Leandro Reis
Primeiro, você vai precisar de um espelho. Avalie suas expressões enquanto ele se deleita atrás de você sem menor apreço pela beleza da imagem. Antes de tudo, precisa aprender a se acostumar com a falta de senso estético deles. Vê-los como um meio para os seus fins. Sem isso você nunca vai durar no negócio. Vai se estressar, ficar seca, ligar o piloto automático e perder o tesão pela coisa. Todos os artistas morrem assim, pela falta do que dizer, esvaziados pela insensibilidade dos outros. Você precisa gostar tanto quanto o seu público.
Dirigir é dizer aos outros o que fazer enquanto não sabem o que fazem. Desde o casting até os mínimos detalhes das cenas, embora o papel deles seja quase de um figurante, um corpo qualquer que se prosta sobre o seu. Procure candidatos em todos os cantos – e se divirta com isso – apenas pra entender que os melhores estão bem perto de você.
Então, desde que o encontra na portaria do seu prédio, você precisa dizer: venha com o uniforme, porque ele pode se animar, colocar uma roupa de sair. Pelo menos é o que você pensa quando olha pra ele, a cara ensebada no cubículo abafado, cercado de números de apartamentos e interfones. Diga a ele que será a primeira vez que você vai fazer aquilo para que ele se invista de um ar professoral, magnânimo.
“Claro, benzinho, eu te mostro como faz. Bem devargazinho, com muito cuidadinho”, e alisa sua mãozinha e seus dedinhos.
De fato, é uma espécie de primeira vez, você não mente, diz uma verdade disfarçada: porque não poderia dizer, também por dever de ofício, que se trata de sua estreia como diretora e atriz. O truque é nunca dizer a eles que está filmando. Por isso a gaveta do armário, milimetricamente quebrada na lateral, é um item cenográfico imprescindível. Uma ideia na cabeça e uma câmera escondida, é o seu lema, seu norte artístico.
No fim do expediente, ele entra no seu quarto com o mesmo sorrisinho de quando alisou sua mão e te chamou de benzinho. Enquanto fecha a porta, ele se desculpa pelas pizzas de suor debaixo dos braços e no peito, escurecendo o azul-claro da camisa e o brasão do condomínio estampado no bolso.
“Um homem… um homem suado”, você diz. Você ainda vai dizer muitas coisas estúpidas. Ele dá mais um sorrisinho e se desculpa de novo:
“Acabei meio aleijado. Filho de primo.” E no meio da frase começa a mancar até você. Você se preocupa, porque talvez ele saia do quadro ao mancar.
Mas a verdade é que a cena é um sucesso. Em que pesem algumas interrupções para o rapaz reintroduzir o pau – porque a cada movimento mais brusco, pela limitação de seu equilíbrio, ele sai do buraco ou escorrega no tapete –, trata-se de um bom coadjuvante. O melhor é que tudo dura três ou quatro minutos, o tempo ideal de uma punheta.
Pense num título: “Uma cartografia do porteiro manco: estudo antropológico”.
Depois, mostre o vídeo para os seus pais.
Comece dizendo aquela frase que traz belas recordações de sua mãe, quando ela te limpava no vaso: “Mãe, acabei!”. Isso vai tirá-la do sofá apático e fazê-la dizer que suas necessidades fisiológicas eram, pelo menos, a maior merda que você podia fazer. E que hoje – isso ela não diz, mas você ouve – você não é capaz de carregar o legado da família e que deveria escolher outra profissão. Nessas horas seu pai sempre levanta a mão, como se pedisse pra falar, engole o resto da cerveja e tenta te confortar com um “Veja bem, meu anjo”. Mas hoje ele está trabalhando no quarto ao lado, rodeado de gente, aproveitando o isolamento acústico, sem controlar os urros de prazer fingido que caracterizam seu estilo de atuar.
“Se eu tivesse a sua criação, a sua sorte, tinha me emancipado, tinha feito grandes coisas na indústria”, sua mãe finalmente diz, depois de ver os primeiros segundos de sua cara borrada no vídeo com o porteiro manco. E fala mais:
“Não tem personalidade.”
