
Ted Chiang é hoje um dos principais autores de ficção especulativa. Ganhou renome mundial após Denis Villeneuve adaptar o conto-título de seu primeiro livro, História de sua vida, no filme A chegada. Ficção especulativa é uma etiqueta mais apropriada ao que escreve, uma vez que a ficção científica escrita por este nerd novaiorquino de 54 anos, filho de chineses de Taiwan, se interessa mais na maneira como os comportamentos humanos se modificam de acordo com as novas tecnologias do que na mera descrição de tais tecnologias ou em futurologia.
Está mais para a prosa filosófica de Philip K Dick do que o fetiche tecnológico de Isaac Asimov. Seu texto, porém, é limpo, cerebral e lúcido, se aproximando do jeito como Asimov e Bradbury escreviam, em vez do estilo irônico de K Dick e Vonnegut. O fato é que no tom de suas pequenas ficções Chiang habita aquela zona ficcional que Margareth Atwood chamou de ficção especulativa, a imaginar o mundo que surge depois da proposta “e se?”.
Chiang, que só publicou 17 contos e ganhou todos os prêmios possíveis no universo da ficção-científica, também é um pioneiro no estudo da metacognição – mais conhecida como “pensar sobre pensar“.
PROPOSTA
Bem, esta é a pergunta que você vai fazer: “e se?”.
E se você tivesse acesso a algum tipo de tecnologia que desse acesso ao futuro?
Digamos que seu personagem conhece uma outra personagem – um oráculo: cartomante, xamã, guru, astrólogo, ifá – que lhe diz, com certeza, o que vai acontecer a ele nos próximos dias, ou meses, ou anos.
Em vez de se consultar com um oráculo, o seu personagem também pode ter acesso a algum tipo de tecnologia de predição do futuro que funciona 100% (o I Ching, por exemplo), ou a um caderno mágico, ou a um jogo de cartas milagroso, ou um par de dados geniais.
Ou então seu personagem tem acesso a algum tipo de tecnologia que ainda nem foi inventada, mas você pode inventar.
Não perca muito tempo descrevendo a tal tecnologia. O mais importante aqui é o que o seu personagem vai fazer com ela.
Coisas que ele pode tentar saber do futuro:
amor (paixão, namoro, casamento)
dinheiro (herança, presente, trabalho)
saúde (dele, dos filhos, de um afeto qualquer)
etc etc…
Se tudo está escrito, tudo está determinado, é possível mudar o futuro, ou o livre-arbítrio ainda assim existe?
O que seu personagem vai fazer munido de tais informações? Deixar rolar ou tentar mudar os fatos futuros? Isso é possível, ou tudo estava já determinado? O que vai acontecer já estava mesmo determinado? Ou seu personagem mudou o futuro através do livre-arbítrio?
Não se preocupe muito com reflexões filosóficas: foque na ação.
Para encerrar uma pequena fábula sobre o livre-arbítrio e o determinismo.
Há um antigo mito babilônico, recontado no século XX pelo romancista, contista e dramaturgo inglês W. Somerset Maugham, com o nome de “Encontro em Samarra”, em que um mercador de Bagdá manda um servo ao mercado para que comprasse alguns mantimentos. Pálido e trêmulo, o servo retorna a seu mestre, afirmando ter visto a Morte enquanto fazia as compras, e que esta teria lhe feito um gesto ameaçador. Assustado, o servo foge para a cidade de Samarra, e o mercador vai até o mercado confrontar a Morte pela abordagem a seu lacaio. A Morte então diz que não havia feito nenhum gesto ameaçador, que havia apenas se surpreendido com a presença do servo ali em Bagdá, já que tinha um encontro com ele à noite em Samarra.
Escreva na terceira pessoa, em até 9 mil toques.




