
Era 18 horas quando Maurício começou a preparar seu banho. A festa estava marcada para as 22h. Sabia que antes da 23h talvez ninguém chegasse, mas já tinha buscado os dois pães de metro encomendados da Deli e os acepipes para enfeitar a mesa da sala. É bom se raspar o mais próximo possível da hora de se maquiar, mas se arrumar correndo também é péssimo, sempre fica atrapalhado, a voz desafina, beira a catástrofe. Ele deixou a água quente escorrendo um tempo antes de entrar debaixo do chuveiro para o banheiro ficar bem quente. O vapor abre os poros. Raspou a meia perna, as coxas depiladas com cera ainda aguentavam mais uma exposição sem vexame. Lavou o rosto com seu gel de romã e tirou a barba. Terminou de se lavar e, enrolado na toalha, tentava se olhar no espelho. Esfregou a mão para desembaça-lo e chegou o rosto, de perfil, mais perto, conferindo com as costas da palma a suavidade de sua pele.
Já no quarto, de roupão branco felpudo e toalha vermelha enrolada na cabeça, se olhou no espelho em frente a cama, dobrou um joelho enquanto levava a mão oposta à cintura e se observou fazendo pose. Maurício vestiu a meia calça preta fina e escolheu o vestido branco de cetim, de alcinha e decote V, que deixou sobre a cama:
_ Hoje eu vou me vestir de branco Frozen e tomar chiquérrima meu dry martini.
Acendeu as luzes da penteadeira e começou a se maquiar. Não tinha um nome de drag pra chamar de seu, só fazia isso nas festas em casa, na dele ou das outras bi, que já chamavam ele de Maura, maquiado ou não. Primeiro o corretivo, depois a base, o pó, sombra nos olhos, delineador, contorno das bochechas, nariz e pescoço, blush e, por fim, os cílios, antes de colar as unhas de silicone. Parece que foi rápido, mas até o último anel ser colocado no dedo, o relógio do celular já indicava 22:05 e as mensagens no zap já eram tantas que não conseguia mais saber quem chegaria primeiro.
Viriam não só as bichas do centro, que eram as gays amigas, mas as viadas do Grinder, as da sauna e as da última festa clandestina na Toca da Jiboia. Tinham umas chatas, sim, que Maurício ironizava quando começavam a falar de marca de roupa ou o que fosse nesse sentido. Mas eram divertidas e úteis na hora do babado: jovens, cheias de colágeno, bundinha durinha, advogatas para caso a polícia chegasse com denúncia de aglomeração e médicas, se desse BO.
O interfone tocou. Era Chico. Quando abriu o elevador a bicha gritou:
_ Foi aqui que pediram Coronavac? Que pena, fui no posto pegar a xepa e acabou, só trouxe a pica.
_ Olha elaaaa, a imunizãããda.
_ A senhora tá fina! Vai dar o golpe no Príncipe Harry hoje?
_ Eu já sou uma princesa, bruaca!
_ Bi, cheguei cedo porque tenho uma coisa mã-ra-vi-lho-sa aqui pra gente.
_ Uhhhh, solta as droga!
Chico sacudiu um papelzinho branco no ar.
_ Essa aqui você nunca provou, porque não é essas porcarias que você põe no nariz.
_ Mas a gente vai começar sem beber?
_ Você, porque eu tomei um Manhattan belíssimo.
_ Ai, que enjoada! Então vamos logo antes que chegue as bicha tudo doida querendo padê.
Foi o tempo de colocar a azeitona no primeiro drink e o elevador parecia cativeiro desativado pelo Greenpeace, soltava um monte de bicha no 12º andar. Jessie Ware tocava enquanto todo mundo se servia de whisky, gin, vodca, energético. Ao lado do pão de metro cortado em fatias, carreiras de pó eram estendidas e sugadas por narinas ávidas. No amparador entre a copa e o lavabo, funcionava uma espécie de farmácia da festa. Ketamina, para as passivas; MD na água, para as dançarinas.
As idas à cozinha para fazer drink eram o relógio cada vez mais descompassado de Maurício, porque só as quantidades de garrafas vazias diziam, ainda que vagamente, sobre quanto tempo tinha se passado. Três Absoluts, dois Jack Daniels e muitos restos de limão mamados. Um barulho atrás da geladeira e um pau pra fora indicavam que no cativeiro aberto só tinham mesmo mamíferos, todos famintos. Maurício se encostou na pia para ver a cena enquanto tomava o primeiro gole do seu drink número desconhecido. Chegou a dar uma babadinha no canto do batom vermelho, que limpou com a ponta do mindinho e voltou para a sala.
Na porta da sacada, subiu num banquinho de jacarandá e gritou:
_ Hora do Drag Race, suas mamíferas!
De onde estavam, cada uma levantou um bracinho para cima comemorando e exprimindo “uuuuuh”’s.
_ Vamos organizar as imunizadas. Pifãizer para direitaaaaaa, Astrazeneca para a esquerda e as comorbidades lá no fundo que eu não quero ninguém caindo dura aqui hoje.