Nesse caso, diga a si mesma, passando o olho na decoração da sala, nos porta-retratos num móvel de mostruário, no quadro genérico na parede, que sua mãe não tem realmente senso estético, que nunca pôde desenvolvê-lo. Você desiste de postar o vídeo.
E tenta se convencer de que é melhor apagá-lo do que se arrepender da sua primeira obra, como aqueles escritores que renegam seus primeiros livros e se desesperam atrás dos exemplares para comprá-los, trancá-los, queimá-los.
E guarda aquela palavra: personalidade.
Talvez, você reflete, olhando pro seu poster do Glauber Rocha, você deva insistir no erro: é disso que se trata, repetir um equívoco até que se torne estilo. Pelo menos é o que seu pai diz, apoiando o pote de sorvete na barriga, assistindo às cenas que acabou de gravar.
“As pessoas gostam de ver elas mesmas, não tem nada a ver com você, tem a ver com as loucuras delas”, diz ele, enquanto ele próprio – que não é ele, segundo ele mesmo – berra na tela do computador, vestido num colã verde-escuro – “É o Dragão da Maldade”, ele explica –, apenas o pau pra fora num buraco, como num glory hole itinerante.
Decidida a insistir no erro, ingresse na faculdade de cinema.
Na sala de aula, perceba que seus colegas não só gostam de cinema – você acredita – como vivem como simulacros: é como se estivessem em preto e branco: as caras são pálidas, os óculos são pretos, as camisas são listradas, os trejeitos são nouvelle-vaguianos. Amam plano-sequência e documentários autobiográficos. Pense em dizer que todos os seus filmes são em plano-sequência. Revise a escala dos porteiros e imagine um grande épico condominial.
Volte pra casa de madrugada e encontre sua mãe no sofá, com o abajur ligado. Ela tem o celular na mão e assiste a um vídeo que você identifica como seu. É sua produção mais recente, mais ousada, na qual você veste uma roupa preta de celofane no corpo todo, deixando livres apenas os buracos, talvez influenciada por seu pai.
“Por exemplo: é preciso chupar com vontade, só se faz isso direito quando tem vontade.”
Só depois que ela diz isso você percebe o copo vazio na mesa, com rodelas amareladas de limão.
Depois da aula, vá para o bar com os novos colegas: você ainda não sabe, mas é jogando sinuca, quando põe os peitos na borda de madeira da mesa, que seu ganha-pão se anuncia: o garoto varapau de bigode escovado se comove com a paisagem e se adianta a pegar outro taco. Vocês jogam e ele parece cada vez mais comovido com o plano-sequência do seu decote.
Na mesa do bar, seus colegas falam de si, de suas referências. “Prefiro não assistir a nenhum filme pra não afetar minha sensibilidade”, diz um deles. E de repente te perguntam: “E você, de que escola você bebe?” Pense na sua mãe perdida entre jebas numa fantasia natalina num curral, pense no seu pai vestido de dragão-comedor cuspindo fogo no aconchego do lar.
“Uma ideia na cabeça e um pau na boca”, você diz, rindo, e todos também riem, sem saber do que – realmente – riem.
Leve o varapau pra casa, repare na sua cara de hamster, os óculos caídos porque as orelhas são muito acima das linhas dos olhos.
“Nunca vi alguém mais bonita que você.”
Essa é a senha. Abra discretamente a gaveta e ponha a câmera pra gravar. Agora você tem o parceiro ideal pra bombar nas tags de sexo explícito fofinho. Como já praticou muito no espelho, capriche nos bicos e na cara de choro. O dinheiro vai começar a entrar. Guarde uma parte e compre uma câmera boa.
