Manual para compradores de fanzines marginais no Centro Histórico de Manaus

Por Susy Freitas

APRESENTAÇÃO

LEIA ATENTAMENTE ESTE MANUAL ANTES DE UTILIZAR ESTE EQUIPAMENTO. GUARDE ESTE MANUAL PARA CONSULTA E REFERÊNCIA FUTURA.

INSTRUÇÕES DE MONTAGEM

  1. Sente-se numa mesa da calçada do bar. Qualquer uma.
  2. Faça contato visual com um garçom.
  3. Erga o dedo indicador enquanto o encara. Ao mesmo tempo, com o outro indicador, aponte para a garrafa vazia de Original que está na mesa. Ele vai entender o recado.
  4. Tire um cigarro da carteira e abra um livro enquanto espera seus amigos, pois além de você se distrair e não ver os minutos passarem, você ainda se mostra inacessível.
  5. O garçom traz a sua Original, leva o casco vazio e passa um pano tão úmido quanto imundo na mesa. Como eu disse antes, ele entendeu o recado.
  6. Após o primeiro gole descer, com um frio dolorido, pela garganta, abra uma página aleatória do livro. Aproveite bem esse momento, ele é só seu e durará muito pouco.
  7. Eles me disseram que nossos deuses sobreviveriam a nós. Eles mentiram. É o que fala o livro.
  8. Concentre-se até encontrar o ponto ideal entre apoiar as páginas abertas com uma só mão, enquanto bebe devagarzinho a cerveja que começa a esquentar no calor de outubro.
  9. Boa tarde, desculpa incomodar, diz um homem moreno em pé ao seu lado, totalmente dentro do seu espaço de paz e segurança, a ponto de roçar no livro. Ele é moreno, suado, e no fundo tem mais rugas do que gostaria de admitir.
  10. Pense rápido. Você não quer que o seu livro capa dura de uma editora independente comprado em São Paulo caia nas calabresas esquecidas pelos cachorros na beira da calçada. Esprema-o entre o indicador e o polegar como se sua vida dependesse disso. No fundo, você é mais esnobe do que gostaria de admitir.
  11. É que eu estou vendendo essas edições do meu novo fanzine, “Meu canto sujo em versos e outros poemas”. Esse título parece promissor, hein, campeão,, você pensa, olhando para as A4 porcamente grampeadas e as manchas da copiadora na gravura de capa, composta por:
  1. um cu prolapsado
  2. uma papoula-dormideira
  3. um charuto Montecristo
  1. É um lançamento exclusivo. Aposto que é, você pensa, enquanto ele joga uns 30 volumes em cima da mesa, faz contato visual com o garçom e levanta o dedo indicador. Você sabe o que isso quer dizer.
  2. É um trabalho único, que mostra a verdadeira face da marginalidade em Manaus. Coisa assim, ninguém nunca viu. Já com o copo entregue pelo garçom, ele segura sua garrafa de cerveja já bem suada, tanto quanto ele, e se serve.

RECOMENDAÇÕES DE SEGURANÇA

  1. As editoras não estão prontas para uma obra de arte tão crua sobre o nosso submundo, diz o poeta. Aposto que não, você pensa, segurando firme a bolsa para o caso de aquilo não passar de um assalto bem elaborado.
  2. E porque eu não vou te oferecer um produto sem que você saiba como ele é bom, eu vou agora ler um trecho. 
  3. Oh não, oh não!
  4. Encolha-se na cadeira o máximo possível, enquanto ele sobe na outra cadeira da sua mesa. Encolha-se ao ponto da implosão. O grito como que de um animal anuncia os versos:

Plebeus! Plebeus! Parem as máquinas!

A prostituta urra pelo cu desgovernado

lambendo a porra da burguesia

na macarronada.

Parem as máquinas!

[Etc., etc., etc., e por aí vai. Seus dois dos amigos, os que a chamaram para aquele ótimo recinto e se atrasaram, finalmente chegam. Os versos se misturam ao som abafado de algo que lembra Californication saindo de uma caixa JBL que há muito perdeu a garantia. Seus amigos olham para cima – para o poeta -, que sua em bicas já com a Original em mãos, tomando goles generosos direto da garrafa entre um verso e outro. Em seguida para a sua cara vermelha e tentam conter as gargalhadas. Uma placa sólida de cinzas pende grande da ponta do cigarro.]

MANUTENÇÃO

  1. Prepare-se. Após longos minutos de declamação a todos os passantes na rua e clientes do bar, o aperitivo do canto sujo em versos e outros poemas finalmente termina. Nessa altura do campeonato, seus amigos já puxaram suas cadeiras plásticas e um deles tem a brilhante ideia.
  2. Senta aí com a gente, poeta!, ele diz. Oh, Deus.
  3. Fique entediada. O poeta distribui seus fanzines para o trio na mesa, apesar de já ter lhe entregado um volume anteriormente. Moedas e notas de dois imergem de todos os lados, o que significa que ele pode nunca mais partir dali.
  4. Fique em silêncio. Não que haja uma opção além dessa, posto que o poeta agora engole a todos na mesa com uma verborragia ininterrupta que, como denuncia uma das narinas, é movida a pó. Serão as horas mais longas da sua vida.
  5. Fique puta. Um de seus amigos solta, em dado momento: Ela também é poeta, e  aponta para você. Ela tem até um livro. Ele abre uma aba no navegador do celular para mostrar seu último escrito numa revista literária online. 
  6. O poeta olha para a tela com um ar inquisidor. Tira da mochila Karga desbotada um par de óculos e põe-se a ler o poema, murmurando baixinho palavra por palavra. Um cachorro caramelo senta-se ao lado e parece tentar entender o que o poeta balbucia.
  7. É de mulher, né?, ele diz ao finalizar a leitura, num tom de quem diz tem gosto de merda, ou peidos têm esse cheiro, ou ainda pombos comeriam isso. É um poema sobre mutilação genital feminina no Oriente Médio. 
  8. Aceite. A maioria dos homens leem com o pau.

GARANTIA

  1. Aceite. Seus 5 reais, dados em troca de um fanzine que você jamais tirará do plástico na esperança de fazê-lo ir embora, jamais retornarão.
  2. Aceite. Está muito cedo, mas está ficando tarde.
  3. Levante-se. Enquanto seus amigos estiverem comandados pela generosidade impulsionada pela bebida, o poeta não irá embora. Os incomodados que se retirem.
  4. O verdadeiro artista: capaz, praticante, habilidoso / Tira tudo de seu coração / Trabalha com deleite, faz tudo com calma, com sagacidade / Trabalha como um verdadeiro tolteca, compõe seus objetos, etc… É o que fala outra página avulsa do livro que você não chegou a ler no bar, e que agora estraga, lentamente, sua córnea no balanço do 578 à caminho de casa.

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