por Américo Paim
Segunda-feira
Eu não sei a razão, mas me veio à cabeça Madalena, minha amiga, vizinha do outro lado da rua. Chequei seu nome e número no celular. Imaginei seu rosto sem ver antes na foto do WhatsApp e… bingo: eu a reconhecia. Lembrei até de coisas quando nós duas éramos mais jovens. Tudo aquilo era mesmo real. Foi uma espécie de alívio. Me olhei no espelho. A mulher de meia idade, rugas e brancos aqui e ali estava lá: Maria Geralda Gonzaga da Silva.
Essa maluquice toda porque desde hoje cedo me achei esquisita. Como se a vida estivesse começando ou fosse um sonho estranho que persistiu quando eu acordei.
Algo estava diferente. Não era a casa, seus cheiros e cores, nem mesmo os meus gestos e comportamentos. Queria conseguir explicar. Será que é assim que nos sentimos voltando de um coma? Sei lá. O fato é que queria tirar aquilo a limpo com alguém e tinha que ser ela.
– Madá, minha filha, pode falar?
– É favor?
– Que é isso, mulher?
– Dinha, cedo assim… Aí tem!
– São dez horas! Preciso conversar.
– Sei… como respirar.
– Oxe?
– Não é o que a gente faz todo santo dia?
– Mas é outra coisa.
– Se não é fofoca nem quero saber…
– Peraí, criatura, me escute.
– É o que, menina?
– Estou me sentindo como se tivesse chegado no mundo hoje.
– Tá doida?
– Sério. É como se eu nunca tivesse sido mulher.
– E era o que? Jiboia?
– Homem.
– Deus é pai, aí é grave mesmo…
– Me ajude, amiga.
– Agora tô fazendo almoço. Venha aqui tomar um café duas horas.
“Quem pede recebe, quem desloca tem preferência”. Me assustei quando pensei nessa frase e apurei na Internet que era do futebol. Nunca me interessei por isso, mas estava lá na minha memória. Como? Fui fazer o almoço e eu parecia bem à vontade na cozinha, sem surpresa. Só me incomodou um pouco perceber que liguei o rádio na resenha esportiva do meio-dia. A coisa piorou quando eu procurei cerveja na geladeira e fiquei de pé olhando para o vaso na hora que fui ao sanitário. Umas esquisitices que me assustaram, mas que duraram um nada. Contei tudo isso a Madá.
– Dinha, você tá sentindo alguma coisa? Dor de cabeça, memória fraca?
– Não, já lhe disse. Essas coisas apareceram.
– O resto tá normal?
– Quase. Tem mais coisa. Eu cocei o saco.
– Oi?
– Quer dizer, foi um reflexo. Meti a mão lá embaixo…
– De onde veio isso?
– Foi logo depois do arroto bem alto que soltei na sala.
– Ué, isso é normal.
– Não. Foi meio forçado e deu aquele prazer no final. Quase como gozar.
– Jesus…
– E na sequência…
– Pode parar!
– Será que é a pandemia? Depois da Covid aconteceram coisas estranhas.
– Mas já tem um tempo que você teve.
– Diz que aparece do nada, fia.
Terça-feira
Amiga boa é assim mesmo. Logo cedo ela veio me ver, saber como eu tava. Meu sono foi bom, mas acordei no susto outra vez. Contei a ela o fim do sonho. Ela riu e me deixou mais preocupada ainda.
– Como é, fia?
– Desse jeito. Me tocando toda, mas não era como autoexame dos seios. Era tesão mesmo.
– Menina…
– E a mão na xana na hora que acordei? Cheguei a sentir como se tivesse um pau.
– Eita.
– Foi um alívio ver a abandonada lá, quietinha.
– No sábado o Bené dá um jeito nisso, né?
– Quem?
Curioso eu reagir como se tivesse apagado aquilo. Madá trouxe de volta. Já fazia um tempinho que Bené dava em cima e eu só enrolando, remoendo os meus três anos de separação do Jorge. Até que cansei e dei espaço pro cara. Afinal, o homem disse que sou a mulher mais bonita que ele já viu. Mentiroso safado, mas eu gostei. E dessa semana não passa. Coloquei tanta dificuldade por causa da pandemia, mas o danado cumpriu tudo. Tá até merecendo.
– Dinha, você tá parecendo uma estrela, com mil exigências.
– Oxe, a gente vai jantar aqui. Só pedi isolamento social de uma semana e teste de Covid.
– Só, né?
– Tá rindo por quê? Não tomei a segunda dose e ele também não. É pegar ou largar.
– Se ele quer, né?
– E ainda é puro risco. Se não rolar uma sintonia?
– Ah, minha filha, por favor. É só diversão, não é pra casar!
Quarta-feira
Passei o dia arrumando a casa toda e no fim da tarde ainda tive gás para acompanhar um programa de malhação na Internet. Fiquei mortinha com farofa.
Depois do jantar fiz minha lista de compras pro sábado.
Vou fazer uma receita afrodisíaca e deliciosa de espaguete com camarão no estilo tailandês. Não tem como dar errado e vai que pode até ajudar o bendito lá a funcionar. Mal não vai fazer. Será que ele vai usar um azulzinho da vida?
Ele vai trazer o vinho. Também tem que gastar, né? E com a sobremesa maravilhosa de tortinha de brigadeiro com chocolate, esse homem vai ter que fazer milagre, só digo isso.
