Como ser um(a) escritor(a)

Lorrie Moore, 68, foi editada no Brasil nos anos 90, pela Cia das Letras (Faça Você Mesma), depois pela Record em 2011 (Ao Pé da Escada), livros hoje encontrados a preço de banana nos sebos da Estante Virtual. E Pássaros da América acaba de sair pela Jose Olympio. Escritora finíssima, tem livros bem-humorados e brilhantes, tanto na ficção quanto no ensaio (escreve direto na New York Review of Books). À procura de coisas novas, baixei no nosso querido site russo o The Collected Stories, que saiu em 2011, e achei a pérola abaixo, a qual traduzi para gáudio de todos. “How to become a writer” saiu no primeiro livro de Lorrie Moore, Self-Help (Autoajuda), que ela publicou aos 26 anos a partir de sua tese em Master Fine Arts. Esta graduação, nos EUA, oferece um curso de creative writing – disciplina em que Moore seria professora por 30 anos. Então parece que o texto funciona.

Como ser uma escritora

Primeiro, você tenta ser alguma coisa, qualquer outra coisa. Uma estrela de cinema / astronauta. Uma estrela de cinema/ missionária. Uma estrela de cinema / professora de jardim de infância. Presidenta do Mundo. Fracasse feito uma desgraçada. É melhor se você fracassar logo cedo — digamos, aos quatorze. Cedo, a desilusão crítica é necessária pra que aos quinze anos você possa escrever muitos haicais sobre desejos frustrados. Um laguinho, uma cerejeira florida, um ventinho roçando a asa do pardal que parte para a montanha. Conte as sílabas. Mostre pra sua mãe. Ela é dura e prática. Tem um filho no Vietnã e um marido que pode estar pulando a cerca. Acredita em se vestir de marrom porque isso esconde as manchas. Ela vai olhar de leve para o que você escreveu e depois vai te mostrar um rosto tão inexpressivo quanto um pão de queijo. E vai dizer: “Que tal lavar a louça?”. Desvie o olhar. Jogue os garfos na gaveta de garfos. Quebre sem querer aqueles copos que você ganhou na promoção do posto de gasolina. Estes são o sofrimento e a dor necessários. E só pra começar.

Na sua aula de inglês do segundo grau, olhe para o rosto do senhor Killian. Você resolveu que rostos são coisas importantes. Escreva um poema villanelle sobre poros. Lute. Escreva um soneto.

Conte as sílabas: nove, dez, onze, treze. Decida experimentar com ficção. Aqui você não precisa contar sílabas. Escreva uma pequena história sobre um homem e mulher bem idosos que acidentalmente atiraram na cabeça um do outro, resultado de um inexplicável acidente de uma espingarda que aparece de modo meio misterioso uma noite em sua sala. Entregue-a ao senhor Killian como seu trabalho de conclusão de curso. Quando você pegá-la de volta, ele terá escrito:

“Algumas imagens são muito boas, mas você não tem noção do enredo.”

Quando você estiver em casa, na intimidade de seu próprio quarto, rabisque de leve a lápis embaixo do comentário dele escrito em tinta preta:

“Enredo é coisa de otário, seu cara de areia mijada”.

Pegue todos os empregos de babá que puder. Você é ótima com crianças. Elas te amam. Você conta pra elas histórias sobre pessoas idosas que morrem de mortes idiotas. Você canta pra elas coisas como “Mulher rendeira”, sua canção favorita. E quando elas estão de pijama e finalmente pararam de ficar se beliscando e caíram no sono, você lê todos os manuais de sexo da casa e se pergunta como alguém poderia fazer coisas como essa com alguém que realmente ama. Cochile numa cadeira lendo a Playboy do senhor McMurphy. Quando os McMurphys voltarem pra casa, vão te dar um tapinha no ombro, vão ver a revista no seu colo e sorrir. Você vai querer morrer. Vão te perguntar se Tracey tomou o remédio certo. Explique: sim, ela tomou, assim que você lhe prometeu uma história se ela tomasse como uma menina grande, e parece que isso funcionou superbem. “Ah, que maravilha”, eles exclamam.

Você tenta sorrir com orgulho.

Você se inscreve na faculdade para uma pós em psicologia infantil.

Matriculada na pós em psicologia infantil, você tem algumas disciplinas eletivas. Você sempre gostou de pássaros. Você se inscreve em algo chamado “Viagem Ornitológica”. Rola de terças e quintas, duas da tarde. Quando você chega na sala 134 no primeiro dia de aula, todos estão sentados ao redor de uma mesa de seminário falando sobre metáforas. Você já ouviu falar delas. Depois de um tempo curto e doloroso, levanta a mão e diz timidamente:

“Licença, esse aqui é o módulo um do curso de observação de pá-pá-pássaros?”.

