Como ser um cartunista famoso

Se você tem talento, desenhe sempre. Sonhe em ser o Laerte. Peça as revistinhas dele em todos os aniversários, se não entender direito as piadas, olhe pras tiras e veja como os personagens se movem na página. Se você só ganhar canetinhas coloridas, finja que ficou contente.

Treine fazendo uma tirinha da sua família: desenhe seu pai e sua mãe de maiô no jardim, rindo e com um copo na mão. Na mesa ao lado, uma garrafa de vodka pela metade, alguns limões, uns inteiro, outros espremidos, e um balde de gelo vermelho em forma de maçã. Não esqueça que do lado da sua mãe está seu irmão mais velho que cutuca o pinto, ele tem a mania de fazer isso, às vezes baba um pouco, faça as gotinhas escorrendo. Coloque na ponta, o menino magricela que olha pro bloco de papel, mas por ser estrábico, com o outro olho vigia o nível da garrafa pra saber a hora de dar o fora. Finalize o desenho com seu pai dizendo num balão: querida, o almoço hoje vai ser caipirinha?

Ao mostrar pros seu pais, eles vão dar muitas risadas e cobrir você de elogios já que tomaram vários copos. Não tenha vergonha de se sentir o máximo. Também vão prometer a revistinha que você quiser, o que vai fazer você pular. Fique quieto quando seu irmão estiver possesso porque não vai ganhar nada, nem presente nem elogio e reclamar pros seus pais que o desenho que você fez dele é de um débil mental. Em vez de passarem o olho na tirinha como tinham feito antes, seus pais vão olhar com atenção e não vão gostar nem um pouco do que estão vendo. Se mantenha firme se eles disserem que você é um monstro. Você sabe que vai ser massacrado pelo seu irmão, por seu pai e levar um beliscão da sua mãe. As unhas dela são afiadas e vão entrar na sua pele como uma baioneta. Suas canetinhas vão ser confiscadas por tempo indeterminado e a revista que você ia ganhar vai pro beleléu. Aguente sem deixar cair nenhuma lágrima.

Primeira lição: nunca desenhe seus personagens como eles são na vida real, principalmente se você tiver um irmão pervertido mirim.

Se conforme de que você não vai passar ileso por essa família, mas pelo menos isso pode render boas histórias.

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Continue a comprar as publicações do Laerte e passe bastante tempo em cima delas pra se inspirar. Faça as suas tirinhas e se você achar que estão lamentáveis, não mostre pra ninguém. Comentários ácidos podem acabar com a sua carreira que mal começou. Não seja um aluno insignificante que passa boa parte das aulas rabiscando no caderno. Se algum professor chamar a sua atenção por isso, use o truque de ficar com um olho na lousa e o outro no desenho, ele vai ficar confuso e desistir de você. Se sua melhor amiga quiser que você faça uma tirinha dela, desconverse e sugira uns gatinhos. Por ela não parar de perturbar, proponha uma troca: o trabalho de química pelo desenho. Ela vai topar na hora. Faça os olhos levemente puxados, o cabelo preto abaixo da orelha, a boca fina e não deixe transparecer que ao chegar no nariz, seu lápis tremeu. Nesta hora é importante você se lembrar da sua primeira lição. Se controle e diminua brutalmente o tamanho dele, de um sonho faça um beijinho, pequeno e delicado. Ignore a pele de canjica, e não coloque de jeito nenhum bolotas espalhadas pelo rosto. Ela vai se achar magnífica. Se você estiver com preguiça, invente um diálogo bobo qualquer, sua amiga não está interessada nisso e sim em se ver no desenho. Peça pra não mostrar pras outras colegas ou o boato vai se espalhar. Você no fundo sabe que ela vai fazer isso, então não se irrite se todas alunas da sua classe ou do colégio quiserem uma tirinha. Mesmo que você não vá fazer porcaria nenhuma, sorria. Um exército de garotas não vai largar do seu pé e nem parar de encher o seu saco. Use a cabine do banheiro como esconderijo na hora da saída e só saia de lá quando o pátio estiver vazio. E não se desespere se você não conseguir abrir o trinco e for resgatado horas depois pelo bedel.

Segunda lição: nunca melhore muito sua amiga feia numa tirinha ou você vai ser perseguido por histéricas.

Depois se convença de que se você escreveu qualquer besteira na tirinha, não foi por preguiça e sim, porque você é péssimo com os textos.