As bichas desfilaram, bateram cabelo, fingiram que sabiam dançar vogue, fizeram concurso de melhor vestido e separaram torcidas. Encerrado o desfile, começaram as dublagens de divas pop, enquanto a farmácia funcionava a toda no corredor. Por volta das 4h, a baixa na festa tinha sido de mais ou menos 5 pessoas. Às 6h, mais três. Chico continuava por lá, gostava de ver o dia raiar junto de Maurício. Às 8h, uma bicha de jaqueta de couro, cheia de tachinhas, calça de vinil preta e coturno branco levantou, saindo da discrição pela primeira vez.
_ Viada, eu tenho um negócio aqui pra gente – disse para Maurício, que fumava no balcão de vidro verde da varanda.
_ Tem mais padê?
_ Não, essa azulzinha, valiosa.
_ Para viado, não faço viagra, coisa de bicha que nasceu hétero.
_ Amor, não é viagra e deixa mais duro que um jumento.
Era metanfetamina. Maurício nunca tinha nem visto, achava coisa do Breaking Bad, já que no Brasil só tem craque. Pouco tempo depois, Maurício e a bicha da bota branca estavam no quarto transando. Chico assumiu o controle do som e colocou Arca para entrar no mood de dar uma geral nas garrafas da cozinha. Tirou o tênis e calçou a sandália dourada de salto e plataforma na frente que Maurício tinha largado pela sala quando, já bem louca, disse que ele era a Frozen, mas mais fina. E andava na ponta do pé, deslizando pelas laterais por causa da meia calça.
Chico, a cinderela tecada tinha se animado e estava deixando a cozinha um brinco quando o the royal couple voltou para a sala. De Frozen, Maurício passou a ser Elvira, com o vestido todo amassado e delineador pela cara inteira.
_ Amiga!, disse rindo, a senhora tá a própria Nana Gouvêa depois do furacão.
_ Tá fazendo o que na cozinha, bruaca? Procurando uma faca pra me matar?
Chico riu, mas com impaciência. A cara do amigo estava um pouco fora de ordem e seu olhar transtornado.
O da bota branca tinha uma voz grossa. Apareceu na porta da cozinha já calçado.
_ Maura, a festa foi uma delícia e eu vou nessa.
Maurício não conseguiu formular o que dizer, balançou a cabeça e acenou com a mão. Chico acendeu um cigarro e ele pediu um também, mas não conseguiu coordenar a mão no isqueiro. Chico acendeu em sua própria boca, deu a ele e o chamou para a sala. Devia ser próximo de três da tarde do sábado. Ao passar em frente ao espelho em cima da farmácia, Chico continuou rumo à sacada e Mauricio parou.
_ Chega!, disse para sua imagem. Essa maquiagem está medonha!
Chico voltou até ele e perguntou se o amigo estava bem. Disse que podiam ir ao quarto, começar a sessão SPA pós-festa, em vez de alongarem com mais um drink e mais dois cigarros.
_ Já amanheceu o dia, tira a make para não dar pelo encravado, bi, disse Chico.
Como Maurício na respondia, ele mesmo foi até o banheiro da suíte, pegou o pacote de algodão na gaveta e molhou as rodelas no demaquilante para o amigo. Ele passava no rosto e saía uma massa bege e preto com rajadas vermelhas no algodão.
_ Vem, Bi, liguei a torneira quente para você passar uma aguinha no olho.
A água escorria pelas mãos de Maurício e ele se olhava fixo no espelho.
_ Chega! Você é horrorosa! Sai daí!
_ Amiga, eu posso ir embora, mas acho que você não tá bem. O que você tomou? Tá sentindo algo?
_ Você se acha Sharon Needles? Eu vou te rasgar toda!
Maurício gritava apontando a unha de silicone em formato pontiagudo e esmalte verde água, de novo para o espelho.
_ Vou abrir o chuveiro e você vai tomar um banho.
_ Não quero banho, quero que essa puta saia da minha cara!
Ele passava as unhas no rosto como um tigre coçando a própria testa. Seus punhos eram tão fortes que, ao tentar impedir, Chico parecia tentar remover uma viga de aço com uma pinça. A luta fria entre Maurício e ele mesmo e de Chico com as unhas que tinham se tornado uma arma durou alguns minutos até que os braços do amigo foram cedendo e ele conseguiu o colocar debaixo do chuveiro.
Embaixo d’água por longos minutos, Maurício ia mudando de feições, como se estivesse discutindo fervorosamente com alguém e ambos passassem a se entender, mas em que o desfecho era aquele silêncio com cada um dos envolvidos em um sofá olhando para baixo.
Chico tirou o vestido dele e não pôde deixar de notar um pau meia bomba sob a meia calça, já toda desfiada, vestida sem cueca. Achou que precisaria chamar uma ambulância para o amigo, que sem nenhum pedido dele pegou o sabonete e passou debaixo do braço e inclinou o rosto para a água que caía.
