Uma breve história da consciência

Leandro Reis

Dia 1

Me deram caneta e papel, como os sádicos que são. Já não sei quando cheguei aqui. Não há dia discernível, como não havia antes de chegar.

No quarto – decidi chamá-lo assim – há um colchão sobre a armação de ferro – que decidi chamar cama, embora pudesse dizer maca. Do outro lado, a divisória do banheiro. Nas outras duas paredes, não há sequer janelas, apenas a porta de saída, naturalmente trancada.

Às vezes penso que minha vingança podia ser descrever este quarto inócuo infinitamente – as paredes de cimento sem tinta, o teto baixo riscado por teias de aranha, o assoalho gelado tocando a areia abaixo dele: porque devo estar numa praia, ouço barulho de mar e de vento revolvendo os grãos da areia – e não relatar o que imagino que queiram, o óbvio, minha experiência depois de acordar com o sexo trocado.

Também não sei como cheguei. E começo a desistir de recordar. Posso estar aqui há semanas ou meses ou anos. Meus cabelos, minha barba, minhas unhas não parecem grandes demais; mas isso não significa nada, podem ter entrado aqui, me drogado e refeito minha cara, assim como devem entrar aqui para deixar comida e recolher os restos.

Toda a vida anterior parece uma foto esgarçada. A memória existe em paralelo, como se testemunhasse o sonho de alguém. Talvez eu estivesse dormindo, ou na frente do computador, ou tirando o lixo quando aconteceu. O mais provável é que estivesse fora de casa, voltando do supermercado. E largado as sacolas no meio da rua numa cena difícil de ignorar. Alguém pode ter chamado a polícia.

Mas não vão me encontrar num lugar inóspito como imagino que seja este. Não quero que me encontrem.

Dia 2

Percebi que tinha desmaiado no piso do banheiro quando senti a perna dormente de frio. Reflexo da cirurgia ou das medicações que me injetam enquanto durmo, ou penso que durmo. Estava tão fraco que de início não consegui me levantar, deixei o corpo cair de novo, sentado, e encostei na parede. E ouvi o corpo dele me chamar, desferindo socos no concreto, contando seus sonhos de emparedado.

No seu sonho ele sobrevoava o asfalto com a mulher engatada nas costas da jaqueta. Decidiam o caminho sem distinguir as letras nas placas, imergindo ao acaso na penumbra das bifurcações, a mulher como uma planta envolvendo os ombros nas curvas. Paravam nas cidades cujos habitantes não tinham rosto nem linhas nas mãos abertas em saudação, oferecendo as casas e os quartos para descansarem. E para foderem de janela aberta, a sombra dos galhos vibrando nas costas brancas da mulher.

Agora que a barra do tecido molhava na água empoçada embaixo da pia, eu notava o que vestia, uma espécie de túnica ou roupa de hospital. Suspendi o tecido para espremer a água no ralo, tentando me equilibrar ainda zonzo. A voz do homem emparedado continuava a contar seu sonho, distante, uma gravação muito antiga, tocada num aparelho extinto. A mulher desfalecida impondo a nudez que ele estudava apenas com os olhos, como um mapa. Um mapa que precisava decorar, porque seus traços se tornavam vagos como os de seus anfitriões, apagados pelo vento da estrada.

Sentado no vaso, tentei não olhar para elas, para as peles que guardam meus lábios, tentei não revirá-las em investigação.

Dia 3

Sádicos que são, hoje destrancaram a porta.

E será que foi hoje, mesmo? Ou depois de deixarem a caneta e o papel no quarto enquanto eu dormia, resolveram não trancá-la, porque sabiam que eu já não tentava abri-la? Faz parte da segunda fase do experimento, primeiro a caneta e o papel, agora a liberdade, uma liberdade vigiada?

Abri a porta, e o vento salgado confirmou as suspeitas: eu estava numa espécie de cubículo paradisíaco. Parece que meus sequestradores também têm senso de humor. Depois de cortarem meu pau me puseram numa praia deserta com uma mulher, mas sozinho, porque eu mesmo sou esta mulher.

Comecei a caminhar margeando a água, varrendo o mar com os olhos na esperança de encontrar alguma embarcação que vagasse ali. Como é o nome deste lugar?, eu perguntaria ao meu salvador; ele responderia um nome de mulher, como às vezes se chamam praias e barcos, um nome que talvez eu assumisse neste novo batismo.

Ou talvez ele me estuprasse e me deixasse ali, na areia, com o vestido no pescoço, numa outra espécie de batismo, por que não?

Já devia estar na metade da segunda volta quando desisti de me convencer de que não, não era possível que aquilo fosse uma ilha. Absoluto desespero, retorno correndo para a casa contorcendo a boca entre o pranto e o horror.


