Gabriela Guerra
1.
Eu lembro de fazer xixi em um saquinho de pipoca Boku’s e de despejar tudo nas roupas no varal da vizinha.
Lembro de disputar o colo da professora com outras crianças e de descobrir que a perna dela espetava muito.
Lembro de uma fila de piolhos na gaveta de escovas.
Lembro dos jardins gradeados da minha casa, das 23 portas pesadas, das travas de ferro, dos cadeados enormes, do molho de chaves tão gordo que parecia saído de um desenho animado.
Lembro de escrever na capa de um CD de Daniela Mercury “Gabriela Guerra 2ªB”.
Lembro de uma embalagem de fio dental, vermelha e redonda, e dos dentinhos de leite que eu guardava ali, com os miolos escuros de sangue seco.
Lembro de uma reportagem da VejaKid+ com crianças que moravam no Palace 2.
Lembro das Chiquititas. Eu era a Vivi.
Lembro de chegar em casa ensopada de Coca-Cola toda vez que a gente passava no drive-thru do Mc.
Lembro de ser a mãe de Marcelino Champagnat em uma peça da escola. Usei um vestido comprido e marrom com uma blusa de mangas longas cheias de bordados coloridos. Me olhei no espelho e amei, me achei linda, chique, artista. A professora de artes disse que eu parecia uma camponesa francesa com cabelos dourados. A professora de teatro disse que o foco da peça não eram meus cabelos e enfiou uma touca de babados na minha cabeça. A touca cheirava muito mal e minha mãe brigou comigo quando cheguei em casa. A escola enviou uma fita VHS da apresentação para o Vaticano.
Lembro de ir com meu pai assistir aos jogos do Sport na Ilha do Retiro e de ter muita vergonha de comemorar um gol.
Lembro de ganhar Harry Potter e a Câmera Secreta antes de ganhar Harry Potter e a Pedra Filosofal.
Lembro do vestiário da piscina da escola. Do chão vermelho, do cheiro de cloro e dos ralos abertos. De cabelos de tipos variados enganchados no meu dedão do pé.
Lembro de dormir com um esparadrapo micropore colado à boca para aprender a respirar pelo nariz e dos furinhos feitos com lapiseira Pentel pela minha mãe, que tinha medo de que eu morresse sufocada.
2.
Lembro da sensação do ranho congelando aos poucos nos cantos do nariz.
Lembro do cheiro da luva de esgrima compartilhada.
Lembro dos nomes das ruas e de pensar que eram muitos os comendadores, alferes, marechais, almirantes.
Lembro de uma pantufa de joaninhas, de um edredom bege e florido, de uma calça jeans com cheiro de roupa guardada ainda molhada, de um quadro para pôr fotos herdado de uma das filhas do meu padrasto e de uma escrivaninha estilo repartição trazida não sei de onde.
Lembro de vovô me ensinando trigonometria no restaurante de um hotel.
Lembro das meninas populares da minha escola. Lembro que todas tinham dado para os namorados em Camboriú.
Lembro de achar que as pessoas se vestiam muito mal, lavavam pouco o cabelo e usavam muita maquiagem. Lembro de começar a usar scarpins de verniz marrom, a lavar pouco o cabelo e a queimar a testa com chapinha.
Lembro de levar um CD de Antônio Nóbrega e tocar Chegança para minha turma como parte de um trabalho sobre a cultura indígena. Não lembro onde estava com a cabeça.
Lembro de ver pela primeira vez uma placa dizendo que era obrigatório recolher o cocô do seu cachorro. Um dia, enquanto minha irmã recolhia o cocô de Neném, dois buldogues atacaram o nosso poodle vira-lata e rasgaram a barriga do bichinho ao meio. Minha irmã entrou no meio da briga, puxou Neném e saiu andando com ele nos braços sem dar um pio.
Lembro de passar uma manhã inteira em pé na rua XV torcendo para ser escolhida para participar da Perua Capricho e aparecer na revista. Fiquei lá de moletom azul bebê e gorrinho combinando, mas não estava me achando linda, chique, artista.
Lembro de usar a fonte Comic Sans laranja em negrito no MSN, de só escrever em caixa baixa e de usar uma foto do meu olho com o contraste estourado.
Lembro de copiar na capa do caderno um trechinho de Dalton Trevisan porque eu achava que só ele me entendia:
“Curitiba, não a da Academia Paranaense de Letras, com seus trezentos milhões de imortais, mas a […] das meninas de subúrbio pálidas, pálidas que envelhecem de pé no balcão, mas gostariam de chupar bala Zequinha e bater palmas ao palhaço Chic-Chic. Curitiba sem pinheiro ou céu azul, pelo que vosmecê é – província, cárcere, lar –, esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.“
Lembro que fiquei muito puta com ele quando descobri um poema de Bandeira em uma aula de literatura para o vestibular:
“Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância”
Que achei muito mais bonito, claro. Que continuo achando muito mais bonito, aliás. Mas só porque eu lembro mesmo é do palhaço Chocolate na TV Jornal, com muito glitter, uma sombrinha de frevo na mão, cercado de crianças usando Havaianas e alpercatinhas de couro. Nunca nem vi esse palhaço Chic-Chic.
