Perturbações oscilantes

Silvia Argenta

Você acredita nas frases que aparecem no seu instagram. “Sempre há uma saída”, “espere passar”, “você é responsável pela sua felicidade”. Fica mais fácil se você ler e aceitar. Incorpore as mensagens, afinal há uma pandemia lá fora. Entre na onda da positividade. Quando tudo acabar, o mundo será um lugar melhor. Inspire. Expire. Confie.

Passados alguns meses, você percebe que o vírus não quer ir embora. São ondas de abre-fecha. Pode demorar mais do que supõe. Então, você é obrigado a tomar certas resoluções na vida. Seu patrão te propõe reduzir seu salário, já que você está trabalhando em casa. Você não aceita e não é ouvido. Passe o mês com menos dinheiro e a mesma quantidade de trabalho. Com o custo de vida cada vez mais caro, o vírus aproveita para se replicar em novas formas. Você sente que vai explodir se acompanhar a curva exponencial. Se questione para que continuar em São Paulo se pode morar perto da praia. É isso! Vai lá… Peça para sua mãe arrumar seu antigo quarto.

No trabalho não te dão nem um dia para a mudança. Tem de se virar num final de semana para se desfazer do apartamento de frente para a rua agitada. Doe as suculentas para os vizinhos, venda a cama pela OLX e dê a geladeira em consignação para o zelador. Saia só com as malas de roupas, livros e o teclado enrolado num cobertor. Tudo tão atribulado que nem dá tempo de saudosismos ou lamentações. É vida nova ao entrar no São Paulo – Palhoça. Se prepare para umas doze horas de busão.

Você chega ao litoral dando um tempo dos amigos antigos. Avisa que está de volta, mas só os vê pela internet. Não se incomoda porque isso já vinha acontecendo com os amigos de São Paulo, que também já tinham se debandado cada um para seu canto. Compreensível, já que a segunda onda do vírus prestes a eclodir. De início, sua mãe gosta da ideia de te ter por perto. Mas mesmo com a mudança atribulada, o dia a dia fica restrito às quatro paredes do quarto, com os olhos vidrados nas telas do computador e do celular. Entre sala, cozinha e banheiro, qual a diferença para a antiga vida? Comida boa na mesa e não pagar o aluguel. Aos poucos, sua mãe muda de ideia e pede que você saia de casa de vez em quando. “É bom caminhar para esticar as pernas, Celso”, ela diz.  

Você coloca a máscara e anda pelas ruas tranquilas do bairro calmo da cidade parada. Vá até a praia e analise os surfistas que saem da água agitada. Procure por um cara de meia-idade com a respiração ofegante, de preferência com a barriga avantajada e as panturrilhas latejando. Sempre tem um desses. Pergunte a ele qual o preço da prancha. Não importa que você não entenda nada. Qualquer uma serve. Ele pode resistir um pouco, mas no final vai te vender ali na hora. Volte logo para casa com a prancha, afinal sua pele está mais branca do que nunca, e entre no seu quarto. As frases no instagram continuam as mesmas do início da pandemia. Sem atualizações, deixe de onda. Delete o aplicativo. Vá para o youtube e digite: como aprender a surfar.

Antes de continuar, é preciso fazer duas distinções importantes. Em termos metodológicos, aprender qualquer coisa pelos vídeos do youtube é basicamente tentativa e erro, ainda mais se no seu caso o surfe nunca te chamou a atenção. São quarenta e cinco mil youtubers ensinando o mesmo procedimento de jeitos diferentes, desde fazer uma receita de pudim até construir um foguete. Já em termos sensoriais, internalize que é uma atividade solitária e que a experiência é única e exclusivamente de você para você.

Compreendidas essas questões iniciais, comece pelo básico. O que você precisa saber? Nadar. E não ter medo do mar. Entre em cada vídeo e veja atentamente as instruções sobre tábua de marés, como carregar a prancha e formas seguras de entrar na água. Se na sua pesquisa inicial não aparecer nada sobre repuxo, fica a sugestão. Para quem não entende as sutilezas do mar, entrar numa área dessas pode te custar a vida. Mas a ideia aqui não é te assustar, e sim te alertar que os perigos existem e que na maior parte das vezes entrar na água é para se divertir.

Para as coisas mais básicas, assista a uns dez vídeos diferentes. Faça anotações sobre as informações comuns. Elas devem ser as mais importantes para você memorizar e aplicar quando estiver dentro da água. Por exemplo, se posicione de frente para o mar e espere até que a sequência de ondas termine. Caso não saiba, elas são cíclicas. Têm seus momentos de euforia e de calmaria. Identifique onde estão os outros surfistas, fique longe deles e seja rápido. Com o leash atado no tornozelo direito e a prancha apoiada no braço, entre. Quando a água estiver na altura do seu quadril, jogue a prancha no mar e deite de bruços sobre ela. Reme. Reme. Reme. Já falei que precisa ser rápido? Reme muito rápido. Você vai sentir os solavancos das pequenas ondas, mas não desista. Siga firme e, principalmente, evite ficar perto dos outros surfistas. Nunca é demais lembrar. Depois que passar a arrebentação, pronto. Pode descansar.

Provavelmente você não vai acertar de primeira, mas é assim mesmo. Vai tomar onda na cabeça? Sim. Vai se afogar? Provável. Vai se queimar no sol? Com certeza. No dia seguinte, tente de novo, mentalizando antecipadamente cada movimento. Isso ajuda bastante a automatizar as reações. Imagine que surfar é como dirigir. Você precisa fazer várias coisas ao mesmo tempo. