A caveira e a ovelha

(Angélica)

Quarta-feira

Depois de três dias superagitada no meu apartamento e sem dormir quase nada de noite, resolvi tomar um banho de banheira pra ver se me acalmava. Já tinha mandado várias mensagens pro Nico insistindo pra ele vir pra cá, mas por causa dessa maldita pandemia, ele estava todo enrolado com o trabalho e respondeu que só viria na sexta.

Abri as torneiras, pus uma música suave e fui pra água. Fiquei um tempo pensando nas coisas que eu precisava comprar no supermercado depois que saísse do banho. Não havia quase nada pra comer, porque a minha ansiedade, com seus dentes gigantescos, devorou tudo que viu pela frente, exceto as cenouras, o pepino e uma berinjela, que eu tenho a mania de comprar e detesto comer.

Com a água morna, o chocolate, o macarrão e um bife na cesta de compras, dormi na banheira sem que eu percebesse. Sonhei que meu esqueleto começou a se mexer: ele dobrou a perna e isso fez com que o crânio descesse pelo meu pescoço, que se alargou muito pros lados, e como um bebê recém-nascido, foi em direção ao meu tórax. Depois levantou o braço curvando o cotovelo que logo se encaixou no meu ombro. Sua mão subiu pela garganta e com a ponta do dedo indicador fez cócegas na minha amígdala e também na parte interna do meu ouvido. Foi uma sensação muito boa, que me fez estremecer. O esqueleto voltou a ficar de pé, mas desta vez a subida pelo pescoço não trouxe o efeito de antes. Ele se espreguiçou esticando todas as extremidades do meu corpo e, mesmo retornando à posição original, me senti como uma boneca inflável que alguém encheu demais. Ou talvez um maiô esgarçado.

Devo ter permanecido um bom tempo na banheira porque acordei com frio e batendo um maxilar no outro. Ainda sonolenta, me sentei e quando meus olhos percorreram o caminho pra tirar a tampa do ralo, vi que minhas pernas estavam peludas e que meu pé era enorme e largo como um pé-de-pato. Ao abaixar minha cabeça, me deparei com uma bisnaguinha de festa de criança no meio das minhas pernas. O grito foi tão aterrorizante que fiquei com medo de mim duas vezes. Saí depressa da banheira e fui pro espelho. Permaneci meia hora em cima do tapete encharcado chorando e depois, cansada, não podia fazer outra coisa a não ser ligar pro meu psiquiatra.

Peguei o celular e assim que o doutor Abelardo atendeu, contei tudo o que tinha acontecido comigo. Ele disse que provavelmente eu estava no começo de um surto. Sabe aquele remedinho azul? Lógico que eu sabia. Você já tomou ele hoje, não é? Já. Então, toma mais um agora e dois quando acordar. E fique calma, você está coordenando os pensamentos e isso é um bom sinal. Me liga amanhã e não saia de casa. E se acontecer mais alguma coisa, me avisa. Mais? O que mais pode acontecer?, perguntei desesperada. Ele riu. O bom de ter um psiquiatra bem humorado é que ele ri das nossas desgraças.

Pra não ficar louca de vez, fiz um pacto comigo: você vai jantar o pepino, tomar a medicação, um comprimido pra dormir e se deitar. Amanhã seus peitos e sua bunda redonda vão reaparecer no lugar de onde nunca deveriam ter saído. E se tudo der certo, algum anjo vai comer a bisnaguinha.

Quinta-feira

Quando acordei, meus olhos tinham tanta ramela que foi difícil desgrudar as pálpebras. Demorou alguns segundos pra que eu me lembrasse do meu delírio aquático. Ao puxar o cobertor pra baixo e ver que em volta da camisola havia um tapete peludo, chorei de novo, só que desta vez puxando os cabelos pra cima: eu era a bisneta do Gregor Samsa. Esta constatação me fez chorar mais um pouco.

Num pulo, saí da cama, só que fiquei bambeando em cima dos meus pés, não estava acostumada com eles. Eu queria correr até a cozinha, mas com medo de tropeçar nos meus próprios dedos, fui caminhando bem devagar. Meu andar era parecido ao de um pinguim. Com a cafeteira elétrica nos braços, entrei no banheiro. Enquanto a xícara enchia, abri as torneiras e pus o vidro todo de espuma de banho na água. Não queria de jeito nenhum encarar a bisnaguinha, só de pensar nisso tive uns tremeliques. Assim que as bolhas cobriram a superfície e o café ficou pronto, engoli minha medicação e entrei na banheira.

O que eu precisava fazer era relaxar, apenas isso. Não deu nem dois segundos e meu celular tocou, pela musiquinha era Nico. Por estar muito abalada, em vez de atender resolvi pensar nele. De como se preocupava comigo, da sorte de tê-lo ao meu lado, além de ser muito inteligente, também era gostoso. Morria de tesão quando ele saía da cama de manhã e a calça do pijama descia pra baixo do quadril mostrando a curva do diabo. Só de imaginar essa cena, as bolhas da banheira começaram a ferver e estouravam no ar. Um calor tomou conta de mim. Ao mesmo tempo, percebi um movimento estranho dentro da água. Empurrando a espuma com a palma da mão, vi que a bisnaguinha estava se transformando em uma baguete, na verdade, em uma baguete italiana, dura e grande, e que o bico aos poucos foi aparecendo entre as bolhas que já voltavam pro mesmo lugar. Fiquei tão transtornada que afundei a cabeça. Foi aí que eu notei que todo esse calor se devia também ao fato da água estar pelando.

Liguei pro doutor Abelardo e a primeira coisa que ele perguntou foi se eu havia tomado os dois comprimidos azuis e se tinha alguma novidade. Um pouco envergonhada, falei da minha nova experiência com a panificação. Ele riu e tentou me acalmar dizendo que a mente produz fantasias extraordinárias e que em breve eu estaria bem. Antes de desligar, reforçou que eu ligasse pra ele no dia seguinte.

Confusa e mais perdida que uma ovelha num shopping, passei o resto do dia comendo cenoura crua e chorando. Não tinha nem mesmo coragem de pedir um delivery, de ter que encarar algum vizinho no elevador ou um motoboy no portão. Eu era uma ovelha que virou um carneiro e provavelmente um carneiro gay. Um soluço agudo saiu da minha boca sem que eu conseguisse conter.

À noite, mandei uma mensagem pro Nico: Você me ama? Como ele estava demorando pra responder, tomei o comprimido pra dormir, agradecendo por ter uma caixa quase cheia e fui pra cama.

Sexta-feira

Levantei às seis horas da manhã. A primeira coisa que fiz foi ver se Nico tinha respondido. Não só me amava, como eu era a mulher mais maravilhosa do planeta. Mulher? Engoli seco e descobri que agora eu tinha um gogó. E dizia também que viria à noite pra cá e estava louco pra acariciar meu corpo e rolar comigo por entre os lençóis. Respondi que eu o amava muito, muito mais do que ele imaginava e que estava esperando por ele ansiosa, o que não deixava de ser a mais pura verdade. Ansiosíssima era a palavra certa.

Quando deu oito horas, liguei pro doutor Abelardo e disse que continuava na mesma, ele falou pra agora tomar três comprimidos azuis, e que logo logo tudo ia passar. Me contou de um paciente que achava que era um gato, mas não um gato qualquer, e sim o gato de botas e que inclusive dormia toda noite com as botas. Ele deu sua habitual risada e desligamos. Aflita e baratinada, tomei a medicação e fui pra banheira.

O pior era que ontem eu tinha acabado com o vidro de espuma e agora não ia ter bolhas. Tentei o xampu mas foi um fiasco. Fiquei de olhos fechados imaginando que talvez fosse um surto, mas que também existia a possibilidade de não ser. Até então eu não tinha tocado na bisnaguinha pra ver se ela era real e só de pensar nisso me deu uma angústia profunda. Respirei fundo e deixei minha mão escorregar até a festa de criança, meus dedos relutavam em se aproximar. Pensei em Nico e fingi que a bisnaguinha era dele. Assim que estava presa, pude constatar que ela tinha massa e recheio. Isso me deixou ainda mais atrapalhada. O que ia acontecer se Nico chegasse e eu ainda estivesse nesse estado? Logo um outro pensamento me veio à cabeça: e se fosse a alucinação da alucinação? Algo como um jogo de espelhos sem fim. Isso significava que o diagnóstico era muito pior do que o doutor Abelardo havia constatado. Chorei pela enésima vez e tive que ligar pra ele outra vez.

