na sua garganta, e isso provoca queimaduras no esôfago e na traqueia. Não vai conseguir falar nem comer.
– Não? – Susy está brava porque ele não atendeu. Ele diz que já fala, está no meio de uma ligação. Ela quer saber com quem. Marçal não responde e volta a prestar atenção em Beatriz.
– Por um tempo. Até as feridas cicatrizarem. Provavelmente vai ter também algumas sequelas motoras, mas isso só poderemos afirmar depois que ela acordar.
– Não vai conseguir andar ou… escrever, por exemplo?
– Seria melhor o senhor vir pra cá. Vão fazer um novo exame de sangue e também dos resíduos do estômago.
– O que você está me falando é uma loucura completa. Estou confuso, transtornado é a palavra correta. E por que vão fazer esses novos exames?
– Acharam que a causa da morte do prontuário está errada.
– Não foi por parada cardíaca?
– Que foi, foi. Mas talvez induzida por outro fator. Vamos aguardar o resultado dos exames.
– Maria Eugênia viva e tudo por causa de um dedinho, é inacreditável. Estou contente, claro e vou ficar ainda mais depois que choque passar.
– Imagino que sim, foi uma surpresa e tanto.
– Quem quase infartou fui eu, meu coração está acelerado. Muita coisa num dia só .
– Falo pro doutor Leandro que o senhor está vindo pra cá?
– Pode falar. Logo mais estou aí.
– Certo. Boa noite.
Assim que Marçal diz boa noite, a chamada cai. Ele olha pra tela do celular e vê que têm várias mensagens de Susy. Não responde, como também não entra no Whatsapp, silencia o aparelho e coloca no bolso da calça. Enquanto o vinho desce pela garganta, pensa que as mulheres só servem pra encher o saco, não tem uma que se salve, até mortas conseguem infernizar. Ele põe a taça na mesa e vai em direção ao quarto.
Quando está saindo com o jipe, vê que alguém estacionou o carro bem na frente da saída do prédio bloqueando a passagem. Depois de dar um pequeno murro no volante, abre a porta e vai até lá bufando. Uma mulher vestindo uma calça justa e uma jaqueta de couro sai do carro e diz:
– Marçal? Ele reconhece a voz na hora e arregala os olhos deixando o maxilar inferior cair.
– Doutora Beatriz?
– Doutora Ramona, pra ser mais precisa, delegada de polícia. – Ao falar isso, alguns policiais, que até então estavam afastados, se aproximam. – Você pode abrir o bagageiro?
Assim que Marçal abre a tampa, ela dá uma risada e continua. – Uma mala? Está indo viajar? Ele não diz nada. Ia buscar a amante ou não? Ou melhor, chegou a falar pra ela que Maria Eugênia está viva?
– Tenho mais algumas notícias, se você já não gostou das primeiras, vai detestar essas, uma em especial vai fazer você bater os dentes. Depois que você saiu do hospital, fizeram vários exames na Maria Eugênia a nosso pedido, os resultados estão aqui comigo, mas não vou me dar ao trabalho de mostrar pra você. Arsênio sérico dá parada cardíaca, não é mesmo? A sua cabecinha deve estar se perguntando como que a polícia desconfiou de você, já que tudo estava indo bem. Os médicos já tinham dado a causa da morte, Maria Eugênia ia ser enterrada e fim. Acontece que eu fui muito amiga dela na adolescência. Um dia, ela me achou numa rede social e disse que estava morrendo de medo de você, falou das agressões, das ameaças. Eu disse pra ela te denunciar e te largar, só que ela não fez isso. Aí, pouco tempo depois, aparece morta, coincidência, não é?
Marçal olha pra ela com se tivesse um fuzil nos olhos, se pudesse arrancaria a sua cabeça. Com um sinal de Ramona, os policiais colocam as algemas nele.
– Ah… faltou a última notícia, a melhor de todas. Infelizmente Maria Eugênia não está viva, não foi tentativa de homicídio e sim homicídio doloso. – E se dirigindo aos policiais, diz: – Podem levar.