Dia 4

De novo um grande branco, horas ou dias se passaram, e acordei hoje de manhã deitado numa pedra a uns dez metros da praia, o rosto ardendo de sol. Devo ter subido ali para ter certeza de que estava sozinho na ilha.

Não havia, de fato, nada além de areia, algumas pedras como a que eu pisava, uma vegetação parca ladeando a entrada da praia; aves irreconhecíveis voando muito longe, peixes pequenos e velozes nas piscinas dentro dos recifes.

Na casa a assepsia contumaz, como se tivessem acabado de limpar e esterilizar. Mas desta vez a divisória do banheiro estava aberta. Escrevendo agora, revendo o episódio, me pergunto por que não tentei me armar com um galho lascado ou uma pedra. Ou pelo menos ter saído correndo dali. E correr para onde? Para o barco do marinheiro estuprador?

Dei o passo seguinte para frente e, sem entrar no banheiro, vi que ainda estava sozinho. Depois, quando entrei, muito aliviado, dando mais um passo em direção ao box para me certificar, veio o golpe, certeiro, a segunda e mais profunda operação, agora diante dos olhos: a imagem completa do que eu sou, daquilo, imposta num espelho vertical.

Dia 5

Engraçadas as palavras que aparecem quando tiro a roupa em frente ao espelho: peitos oblongos. Onde li esta merda, oblongo, que traduz sonora e visualmente (porque a própria palavra descai) como meus peitos seriam quando velho – velha – caso prosseguisse com isto?

De tarde me encontrei no banheiro, ali, em frente ao espelho. Estava simplesmente de pé, dedilhando a boceta, desperto de um transe. Ainda não tenho meus peitos oblongos, mas se esses apagões servem para que sigam intervindo em mim, talvez em breve eu perceba os calombos arredondados crescendo até desabrocharem em tetas.

Há pouco escutei, de novo, os murros na parede.  

No sonho do homem era sempre de noite, e o rosto da mulher branquíssima, depois de ter os traços completamente apagados, foi retomando o desenho simétrico, evidente, da mulher que eu deixara na vida anterior. Então minha mulher levantava da cama enquanto o homem emparedado dormia, afogado nos traços dos outros, impossibilitado de recordar. Por isso me chamava, para acessar o passado que também lhe dizia respeito, antes que a mulher pudesse desaparecer na estrada, deixando as duas memórias – a minha e a dele – acesas, brevemente acesas e amarelas, iluminando as ruas da vila.

À noite, agora, um silêncio infernal; nem o mar parece existir. Talvez não exista mesmo, ou tenha finalmente engolido o resto da areia e este quarto, e submerso não ouço nada senão meu próprio assombro sem voz.

Dia 6

Acordado de madrugada, meu corpo içado até uma cadeira, esmagado pela luz branca de uma luminária. Do outro lado da mesa, um homem sem rosto:

– A operação foi muito bem-sucedida. Gostaríamos de parabenizá-lo pela paciência e pelo cuidado com que tratou nossa boceta neste lugar tão hostil à vida humana.

– Por que eu?

– Uma cidade feita só de madeira. Uma muralha construída ao redor de uma piscina sem fundo. Um abismo onde se cai para cima, como um céu que suga. Seu caralho rolando no quebrar das ondas, logo ali, junto das conchas e dos siris.

– Quando vocês me pegaram? Eu estava no supermercado?

– Vou fazer uma confidência: não sei se estou autorizado, mas gostaria de dar belos peitos para você. Desnecessário dizer que a decisão é inteiramente sua.

– Minha mulher sabe? Minha mãe?

– Seria uma intervenção pouquíssimo traumática. Nem se compara à primeira. Um cirurgião da equipe filmou sua operação para mostrar aos alunos, tamanho o sucesso. Ele chamou o vídeo de “O nascimento de uma boceta”. Naturalmente, sendo o ator principal, você pode opinar. Atriz principal…?

Isso é o que lembro, e anoto logo depois de acordar mais uma vez no banheiro. Desta vez eu que esmurrei a parede até não sentir as mãos. O homem emparedado não estava lá ou está morto.

Dia 7 

Hoje amanheceu chovendo. Fora da cidade, a chuva, mesmo torrencial, parece óbvia. Água por todos os lados, por que não escorreria do céu?

Saí da casa com a vaga intenção de não voltar, ser afogado pela chuva ou soterrado pela massa de areia deslocada pelo vento, atingido pelos raios que começavam a cair. Caminhando perto da água percebi os papéis e a caneta na mão e tudo aquilo me pareceu natural. Na folha em branco levada pelo vento os contornos de minha mulher se esboçavam. Ela subia a barra do vestido para entrar na água e, quando a cintura já submergia, passava a nadar até um recife. Quem a ajudava a subir nas pedras era o homem emparedado, usando com destreza as minhas antigas roupas. Da areia, ainda consegui distinguir as silhuetas entrando num barco antes que fossem engolidas pelas nuvens.

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