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Como não existe faculdade de quadrinhos, desista de fazer qualquer outra, mesmo que seus pais queiram esganar você. Se matricule num curso de narrativas pra melhorar as suas histórias e aprender a escrever, já que seu português é sofrível. Não desista se no primeiro trabalho que você apresentar todos caírem na gargalhada e muito menos desanime com o seguinte comentário do seu professor:

“Nenhum personagem conseguiu sequer ganhar a mínima simpatia, são todos seres desprezíveis e agem como débeis mentais.”

Tudo isso porque você escreveu sobre uma família que bebe demais e o filho mais velho, que é um pervertido e está muito gordo, resolve ver a vizinha se trocar de cima do telhado. Ele escorrega e cai bem em cima da mãe, que apesar de ter tomado um monte de gim tônica e estar molinha, quebra o pescoço. O pai apavorado bate no filho e ele revida, se atracam por algum tempo e o combate termina com cada um desmaiado pra um lado numa poça de sangue. O irmão mais novo, que se trancou no quarto, chama duas ambulância. Uma do manicômio e a outra do hospital. A mãe morre. O irmão é internado e talvez nunca mais saia de lá. O pai descobre que quebrou três costelas, tem uma cirrose avançada e poucos dias de vida. O irmão mais novo, que é estrábico, com um olho vê a escuridão da casa e com o outro chora, apesar de ter um leve sorriso nos lábios.

Se você se sentir injustiçado, faça uns quadrinhos com essa história, tire xerox e monte uns zines. Tente vender pela noite. Não se aborreça se conseguir vender só três. Dê o resto pros seus amigos que vão dizer que seu traço parece muito com o do Laerte e nunca mais vão falar mais nada.

No segundo exercício, seu professor pede um texto emotivo. Escreva tirando as tripas pra fora, como se uma granada tivesse explodido na sua barriga. E se ele fizer outro comentário com uma metralhadora, acabando com sua autoestima, lembre-se da segunda lição e não o persiga como um histérico pra que ele diga ao menos um ponto bom da sua história.

O irmão mais novo, pra arrumar algum dinheiro e companhia, põe os quartos pra alugar no Airbnb. Sem dificuldade, consegue dois hóspedes. Por estar carente e desamparado, acaba se apaixonando por eles. Na verdade, completamente enlouquecido. Não sabe de quem gosta mais e o bom é que, por ele ser estrábico, consegue olhar pros dois ao mesmo tempo. Abre sua vida, as gavetas e a geladeira pros dois. Um dia, ao voltar de uma visita ao irmão no manicômio, encontra a casa vazia, sem nada. Ele se sente como se um tanque tivesse passado por cima dele. O que mais dói é descobrir que levaram a coleção inteira do Laerte, isso foi um tiro no coração com mira eletrônica. Desesperado, chama a polícia, e fica sabendo, num tom irônico, que a dupla é conhecida por dar golpes em frangotes. Ele corta os pulsos, as lágrimas se misturam ao sangue, o banheiro fica todo sujo e como não morre, pega a gilete outra vez e percebe que ela está quase sem fio e que o corte foi muito superficial.

“Uma história péssima, tola e nada envolvente. O fim não poderia ser pior. Desista.”

Terceira lição: nunca escute os comentários sádicos de seu professor, isso realmente pode fazer você cortar os pulsos.

E também não tente se matar com objetos ou métodos que não funcionam, você vai ter que limpar tudo depois.

