Perdoa, Don’Ana


(Bruno Vicentini)

– Você deixou queimar o feijão – a velha diz. – De novo.

– Perdoa, Don’Ana.

Observo a velha. Vem vindo do fogão. Traz um prato fundo de lata, cheio de um feijão cozido, grosso. Na outra mão a bengala. Deposita o prato na mesa da cozinha, que é pesada, de madeira maciça, e coberta por duas toalhas, uma xadrez e outra de plástico. Arrasta a cadeira antes de se sentar na minha frente.

A velha alcança um pacote em cima da mesa. O cardápio é sempre o mesmo: feijão, farinha. Podia ser outro, porque quem cozinha sou eu, mas a velha não gosta de mais nada. Come de boca aberta, perdendo grãos pela toalha, pelas fraldas. Raspa a colher no fundo do prato, faz estalos com a língua. O barulho da velha mastigando não me acalenta.

Sei que a velha tem família, porque sua filha foi quem me contratou. Depois sumiu, não ligou mais, não veio visitar. Nem ela nem mais ninguém. Imagino um dia em que a filha viesse. A velha trocava o menu, se animava a matar uma galinha, me pedia pra fritar uma carne da lata.

A velha come devagar. Quando o prato estiver vazio, vai me chamar pra jogar baralho. Sei disso porque é assim que passamos as tardes. A velha sempre me faz o convite como se aquilo fosse uma gigantesca novidade, como se nós duas nunca tivéssemos nos sentado aqui, nesta mesma mesa, pra jogar tranca. A velha baixando os jogos por entre os restos de farinha, de feijão amassado, marcando os pontos com os grãos ainda crus. Eu penso em recusar o convite, em dizer que tenho que ir pro centro pagar uma conta, comprar um vestido ou coisa que o valha, mas a velha me chama pra jogar e nesse momento ela faz o convite como se ele fosse de fato irrecusável.

De noite eu ouço um choramingo que vem do quarto da velha. Imagino que seja um pesadelo, um pesadelo meu ou da velha, e então ela começa a chamar o meu nome, uma vez, duas, ouço o barulho de algo caindo no chão, um copo, uma caneca, mas não quero levantar, finjo que não escuto nada, olho pro relógio na mesinha de cabeceira, três e trinta e sete, eu sei que a velha precisa de ajuda, que não consegue levantar sozinha da cama, só quando ela começa a gritar é que eu fico com vergonha dos vizinhos, com medo de que alguém escute, que resolva chamar a polícia. Então eu levanto, calço os chinelos e vou ao quarto da velha.

De manhã ela se senta numa cadeira de fios, em frente à casa, e fica olhando a rua. Crianças chutam uma dente de leite, as balizas são latas de óleo vazias. A velha sorri, torce pra um dos times, quase dança, bate palmas. Não parece que gritou, que chorou, que se debateu a noite inteira. Volto pra cozinha curiosa pra saber de onde vem a disposição da velha, aquela alegria súbita, será que a velha tem netos, gosta tanto de ver as crianças, os brinquedos. Um dos garotos dá um chute mais forte, a dente de leite cai no espinho da roseira, o jogo acaba.

Sento-me à mesa. Eu, ao contrário da velha, estou me arrastando, sinto os braços e as pernas pesados, como se carregasse os membros de alguém muito maior do que eu, como se não tivesse dormido nem mesmo um minuto. Meus olhos ardem, querem pular do rosto. Apoio a testa na toalha de plástico, sinto a textura da toalha xadrez. O barulho da panela de pressão no fogo é ritmado, tem um balanço bom, uma saudade.

***

– Você deixou queimar o feijão – a velha diz.

– Perdoa, Don’Ana.

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