É assim mesmo, não se preocupe. O gato de botas também pegava no rabo. Eu sabia que ele estava falando isso só pra que eu me tranquilizasse. Meu namorado vem aqui à noite, posso tomar mais um remedinho azul?, perguntei. Não, você está tomando uma dosagem alta, vai passar em pouco tempo, confie em mim. Entre risadas, e lógico que a minha de nervoso, nos despedimos.

Resolvi comer a única coisa que restava, a berinjela. Mas assim que a parti ao meio e senti o cheiro, desisti e joguei tudo no lixo. Peguei a cafeteira, o celular e fui pro banheiro. Era o segundo banho do dia, e eu não me importava de virar uma uva-passa, estava decidida a botar um fim na festinha de criança, sumir com a bisnaguinha e com a língua de sogra. Se eu tinha sonhado com a caveira quando a metamorfose ocorreu, sonhar de novo com ela seria a solução. Depois dessa ideia brilhante, passei um bom tempo olhando fotografias de esqueletos no Google. Quando já estava tonta e havia decorado quase todos os nomes dos ossos, dormi.

Só que no sonho não tinha nenhuma costela, omoplata ou clavícula. E sim um carneiro que saltitava por um pasto bem verde, entre arbustos de manacá cobertos de flores roxas e brancas. Ele usava um batom rosa choque e também uns brincos dourados de bola que brilhavam ao sol e que faziam com que sua orelha fosse pra baixo. E num desses saltos, o carneiro caiu num buraco e perdeu as patas. Como só havia restado os cotocos, não conseguia escalar as paredes e a única coisa que ele podia fazer era berrar. Seu gritinho fino e desafinado foi ouvido pelo dono do sítio, que curiosamente tinha a cara do doutor Abelardo, só que era mais magro. Com uma corda, ele conseguiu puxar o carneiro, que assim que viu suas pernas, começou a chorar. Elas pareciam quatro cabos de guarda-chuva quebrados. E também porque havia perdido uns de seus brincos lá embaixo e além do mais estava imundo. Ficou deitado um tempo mastigando uma moita que se encontrava ao alcance de sua boca. Até que a réplica do meu psiquiatra voltou com um tosador na mão. Ele queria saber se debaixo de todo aquele pelo havia algum machucado. Foi raspando o carneiro, que ficou igual a um rato e tremendo de frio. E quando virou para tosar a barriga, as garras afiadas do aparelho escorregaram e foram em direção ao rabo: doutor Abelardo arrancou fora a salsicha da bisnaguinha. Depois de perceber o que tinha feito, riu muito. O carneiro também ria, mas ao mesmo tempo chorava, já que não conseguia andar. Quando as lágrimas tocaram os cotocos, as lonas dos guarda-chuvas se abriram e estendidas se contraíram com tanta força que se transformaram nos cascos perdidos. O carneiro saiu saltitando pelas montanhas, pelado com seu batom rosa choque e um brinco só, e pensando em qual nome ele, ou melhor, ela, a ovelha, ia escolher. Por causa das flores de campo escolheu Margarida.

Acordei bastante emocionada com essa história, e a primeira coisa que fiz foi olhar se eu tinha patas, cotocos ou algo parecido. Isso eu não aguentaria, com certeza ia desmaiar. Fiquei extremamente feliz em ver que agora um croissant havia tomado o lugar da bisnaguinha. Tão feliz que tive vontade de morder, mas isso também pelo simples fato de estar faminta. Quando saí da água e me olhei no espelho não tive como não gargalhar. O outro brinco do carneiro estava na minha orelha. Tentei tirar, mas não saía. Me achei bonita.

Nico chegou às oito. Depois de beijá-lo muito, perguntei se podíamos pedir uma pizza. Ele olhou pra mim e disse que eu estava com uma cara muito misteriosa. Aconteceu alguma coisa? Respondi com outra pergunta: o que pode acontecer de mais quando se está trancada num apartamento?

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