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Se tudo estiver indo mal, arrume um emprego. Se você já mandou seu currículo pra várias editoras e jornais e ninguém respondeu, trabalhe em outra área pra não morrer de fome. Uma loja de grife, de moda feminina, num shopping chique pode ser uma boa opção. No começo você pode se sentir meio perdido, mas logo esse universo vai entrar dentro de você. Esbanje simpatia e sorrisos pra todas as clientes, mesmo que elas fiquem em dúvida se você está olhando pra elas, ou pra outra cliente que acabou de chegar. Faça horas extras para tentar ser amigo da gerente que não sabe por que contratou você e rosna sem parar. Mesmo exausto, ao voltar do trabalho, desenhe. Desenhe sempre e faça uma revistinha com essa experiência encantadora. Continue batalhando ainda que você não aguente ficar catorze horas seguidas na loja porque a guerrilheira da Farc exigiu isso. Pegue o pouco tempo que ela dá pra você de almoço e corra até a banca pra ver se tem alguma novidade. Não se sinta entediado se as revistinhas forem as mesmas. E fique alucinado e dê um gritinho se você acabou de ver num jornal que o Laerte agora é mulher. Voe como uma borboleta de volta pro trabalho. Ela é incrível mesmo. Já que a loja está vazia e a gerente foi almoçar, pegue uma roupa na arara. Se vista com o vestido branco comprido e decotado, uma echarpe de plumas e ponha uma sandália dourada mesmo que seu pé fique um pouco pra fora. Você vai se sentir igual a sua musa e descobrir que é isso que você quer da vida. E por favor, ao perceber que a guerrilheira da Farc voltou antes do esperado, não rasgue o vestido tentando abrir o zíper com pressa, ele custa um ano do seu salário. Ela vai abrir a cortina do provador de qualquer jeito. E principalmente lembre-se da sua terceira lição, não escute quando essa sádica chamar você de lambisgoia e bichinha zarolha.

Quarta lição: Não trabalhe com uma chefe obsessiva, ela pode comer seu fígado e ainda fazer você pagar a conta.

Não tente vender suas revistinhas por míseros trocados, isso vai deixar você numa depressão profunda e de qualquer modo, não vai conseguir pagar suas dívidas.

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Solte a mulher que está presa dentro de você: alise seu cabelo e tinja de loiro, coloque um peito e não se esqueça da calcinha com enchimento na bunda, claro, assim que você tiver dinheiro pra todas essas coisas. Por enquanto vá se divertindo com o guarda-roupa da sua mãe, que foi a única coisa que não levaram.

Agora que você é outra, arrume um emprego que não suguem o seu sangue com canudinho, como você aprendeu na quarta lição. Enquanto isso, faça uma revista em quadrinhos com essa personagem que acabou de nascer. Mostre pros seus recentes amigos íntimos e veja se eles gostam da sua história:

Larissa, uma mulher trans estrábica, arruma um trabalho como barwoman num espaço todo transado, uma herança dos seus pais, já desde pequena fazia drinques pra eles. Ela é animadérrima e quando chacoalha a coqueteleira se chacoalha também. Decora as taças com desenhos que ela mesma faz e cola num palito. Os clientes ficam impressionados, tanto pelos coquetéis, como também pelo traço do enfeite. Mesmo dizendo que faz histórias em quadrinhos e que tem uma revistinha nova com ela, ninguém se interessa. Desanimada com a carreira que não deslancha, quando volta do trabalho, desenha um pouco e ensaia uns passos de dança. Numa noite em que o bar está cheio e começa a tocar ABBA, ela salta pra cima do balcão. Dubla a música enquanto se requebra inteira, levanta a perna várias vezes, rebola, faz caras e bocas. No final, a sandália plataforma de uns vinte centímetros de altura desliza pra fora móvel, ela voa como uma libélula esvoaçante no vestido lilás e cai sentada no chão com as pernas tortas. Estica os braços pra cima como se fosse uma ginasta, bem na hora que a música acaba. Todos aplaudem muito e dão risadas. Larissa fica em dúvida se eles gostaram e acharam engraçado por causa do constrangimento e do final ridículo, mas acha melhor não pensar nisso. O gerente do bar, guerrilheiro do IRA, enquadra Larissa, e manda um míssil ao dizer: se aprontar mais uma vai pra rua. Só que no dia seguinte, os clientes assíduos pedem pra ela repetir. Em pouco tempo a casa triplica a clientela e Larissa começa a fazer sucesso. Numa explosão inesperada seu nome se espalha por todos os lugares. E agora ela pode escolher onde se apresentar.

Quinta lição: mude o título do seu manual se você descobrir que nunca teve talento pra ser cartunista. O novo título que você recebeu em código morse é: Como ser uma estrela bombástica.

No último dia de uma temporada, quando os holofotes iluminam a plateia, veja que a Laerte está sentada na primeira fila. Segure seu coração que começou a bater como uma bomba, ouça os tique-taques pra que você tenha certeza de que não está delirando. Quando você estiver de braços abertos fazendo o final do show, olhe pra ela e se sinta ainda mais radiante. Se os olhos dela encontrarem os seus, exploda em mil pedaços de cumplicidade e amor. E com o outro olho, por estar tão nervosa, mire a coxia que é por lá que você tem que sair, a guerra acabou e as luzes vão se apagar.

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