A classe para e se vira pra olhar para você. Todos parecem ter um único rosto — gigante e vazio feito um relógio sem ponteiros. Um barbudo berra, “Não, é escrita criativa!”. Você diz: “Ah, certo”, como se já soubesse o tempo todo. Abaixa a cabeça e olha sua programação. Se pergunta por que caralhos você caiu nessa. O sistema, aparentemente, cometeu algum erro. Você começa a se levantar pra sair e então, não. As filas para se matricular esta semana estão enormes. Talvez você devesse insistir nesse erro. Talvez sua escrita criativa não seja tão ruim assim. Talvez seja o destino. Talvez seja isso o que seu pai quis dizer quando falou:

“Estamos na era dos computadores, Francie, a era dos computadores.”

Você decide que gosta da vida universitária. Em seu dormitório você conhece muitas pessoas legais. Alguns até são mais espertos que você. E alguns, você saca, são ainda mais burros do que você. Você continuará, infelizmente, a ver o mundo exatamente nestes termos para o resto da sua vida.

A tarefa desta semana na aula de escrita criativa é narrar um acontecimento violento. Escreva uma história sobre como é dirigir com seu tio Gordon e outra sobre dois velhos que são acidentalmente eletrocutados quando vão acender uma luminária mal instalada. O professor vai entregar de volta pra você com os comentários: “A maior parte de sua escrita é suave e enérgica. Todavia você tem uma noção ridícula de enredo”.

Você escreve outra história sobre um homem e uma mulher que, logo no primeiro parágrafo, têm seus torsos inferiores acidentalmente destruídos por dinamite. No segundo parágrafo, com o dinheiro do seguro, eles abrem juntos uma lojinha de bolo de pote. Tem mais uns seis parágrafos ainda. Você leu a coisa toda em voz em voz alta durante a aula. Ninguém gostou. Dizem que seu senso de enredo é ultrajante e incompetente. Depois da aula, alguém pergunta se você é louca.

Decida que talvez deva se limitar a comédias. Comece a namorar alguém engraçado, alguém que tem o que na escola você chamava de “um baita senso de humor”, e o que agora sua aula de redação criativa chama de “autocontrole dando origem à forma cômica”. Anote todas as suas piadas, mas não diga pra ele que está fazendo isso. Invente anagramas com os nomes de ex-namoradas dele e nomeie todos os seus personagens portadores de deficiência com esses nomes. Fale pra ele que a ex-namorada dele está em todas as suas histórias e, em seguida, observe o quão engraçado ele consegue ser, veja que ótimo senso de humor ele pode ter.

O coordenador da sua pós de psicologia infantil diz que você está negligenciando as especialidades do seu curso. Que você gasta todo o seu tempo livre em outras coisas. Você diz sim, você entende.

Nos seminários de escrita criativa dos dois anos seguintes, todos continuarão a fumar cigarros e perguntar as mesmas coisas:

“Mas isso funciona?”.

“Por que devemos nos preocupar com esse personagem?”

“Você usou esse lugar comum de propósito?”

Estas parecem ser questões importantes.

Nos dias em que é sua vez de ler, você olha para a turma com esperança de que eles vasculhem seus escritos em busca de um enredo. Eles olham de volta para você, enrolam, enrolam, daí sorriem de um jeito muito, muito doce.

Você passa bastante tempo jogada e desmoralizada. Seu namorado sugere dar uma volta de bike. Sua colega de quarto sugere um novo namorado. Dizem que você anda se automutilando e perdendo peso, mas você continua escrevendo. A única felicidade que você tem é escrever algo novo, no meio da noite, sovacos suados, coração batendo forte, algo que ninguém nunca viu. Você tem só aqueles breves, frágeis e nunca experimentados espasmos de alegria quando percebe: você é uma gênia. Entenda o que deve fazer. Mudar de curso. As crianças em seu projeto de berçário ficarão desapontadas, mas você tem um chamado, um desejo, uma ilusão, um hábito infeliz. Você, como sua mãe diria, se juntou com uma turminha errada.

Por que escrever? De onde vem a escrita? Estas são perguntas que você faz a si mesma. São do tipo: De onde vem a poeira? Ou: Por que existe guerra? Ou: se Deus existe, então por que meu irmão é aleijado?

Essas são as perguntas que você guarda na carteira, como cartões telefônicos.

Essas são as perguntas, seu professor de redação criativa diz, que são boas para fazer em seus diários, mas não são muito boas em sua ficção.

O professor de redação neste outono está enfatizando o Poder da Imaginação. Significa que ele não quer longas histórias descritivas sobre sua viagem em julho passado. Quer que você comece em um contexto realista mas em seguida o altere. Como DNA recombinante. Ele quer que você deixe sua imaginação navegar, para deixá-la ficar barriguda com o vento. Esta é uma citação de Shakespeare.

