Eita!

A inglesa Virginia Woolf é uma das grandes escritoras do século 20 principalmente pela inovação na linguagem (em especial o monólogo interior e o fluxo de consciência, como em As Horas) e pelo ensaísmo arrojado (como no fundamental Um Teto Só Seu, marco do feminismo). Mas é no gênero biográfico que trouxe um de seus livros mais inquietantes: Orlando (Autêntica). Na linguagem, algo empolada e, pra quem tiver ouvidos pra ouvir, obviamente farsesca e irônica (o pai de Virginia era um notório biógrafo de reis e rainhas, gênero literário que ela está por motivos pessoais imitando/parodiando/zoando). Viriginia Woolf trata como real um personagem que nunca existiu (inclusive entrelaçando sua suposta vida a fatos históricos). E na criação pioneira de um personagem não-binário: o aristocrata Orlando, que um belo dia acorda mulher, depois de décadas como homem, e vive mais algumas décadas assim – ou seja, um personagem de realismo mágico, que atravessa séculos e gêneros numa boa (atravessa também classes sociais, uma vez que prefere transar com marujos e criadas em vez de condes e duquesas). Nunca houve um personagem como Orlando (talvez só Oxumaré ou Dionisio).

PROPOSTA

Bem, é isso o que você vai fazer: mudar de gênero.

Sim, você vai contar uma semana de sua vida após transitar para outro gênero.

Sim, você vai escrever na primeira pessoa.

Sim, se você quiser você pode contar como você mesmo, e aí brinca com a autoficção.

Mas você também tem a opção mais imaginativa de criar outro personagem que mudou de gênero.

Como já fizemos antes trabalhando o diário e o sonhário, seu conto será dividido por entradas diárias.

Você pode começar amanhã e terminar segunda que vem, deixando a segunda ou a terça para editar o texto, trabalhando melhor os padrões, repetições, curvas emocionais, episódios, personagens, cenas, ambientes.

Você tem duas opções:

* Você acordou do nada nesse outro gênero;

* Você acordou nesse outro gênero após fazer uma cirurgia ou algum outro tipo de intervenção física.

Daí, você tem duas opções:

* Você pode odiar o que te aconteceu e quer voltar desesperadamente ao estado original;

* Você pode soltar a franga e aproveitar a sua transição, incluindo os percalços que você não esperava.

Daí você tem duas opções:

* Passa uma semana em casa atarantada(o) com a nova condição;

* Vai pra rua testar a nova condição em altas aventuras.

Daí você pode fazer algumas coisas:

sexo, balada, padaria, natação, restaurante, sexo, hospital, visita a parentes ou filhos ou amigos, trabalho presencial, trabalho online, sexo, levar o carro no mecânico, escolher um novo apartamento, ir ás compras, sexo sexo sexo etc.

Como em qualquer diário, não se esqueça de, sutilmente, misturar o íntimo e público: contar coisas da sua vida e entrelaçá-las a eventos do mundo real (Copa América, CPI da Covid, vacinação, aquecimento global, a discussão sobre o que é cringe ou qualquer outro assunto / polêmica / tema candente).

É claro que estranhamento / deslumbramento são emoções definidoras de tal mudança, mas podem surgir outros sentimentos e sensações, dependendo das situações em que você se colocar (medo, frustração, redenção, vitória, nojo, horror, empoderamento etc etc).

Mas jamais nomeie as emoções: mostre-as.

Se joga!

Em no máximo 9 mil toques (pode ser menos)

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