Quinta-feira
Que trampo desesperado. A pandemia me sacaneou. Me vi com um vestido que tava largado lá no armário, confiada que ia ser batata, só limpar e usar. Engordei! Chorei muito, mas a santa Madá me ajudou e conseguiu umas dicas de um brechó maneiro.
Venci o medo retado de sair, mas valeu. Tinha tanta coisa bonita que ficamos por lá quase três horas. Madá se acabou de rir e me esculhambou porque mandei o pobre ficar em isolamento social e eu lá na loja quase aglomerada. De máscara o tempo todo, álcool em gel por minuto, além de quase falar com a vendedora por celular de tão longe que fiquei. O vestidinho ficou perfeito. Nem vai ter que ajustar.
Sexta-feira
Consegui que Carminha viesse fazer unhas e depilação aqui em casa. Uma fortuna.
Queria fugir da fofocalhada toda do salão, mas ela trouxe foi coisa. Meu nome tava em boca de matilde por lá essa semana. Contaram até do Bené, que ele tava todo animadinho por aí, falante que só. Um bando de puta invejosa, isso sim.
A depilação foi bem convencional. Lá ela tá parada há muito tempo. Foi bom não inventar.
Sábado
Depois da feira e do mercado, eu precisava de descanso e conversa. Madá teve que aguentar a minha ansiedade.
– Tô uma pilha…
– Calma, fia, vai dar tudo certo.
– Não quero criar expectativa. Se eu não gostar da conversa, por exemplo?
– Conversa?
– É, uma coisa é ficar de papo aqui e ali, outra é receber pra jantar, ele cheio de más intenções.
– Tomara! Tem que atualizar esse aplicativo aí…
– Senão a gente esquece, né?
– Ah, isso não. Aliás, comprou camisinha?
– Que jeito, né? Tava pensando se eu devia dar assim já no primeiro encontro.
– Oxe, vai esperar o quê? Cotação da Bolsa? Jesus mandar bom tempo? Solta tudo, fia.
– Nem me lembro quando foi a última.
– Segura na mão de Deus e vai, ou melhor, dá!
– Lembrei de Caetano: “Se eu fosse mulher, seria do tipo bem dadeira” …
– Como assim “se fosse”?
– Ah, foi outro daqueles sonhos malucos, ontem na madrugada. Deixa quieto…
Fiquei o resto do dia só pensando naquilo, de olho na hora do jantar.
Ele chegou no horário. Gostei disso, mas achei perfume demais. Lhe dei logo álcool em gel e mandei deixar o sapato no tapete. As roupas estavam normais, não vou reclamar. Trouxe flores também – achei que podiam ser menores. Tive que dividir em dois vasos. Coloquei o vinho no balde de gelo. Me disse que eu tava linda. Ai dele se não falasse. Fomos pro sofá. A conversa foi até boa depois daquela tensão inicial. Bastaram uns goles e risadas e a coisa engrenou. O beijo foi meio estranho, uma língua meio lixenta, mas foi melhorando à medida que o nível da garrafa descia. Foi subindo aquele calor, mas dei uma controlada com uns tira-gostos e a deixa para o jantar.
A comida fez sucesso. Elogiou tudo. Pensei que ia reclamar que tava pouca, mas foi de propósito. Poupar energia pro segundo tempo, né? Botei uma musiquinha. Sade Adu. Tesão no ponto certo. Me puxou pra dançar. Também gostei da pegada e das condições preliminares. Será que ele veio viagralizado? Mais uns bons amassos e eu já tava achando tudo lindo. Fomos para o quarto e aconteceu. No fim das contas, a gente não esquece mesmo. Só que não foi sem problemas.
Domingo
– Conta tudo!
– A coisa ficou um pouco complicada.
– O que foi?
– Demorei um pouco demais no banheiro. Bateu uma dúvida sobre dar ou não.
– Oxe, de novo isso? Outro sonho?
– Pior é que foi. Com um monte de mulher pelada e eu gostando. Aí eu dei uma surtada.
– Mas rolou ou não, mulher?
– Rolou, mas ele não gostou que foi tudo no escuro.
– Como assim?
– Foi minha condição: breu. Disse a ele que memorizasse o espaço pra não se perder e pronto, foi assim.
– Que doideira foi essa, mulher?
– Teve mais. Ele queria, mas eu disse que não chupava assim de primeira. No meu sonho eu só via xana. Achei que era um aviso de alguma coisa.
– Sim, de que você tá ficando maluca.
– Ele tava tão louco que topou tudo.
– Ufa. E aí, deu ou não?
– Dei. Foi sofrido. O homem é muito grande. E olhe que eu me preparei toda no banheiro. Lubrificante e tudo o mais. Demorei a entrar no clima, mas correu tudo bem. Falou umas coisas meio sem noção na hora, mas relevei. Homem, né? No fim das contas, foi melhor do que pior e ele acabou dormindo lá.
– E de manhã?
– Despachei logo. Veio falando da ex-mulher.
– Tipo o quê?
– Coisas que ela topava na cama e que ele gostava. Umas taras, palavrões, umas dancinhas. Tava tudo bem até que ele perguntou…
– O quê, Dinha?
– Um arrodeio, um cerca lourenço…
– Fala, fala! E aí?
– Aí? Aí eu me vi e me desejei, menina!
– Valei-me, o que foi?
– Veio com uma questão de fundo a analisar.
– Entendi nada, fia.
– Porra, Madá, ele quer o cu! Você acha que eu tenho obrigação disso?
– Vixe! Você gosta?
– Ah, não, minha filha! E com aquele equipamento ali, eu prefiro voltar a ser homem!