Conte pra sua colega de quarto sua grande ideia, seu grande exercício de poder imaginativo: uma nova abordagem de Melville na vida contemporânea. Vai ser sobre transtorno obsessivo-compulsivo e o mundo pega-pra-capar dos corretores de seguro de vida em Rochester, Nova York. A primeira linha será “Me chame de Comida de Peixe” e mostrará um marido suburbano em plena andropausa chamado Richard, que, por ser tão deprimido o tempo todo, é chamado de “Mole Dick” por sua espirituosa esposa Elaine. Você repete para o sua colega de quarto:

“Mole Dick, sacou? Hã, hã?”.

Sua colega de quarto olha para você com o rosto vazio como um grande lenço de papel. Ela vem até você, como uma boa amiga, e coloca um braço em volta de seus ombros caídos. “Olha só, Francie”, ela diz, devagar como um discurso de terapeuta. “Bora sair e encher a cara.”

O seminário também não gosta dessa nova história. Você suspeita que eles estão começando a ficar constrangidos com você. Dizem: “Você tem que focar no que está acontecendo. Cadê a história aqui?”.

No semestre seguinte, o professor de redação está obcecado por escrever sobre Experiências Pessoais. Você deve escrever a partir do que você conhece, daquilo que aconteceu com você. Ele quer mortes, ele quer acampamentos. Pense sobre o que te aconteceu. Em três anos, foram três coisas: você perdeu sua virgindade; seus pais se divorciaram; e seu irmão voltou pra casa de uma floresta a dezesseis quilômetros da fronteira com o Camboja com apenas metade da coxa e um sorriso permanente aninhado num canto da boca.

A partir da primeira, você escreve:

“Isso criou um novo espaço, que doía e gritava em uma voz que não era a minha: ‘Eu não sou mais a mesma, mas vou ficar bem’”.

A partir da segunda, você escreve uma história elaborada sobre um velho casal que tropeça em uma mina terrestre desconhecida em sua própria cozinha e acidentalmente explode. Você chama isso de: “Estimo-lhe as melhoras ou Como virar salsicha”.

A partir da última experiência você não escreve nada. Não existem palavras para isso. Seu computador zumbe. Você não consegue achar palavras.

Nas festinhas da faculdade, as pessoas dizem: “Oh, você escreve? Sobre o que você escreve?”. Sua colega de quarto, que encheu a cara de vinho, mas não comeu nenhum queijo nem biscoito, deixa escapar: “Ah, putz, ela sempre escreve sobre aquele namorado idiota”.

Mais tarde, na sua vida, você aprenderá que os escritores são só textos abertos e indefesos sem uma compreensão real do que escreveram e, portanto, deve acreditar só parcialmente em qualquer coisa e em tudo o que é dito sobre eles. Você, no entanto, ainda não atingiu este estágio de crítica literária. Você endurece e diz: “Eu não”, do mesmo jeito como você disse quando alguém na quarta série acusou você de gostar muito das aulas de oboé e seus pais realmente não estavam forçando você a fazê-las.

Insista que não está interessada em nenhum assunto específico no momento, que só está interessada na música da linguagem, que você está interessada em… em… em… sílabas, porque são os átomos da poesia, as células da mente, a respiração da alma. Começa a se sentir tonta. Olhe fixamente para seu copo de vinho de plástico.

“Sílabas?”, você vai ouvir alguém perguntar, a voz sumindo, enquanto desliza lentamente em direção ao reconfortante branco do mergulho.

Comece a se perguntar sobre o que você escreve. Ou se você tem algo a dizer. Ou se deveria existir algo a se dizer. Limite esses pensamentos a não mais de dez minutos por dia; como abdominais, podem torná-la magra.

Você vai ler em algum lugar que toda escrita tem a ver com os genitais da pessoa. Não pense nisso. Isso vai te deixar nervosa.

Sua mãe virá visitá-la. Ela vai olhar para os círculos sob os seus olhos e entregar a você um livro marrom com uma pasta marrom na capa. Está intitulado: Como se Tornar um Executivo de Negócios. Ela também trouxe a enciclopédia Nomes Para Bebês que você pediu; um de seus personagens, o velho professor da escola de palhaços, precisa de um novo nome. Sua mãe vai sacudir sua cabeça e dizer: “Francie, Francie, lembra quando você ia ser uma psicóloga infantil?”

Você diz: “Mãe, eu gosto de escrever”.

Ela dirá: “Claro que você gosta de escrever. Claro. Claro que gosta de escrever.”

Escreva uma história sobre um estudante de música confuso e a intitula: “Schubert era aquele que usava óculos, certo?”. Não é um grande sucesso, mas sua colega de quarto gosta da parte em que os dois violinistas se explodem acidentalmente durante um recital. “Saí com um violinista uma vez”, ela diz, estalando o chiclete.