As caras borradas nos seus filmes começam a incomodar o público. “Mostra a latinha, puta, a boca de chupeteira”, diz um de seus fãs. “Deve ser feia que nem meu avô leproso”, diz o outro. Seu namorado acha estranho que seus pais nunca estão em casa e o quarto deles, sempre fechado. Também acha engraçado o seu quarto, as prateleiras cheias de bonecas de porcelana, mas diz que tem certa personalidade, certo estilo. Ele parece animado com a própria observação. Pede que você ponha os óculos dele pra chupá-lo. Mas depois pede os óculos de volta, com medo de fazer como o porteiro manco, errar de porta, atravessar a fechadura.
Quando ele for embora, pense em alternativas. Sua obra começa a ficar estagnada. Você se vendeu? Lembre-se do que disse seu professor de roteiro: a memória é a janela da alma. Seu namorado não é muito criativo, mas pode ter dado uma ideia com a história das bonecas. Lembre-se de sua infância enquanto ele se esforça em cima de você e põe o dedo manchado de nicotina dentro da sua boca.
As professoras do jardim de infância não tinham muito apreço pelos seus pais. Nem os pais de seus colegas. Você percebia os olhares nas reuniões, o canto da sala em que seus pais geralmente se recolhiam, frágeis como você nunca mais veria. Na verdade, a única coisa boa da escola eram as aulas de arte. A professora se perguntava de onde você tirava tantas ideias, onde você via aqueles homens com chifres e rabos, vários deles, uma legião de minotauros, abraçando as costas de Nossa Senhora da Conceição (segundo a auxiliar da professora, que juntava as mãos, talvez em desespero, ao olhar seus desenhos).
Um dia a professora pediu que vocês fizessem algo para a Páscoa, com a ajuda de seus pais. Alguma coisa bonitinha. Seus colegas trouxeram ovinhos personalizados, de vários tamanhos e cores e adornos; outros vieram, eles mesmos, pintados como coelhinhos; um chegou a levar um coelho de verdade, que fugiu da sala e desapareceu no pátio, provavelmente atropelado no estacionamento ou na avenida em frente à escola. Já você não quis a ajuda de seus pais: elaborou, você mesma, com uma cartolina rosa, uma máscara de coelhinha, que tinha até os bigodes espetados, que você extraiu da vassoura de piaçava e pintou de branco.
Por conta do coelho fugido, ninguém deu a mínima. Mas você guardou sua obra-prima.
Na última aula do semestre na faculdade, o professor pede que vocês façam um filme mudo de dois minutos, numa única locação, com no máximo dois personagens. Uma cena minimalista. Os melhores serão selecionados para um festival de vídeos amadores. (Você acha engraçado a falta de especificidade do termo “amadores”.) Você tenta pensar em algo chocante. Talvez um homem bem mais velho, com idade pra ser seu avô?
Talvez seu avô?
Enquanto não tem uma ideia melhor, o jeito é fazer dinheiro com o seu namorado, que já está muito apaixonado, pois você se dedica muito a ele e realiza todos os seus desejos. Mas você, em algum momento, se descuida. Seu celular moderno, que funciona como um controle remoto, está sempre no mudo, mas desta vez solta o “click” do início da gravação quando você aciona a câmera. A partir daí, tudo fica óbvio, e seu namorado vê o pontinho vermelho no buraco da gaveta.
Mas você é rápida: à medida que ele se descontrola, xingando, tão casto, vestindo a camisa como uma virgem ultrajada, você abre uma outra gaveta e mostra sua grande obra de arte: a máscara rosa de coelhinha. Por alguns segundos, ele para de xingar e levanta as sobrancelhas. Depois esboça um sorrisinho. Você não gosta daquele sorrisinho na cara dele. Você já não quer ganhar dinheiro com o pau do varapau, não precisa dele para o filme que acabou de elaborar na cabeça.
“Fiz pra você, benzinho. Vai usar pra titia, vai?”.
Seu ex-namorado sai do quarto pisando forte no chão. No caminho pra porta, derruba todas as suas bonecas de porcelana, que agora são cacos indistintos. Não importa: olhe para a cara de Glauber na sua parede, um homem que não se curvava às circunstâncias.
Você decora as escalas dos porteiros.
Quando ele entrar mancando no quarto, você já estará esperando com os olhinhos profundos de coelha.
