Morre fazendo barulho

por Américo Paim

Álvaro repousava sua figura esquálida na cadeira surrada do Biruca’s. Olhava o mar enquanto alisava seu ensaio de bigode. Na cabeça a menina da noite anterior, de quem sequer lembrava o nome, mas que encontraria mais tarde, ainda naquele sábado. Apesar do sol soteropolitano de onze da manhã, ele seguia congelado naquela posição quando Dudu chegou, com a camiseta regata vermelha de estimação, de silk-screen envelhecido, suando em bicas como sempre.

– Porra, véi, tinha que ser essa hora? Que calor é esse?

– Bom dia pra você também…

– Ah, mermão… Qual é a boa?

– A boa é ver e não ligar.

– Sério, cadê o porretão?

– Sei lá. Daqui a pouco ele chega. Não tava com jeito de conversa não…

– Vamos começar os trabalhos então.

– Oxe, na hora. “Branca”, desce uma cerva aê.

Naquele tempo se pedia cerveja sem marca, sempre a mais gelada que tivesse. E vinha a grade também, para colocar no chão e juntar os “cascos”. Não demorou e Mauro dobrou a esquina. Seu andar de dono do mundo era inconfundível. Vinha lento, olhando para cada lado, passando a mão no cabelo que insistia em cair na cara bronzeada. Estavam todos três com dezenove anos e os dois queriam saber de Mauro como foi a micareta de Feira de Santana.

– Fala, pegador da Bahia…

– É ele, o mestre!

– E aí, putada, beleza?

– Ô, “Branca”, traz um copo aqui pro furador…

– Qualé, não vinha pra Salvador só amanhã?

– Isso, não entendi nada. E essa micareta toda?

– Voltei ontem e cedo.

– Como assim, véi?

– Mulher, cachaça, dinheiro na mão. Faltou o quê?

– Porra, não queria falar, mas me lasquei em banda. Xô tomar um gole aqui.

– Pede um tira-gosto?

– Calma aê, Dudu. Deixa o cara respirar.

Mauro contou como estavam as coisas uma semana antes de ir para o interior. Ele namorava Neila, menina que os amigos já conheciam. Depois de muita conversa, convenceu a bela a ir à micareta. Arrumou a casa de um primo que não estaria na cidade para ficarem sozinhos por lá, quando pretendia enfim transar com a garota. Ela não colou no esquema do jeito que ele sonhou: iria, mas não ficaria sozinha com ele em uma casa. Deixou bem claro.

– Por que não?

– Disse que o pai dela matava meio mundo se soubesse.

– Mas não tem uns três meses de namoro?

– Dois.

– Ela não confia em você?

– Se precisar de ajuda a gente conta umas histórias suas…

– Muito engraçado.

– Tá perdendo a manha de “jogar o h”, garanhão?

– Não é nada disso.

– Porra, pela sua cara a coisa não rolou.

– Ih, rapaz…

– Vocês querem ouvir ou não?

Explicou que teve que se conformar com as condições que Neila impôs. Confiante na sedução, se ofereceu para levar a moça até o lugar onde ela fosse se hospedar, mas ouviu negativa. Ela não revelou onde era e lhe contou que iria para Feira de carona com uma amiga que ele não conhecia, Maria Antônia, cujos pais viajariam para uma fazenda perto de Serrinha e as deixariam na passagem. Disse a ele que preferia que se encontrassem na rua todos os dias. Não ficaria à vontade porque estaria ali como convidada. Focado no objetivo principal, ele aceitou sem reclamar. Se concentrou em preparar uma boa conversa que desse para levar a moça para o cafofo.

– E aí, rolou o quê?

– Preparei a caverna com tudo do bom e do melhor.

– É um profissional.

– Birinaites, queijinhos, docinhos e tal e coisa. Até flores, véi.

– Se ela entrasse não saía mais.

– Isso. Esse era o plano.

– Véi, cê não é fraco, não.

– Cara, música ambiente e até uns incensos que roubei de minha irmã.

– Aquela gostosa…

– Olha o respeito, porra!

– Só tô brincando, calma… Então qual foi a zebra?

– Cristiane.

– Caralho… Ela apareceu?

– Vixe, mas ela não tava viajando?

Mauro e Cristiane já eram namorados há quase seis meses e a coisa estava firme de um jeito rápido demais para o que ele queria, mas surgiu uma oportunidade de pausa. Cristiane iria com os pais a Ipirá para as bodas de ouro dos avós maternos e apesar de suas reclamações, eles não liberaram para ela ficar sozinha em Feira. Disseram que micareta tinha todo ano. Quando ela lhe contou, ele fez aquela cara de tristeza porque ela ia viajar, todo um teatro. Por dentro era só alegria. Mesmo sabendo que era um risco trazer Neila para a cidade onde Cristiane morava, apostou que ela não estando lá daria tudo certo. Se o plano funcionasse, nem ia ficar tanto na rua mesmo. Foi nesse ponto que apareceu uma moqueca no caminho.