Agradeça a Deus por estar fazendo outros cursos. Você pode encontrar refúgio em “Obstáculos Ontológicos do Século XIX” e “Rituais de Cortejo de Invertebrados”. Certos moluscos globulares têm o que é chamado de “sexo com o braço”. O polvo macho, por exemplo, perde a ponta de um braço ao colocá-lo dentro do corpo feminino durante o coito. Biólogos marinhos chamam isso de “Sétimo Céu”. Fique feliz em saber dessas coisas. Fique feliz em não ser só uma escritora. Matricule-se em uma faculdade de direito.

Daqui pra frente muitas coisas podem acontecer. Mas a principal será esta: você decide não ir para a faculdade de direito, afinal, e, em vez disso, você gasta uma boa, enorme parte da sua vida adulta contando às pessoas como afinal de contas você decidiu não trabalhar com justiça. De alguma forma, você acaba escrevendo de novo. Talvez você vá para outra pós-graduação. Talvez você arranje uns bicos e faça cursos de redação à noite. Talvez você esteja trabalhando em um romance escrevendo todas as observações e confissões pessoais íntimas que você ouve durante o dia. Talvez você perca seus amigos, seus conhecidos, seu equilíbrio.

Você terminou com seu namorado. Agora você sai com homens que, em vez de sussurrar “Te amo”, gritam: “Isso, faz isso assim comigo, baby”. É bom para a sua escrita.

Mais cedo ou mais tarde você terá um manuscrito mais ou menos acabado. Pessoas olharão para isso de uma forma vagamente perturbada e dirão: “Aposto que se tornar um escritor sempre foi uma fantasia sua, não foi?”. Seus lábios secam. De todas as fantasias possíveis no mundo, você não se imaginava ser uma escritora nem entre as vinte primeiras. Você diz a eles que ia ser uma psicolóloga infantil. “Aposto”, sempre suspiram, “que você seria ótima com crianças”.

Faça uma careta feroz. Diga pra eles que você é uma espada ambulante.

Saia das aulas. Saia dos empregos. Gaste sua poupança. Agora você tem todo o tempo do mundo. Copie lentamente todos os endereços de todos os seus amigos em um novo livro de endereços.

Vácuo. Mastigar balas para a tosse. Manter uma pasta cheia de fragmentos.

Uma pálpebra escurecendo de lado.

O mundo como uma grande conspiração.

Possível trama? Uma mulher entra em um ônibus.

Digamos que você dispensou um casinho e ninguém mais apareceu.

Em casa, beba muito café. No McDonald’s, peça a salada de repolho. Considere como isso parece com o confete empapado de um mapa: onde você esteve, para onde você está indo — “Você está aqui”, diz a estrela vermelha na parte de trás do cardápio.

Ocasionalmente, um encontro com um rosto branco como uma folha de papel te pergunta se os escritores costumam ficar desanimados. Diga que às vezes eles ficam e às vezes eles ficam também. Diga que é muito parecido com ter poliomielite.

“Interessante”, sorri o rosto branco, e então olha para os pelos do braço e começa a alisá-los.

(Trad. RB)

PROPOSTA

Bem, é exatamente isso o que você vai fazer. Vai elaborar um manual, escrito na segunda pessoa, dirigido a um você possível (que é o caso do conto da Moore). Um híbrido de conto com manual.

O manual desfilará situações plausíveis que podem acontecer ao neófito que quer ser ou fazer algo específico.

Coisas como:

Como ser um Coach, Xamã, Guru ou Mentor das Estrelas

Como ser um Cozinheiro Famoso no Instagram

Como ser um Funkeiro Rico e Transão

Como ser uma Subcelebridade de Sucesso Na Terceira Idade

Como ser uma Prostituta Virtuosa Perante a Família

Como ser um Ativista Político Sensual

Como ser um Pegador de Mulheres Carentes

Como ser um Personal Trainer Holístico

Como ser um Traficante Discreto e Querido

Como ser um Músico Engajado em Causas Sociais

Etc. etc. etc. etc.

Se preferir, pode usar suas próprias experiências na tentativa de Ser Algo Em Que Você Se Frustrou.

Para funcionar como híbrido de manual de auto-ajuda e conto, seu texto deverá ter um antagonista ou mais (pode ser o pai, a mãe, o conje, o professor, a professora etc).

Seria legal também se seu conto/manual tivesse uma audiência para testemunhar os fracassos e sucessos do protagonista (parentes, amigos, namorados etc).

Importante é ir jogando pequenas historinhas de tropeços e vitórias ao longo dessa caminhada na direção do sucesso absoluto.

Escreva, claro, sempre na segunda pessoa.

Em até 10 mil toques.

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