Susy Freitas
I
Você diz que essa foi a última vez. De novo. Que nem na outra vez. Que acabou, lembra? E você segue bêbada pela avenida de madrugada. Cachorros ao longe latem para figuras de um outro plano e garis cortam a escuridão pendurados num caminhão de lixo. Ambos deixam um rastro de sons e cheiros que você nunca mais irá esquecer. Seus dedos sentem as tiras da sandália de salto agulha na tentativa de cortá-los fora. Tudo tenta me despedaçar, você conclui, correto? Essa foi a última vez. De novo. Mas, ao contrário das outras, ele não corre atrás de você, não puxa pelo braço com um cuidado firme que assusta, e vocês não vociferam num descontrole orgástico que conhecem tão bem. Nenhum rito à vista. Ele se foi por completo, e você não sabe se acabou, uma pergunta nova, incômoda, que recobre o seu corpo como suor na noite de outubro, a noite mais quente. Com a cabeça ainda rodando, você pula do meio fio, segue pelo jardim sem flores, apenas a sola dos pés entre tudo que existe dentro de você e a grama esturricada. A cidade é feia e você engordou dez quilos, está completamente sozinha. Sem um tostão na bolsa, e porque não arremessar a bolsa longe, a longneck que não acertou a cabeça do seu amor com aquele último gole de cerveja quente, a última chance. Tem fome, menina?, diz a voz do interfone na guarita do condomínio, e você se aproxima, ele aponta para o lado através do vidro, a porta, e sua cabeça ainda rodando. Você entra, senta, e o som do ferrolho anuncia uma alvorada de pesadelos. A partir de agora, ele sempre estará com você.
II
Você diz que a droga não é sua. Que não sabe como ela chegou ali. Que a garçonete mandou todo mundo entrar no sótão de uma hora para outra por segurança. Que você e suas amigas achavam que era por causa de assalto. Que a polícia revistou, de uma por uma, as quase 20 pessoas que foram levadas para lá junto com você. Que eles não encontraram nada conclusivo que apontasse quem era o dono da droga. Que você nem saberia dizer qual a aparência de trinta quilos de skunk. Que inclusive era a primeira vez que você tinha bebido naquele bar fuleiro. Que todos foram liberados, menos você e suas três amigas. Que os policiais também saíram, menos o delegado. Que o nome dele era [inaudível]. Que ele sacou a arma assim que ficaram apenas vocês cinco no sótão. Que ele só ia deixar vocês saírem quando uma de vocês confessasse de quem era a droga. Que sua amiga mais nova chorou. Que ela levou um tapa. Que você gritou alto que aquilo era abuso de autoridade e que denunciaria ele para a corregedoria, para os jornais e para quem quisesse ouvir. Que você levou uma coronhada na cabeça como resposta e caiu no chão. Que depois disso tudo ficou muito quieto. Que ele subiu sua saia ali mesmo, sob o piso de taco velho e rangendo. Que ele não teve cuidado algum, nem mesmo quando o seu sangue se espalhou pelas coxas. Que a sombra dos coturnos dos outros policiais podiam ser vistas pela fresta da parte de baixo da porta. Que as suas amigas viraram o rosto, porque sabiam que seriam as próximas. Que ele foi de uma por uma, a noite toda. Que quando o sol despontou, não havia mais droga e nem policiais ali. Que apenas a garçonete estendeu uma toalha de rosto manchada de amoníaco quando apontou para o banheiro, onde um balde de água fria estava ao lado da pia sem encanamento. Que os jornais não deram nada sobre os trinta quilos de droga achados pela polícia no Nostalgia. Que, ainda assim, a culpa é sua. É sempre sua.
III
Você diz que é sua primeira vez. Mentira. Mas ele não precisa saber. Você olha as cordas vermelhas, grossas, caindo sobre as florzinhas do lençol como cobras. São lentas e cegas na luz plana da tarde. O tempo tenta parar no seu estômago, um aviso, mas avança dentro nos olhos do seu amante. Olhos azuis, e quando ele sorri, eles não sorriem junto. Estão mortos. Mas você não precisa saber. Ainda. Ele deixa a valise com os duzentos mil no criado mudo e começa o trabalho de trançar as cordas pelo seu corpo, o vermelho e o negro, a pressão seca sobre dobras, ossos e cachos, a suspensão. O mundo visto de cima balança um pouco. Você diz que é a sua primeira vez, mas é a dele, e a palavra secreta é Jacarandá. Ele puxa uma ponta, silêncio. Puxa mais, silêncio. Testa de nó por nó, ou pelo menos acredita que o faz. Parecem firmes. Você faz uma cara que denuncia a verdade, mas ele não vê. Está encantado como uma criança, admira sua obra, um corpo nu que empalidece enquanto as nuvens lá foram anunciam a tempestade. Ele tira a roupa, as veias verdes nas ancas reluzem do corpinho magro de osga e ele se transforma. Você quer brincar com fogo, menina?, ele pergunta com uma voz robótica, e a chama do isqueiro fica entre a mão dele e um de seus cachos. Você fica vesga para olhar bem o perigo, mas ele não desliza o dedo do lugar e a chama permanece, congelada no tempo. O cabelo queimado fede no tapete persa falso. Ele puxa mais as cordas, arqueia suas costas ao limite. Jacarandá! Ele dá um soco na sua boca. Jacarandá! Ele chuta sua bacia. Jacarandá. É só depois disso, e não antes, que ele consegue o que quer, e, ainda com as cordas no corpo, mas estendida na cama, você só implora a deus para que ele termine logo com isso. Não, diz a voz dentro da sua cabeça. Fora dela, seus lábios rasgados em três pontos movem-se numa canção de ninar sinistra e quase inaudível. Ele termina rápido, embora pareça ter durado anos. É quando, num passe de mágica, um nó na altura do seu cotovelo esquerdo se solta. O braço livre vai direto para o pincel Stabilo na cabeceira, o mesmo que o legista apontará, sem esforço, como a causa da morte dele por ter lhe acertado uma artéria do pescoço. Tanto faz. Muito antes das primeiras sirenes do carro de polícia soarem você estará longe, na Cidade do México. Dizem que os jacarandás em flor são lindos nessa época do ano.