– Que moqueca, fio?

– Uns dois dias antes da tal festa em Ipirá, a avó dela passou mal.

– Num brinca…

– A véia comeu uma moqueca de vermelho e deu revertério.

– Como foi isso?

– Cris me contou que uma tia dela, nora da avó, levou de presente antecipado.

– Rapaz, esse negócio de nora e sogra é problema…

– Pior é que falaram mal da figura mesmo. Eu queria era matar a mulher!

– Tô dizendo…

– No fim das contas a vó Candinha baixou hospital e as porra.

– Puta merda e aí?

– A festa foi adiada uma semana e a viagem de Cris gorou.

– E aí você desistiu de tudo.

– Negativo!

– Porra, véi. Não era mais fácil cancelar?

– Depois do investimento todo? Duvido que ele fizesse isso.

– É, Dudu, cê tá certo, foi o que pensei mesmo.

– Então como administrou as duas?

– Nem precisei, Alvinho.

– Agora boiei de vez.

– Eu explico.

Na quinta-feira, primeiro dia da festa, pouco antes do meio-dia, os pais de Maria Antônia chegaram à cidade com ela e Neila e foram direto ao local onde ficariam. Era a casa de Seu Aurélio e Dona Cida, os pais de… Cristiane, velhos amigos do casal! Por essa ninguém esperava e Mauro não sabia de nada disso ainda. Maria Antônia tinha voltado de um ano de estudos fora do país. Foi nesse período que o namoro de Mauro e Cristiane começou, então ele nunca ouviu falar dessa amiga de além-mar. Na hora do almoço, aconteceu uma conversa mais ou menos assim, como Mauro soube depois:

– Maria Antônia, minha filha, dê uns conselhos a sua amiga Cristiane.

– Sobre o quê, tia Cida?

– Toda apaixonada por um rapaz aqui de Feira, um grude horroroso.

– Mainha implica com ele…

– Você é tão jovem ainda.

– A senhora pega muito no pé de Maurinho.

– Estudante de Engenharia em Salvador, imagine. Só aparece aqui de vez em quando.

– Que curioso.

– O que, Neila?

– Eu conheço um Mauro, estudante de Engenharia em Salvador.

– Olha que engraçado.

– Ele é cabeludo, tem uma barba ralinha e um Del Rey azul de segunda mão?

– Ora, é esse mesmo. Que coincidência.

O que Mauro não soube é que aquela conversa continuou, mas só com as moças, no quarto de Cristiane. Foi um choque, entre lágrimas e surpresas. Descobriram frases, promessas e presentes repetidos. Diante daquilo, Cristiane decidiu terminar o namoro e Neila pensava igual. Como confiar nele depois de saber de suas mentiras? A raiva foi tomando conta das duas, mas Maria Antônia, mais lúcida, deu a sugestão sobre como resolverem. O plano foi colocado em prática na mesma noite.

– Eita, mermão, que bagaço…

– Cê ainda não ouviu o final.

– Porra, tem mais?

– Cristiane passou na casa de meus pais e deixou um recado. Eu não tava lá.

– O que foi?

– Ia me encontrar na concentração do bloco e que eu não me atrasasse.

– E Neila?

– Já tinha acertado em outro lugar, uma hora mais tarde.

– Então?

– Achei que eu ia conseguir contornar. Tinha um intervalo.

– Aí o rei das escapadas fez o que?

– Me fodi.

– Oxe, qual foi?

– Cheguei lá com umas ideias, mas esqueci tudo.

– Nervoso?

– Não, foi por causa do que eu vi mesmo.

– Larga o doce aí, véi…

– As duas criaturas estavam lá, juntas! E a tal da Maria Antônia também. Aliás, gatinha.

– Porra, tu tá na merda e ainda consegue olhar pra uma terceira?

– É a natureza.

– Conversou com elas então?

– Não deu. Elas tavam ocupadas com os beiços pendurados em dois machos.

– Porra, você foi corno duas vezes, ao mesmo tempo!

– Não precisa falar assim.

– Puta que pariu, se fodeu todo, peão…

– Pior é que olhei pras duas, na frente dos caras e falei “foi mal”. Ainda ouvi as gargalhadas…

– Que merda.

– Mas eu ainda tentei uma última jogada. Chamei a Maria Antônia pra conversar.

– Porra, lutador.

– Não consegui resolver nada com as meninas, mas não ficou de graça.

– Por quê?

– Marquei pra sair com Maria Antônia.

– O cara é um monstro!

– Sério?

– Rapaz, tu morre fazendo barulho, hein?

– Essa história toda me deu fome. Vamo de moqueca?

– Porra, Dudu… Moqueca não, né?

Após o almoço, cada um foi para seu lado. Dudu e Álvaro, que eram quase vizinhos, saíram juntos. Conversaram sobre a história do amigo.

– Velho, Mauro é fodão, viu?

– Por quê?

– O cara toma uma porrada dessa e já sai pegando outra mulher!

– Você acredita em tudo, né?

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