Silvia Argenta
– Dona Dolores, descobri tudo! Se a senhora continuar me importunando, vou contar o que está acontecendo para os moradores – ameaça Virgílio, o zelador titular do Residencial Touperie, envergando seu corpo de um metro e oitenta sobre a mulher com trinta centímetros a menos.
– Não é possível! Você é um inútil! Não consegue enxergar um palmo na frente do nariz! – responde a síndica Dolores.
– Então a senhora confirma que tem rolo!
– Para de me intimidar. Sai de perto de mim!
– Confirma ou não? – pergunta ele se afastando.
– Não confirmo nada não. Você está criando uma história na tua cabeça sem o menor sentido.
– Ah é? Então me diz por que você contratou o Tadeu? Eu dou conta de fazer todo o trabalho de zeladoria sozinho. Não preciso de ajuda.
– Porque você não presta para esse serviço.
– Não? Trabalho aqui nesse prédio faz vinte anos. Nunca tive nenhuma reclamação. Foi só a senhora aparecer por aqui que minha vida virou um inferno. É isso que dá contratar síndico que não mora no condomínio.
– Sou síndica profissional e exijo profissionalismo dos colaboradores.
– Então o Tadeu é mais profissional do que eu?
– Não tenho a menor dúvida.
– E por que ele levou para a casa dele as espreguiçadeiras da área da piscina para lixar e ainda não devolveu? Já tem dois meses isso.
– Porque ele é meticuloso e quer fazer bem feito.
– E eu não sou? Olha, dona, não acho que seja profissional levar trabalho para casa.
– Confio nele e não confio em você. E não preciso te dar explicação sobre as minhas decisões.
– Algumas sim. Não aceito as condições de trabalho que a senhora está me impondo.
– Que condições? Só porque contei para os moradores que você dorme na salinha do depósito?
– Isso não é verdade.
– Ah não? E quando te pedi para trocar a fechadura da porta dos fundos e você só fez no outro dia?
– Só fiz no outro dia porque quando a senhora me avisou eu já estava dentro do ônibus indo para minha casa.
– Se fosse profissional mesmo, teria voltado e arrumado. Deixou o condomínio desprotegido uma noite inteira. Achei bem irresponsável da tua parte.
– Não é assim, dona… Então me demite, oras, já que sou tão imprestável assim.
– Impossível. O condomínio ia gastar muito com tua demissão. Muitas despesas trabalhistas, previdenciárias, etc. Como não tinha jeito, chamei o Tadeu. Ficou mais barato.
– Ah tá. Então o Tadeu trabalha na casa dele e eu fico aqui o dia todo fazendo o meu trabalho, que, repito, não preciso de ajuda, enquanto ele continua a receber salário? Você acha que já não saquei qualé?
– Qualé… Não tem qualé nenhum! – ela responde enrolando os dedos nos caracóis do cabelo curto e loiro.
– Tem sim. E posso provar. Tua empresa de sindicância é laranja. A Sindicenter não existe de verdade. Já pesquisei até na Junta Comercial. Se a senhora parar de me incomodar, não conto nada para ninguém.
– Que petulância, viu?
– Quer mais? Descobri que a empresa de paisagismo que a senhora contratou para revitalizar a área da piscina é tua. Coincidência então? A “Pau que nasce torto nunca se endireita”, olha só, é laranja também.
– Que bobagem, rapaz. De onde você tirou isso?
– A empresa do pau que nasce torto roubou todas as ferramentas do condomínio. Não tenho uma chave de fenda para trabalhar.
– É muita fantasia da tua cabeça.
– Eu vi as notas fiscais com o mesmo CNPJ. Não se faz de desentendida não.
– Agora de zelador você passou para auditor contábil? Foi promovido?
– Queria saber quem foi que te indicou aqui…
– Para de lorota. Deixa eu ir embora.
– Não mesmo. A senhora vai jurar de pés juntos que não me incomoda mais – grita Virgílio, espalmando a mão em cima da mesa da portaria.
– Nem te incomodo coisa nenhuma. Vamos fazer assim: cada um no seu canto.
– No seu canto… Tem ainda a empresa de limpeza. Por que trocou se a outra funcionava muito bem?
– Relação custo benefício.
– E tem planilha com os orçamentos?
– Veja bem, não te devo explicação nenhuma.
– Deve sim porque é mais uma empresa laranja no teu nome. Aqui ó… Lavapato. Mesmo CNPJ que não existe.
– Ai, Deus me ajude para não enfiar a mão na tua cara.
– E tem mais: o rapaz do 401 viu uns saques estranhos na conta do condomínio. Tinha um pix de dezoito mil reais mês passado. Nesse mês mais vinte e quatro mil. A senhora está roubando?
– Que roubando o quê? É tudo pagamento para revitalizar a área da piscina.
– Ah, entendi. É pagamento para a empresa laranja roubar ferramentas e sumir com as espreguiçadeiras. Só se for isso porque até agora não vi nenhum pedaço de terra mexido ali.
– Chega.
– A senhora sabe que vai ser destituída, né? Me confirma tudo isso que te defendo. É só me empregar numa dessas empresas e me mandar um cala-boca todo mês.
– Você inventa demais. Não vou mais ficar aqui ouvindo essa mentirada toda.
Dolores sai do condomínio a pé e vira a esquina. Virgílio não impede e vai atrás. Ele vê a síndica entrando no banco de carona de uma picape. Quando o motorista vê o zelador, liga o carro e sai em disparada. Virgílio corre atrás, mesmo sabendo que não vai alcançar, e berra:
– Seu filho da mãe.
Dolores coloca o corpo para fora da janela do carro e grita:
– Agora só respondo por meio do jurídico! Fica com Deus, Virgílio.
A picape está com a placa coberta por um pano. O zelador volta para o condomínio e conta o que aconteceu para os moradores. Um deles, enfim, resolve pesquisar na internet. No site jurídico, tem mais de vinte processos no nome de Dolores Cabeza com acusações parecidas com o que fez no Residencial Touperie. Pelo visto, a única verdade dessa história toda é o nome dela. Neles também consta como acusado o cônjuge de Dolores, que se chama Tadeu Mole Demais. Em nenhum deles ela foi condenada. Todos os processos estão parados com o mesmo despacho: endereço incerto.
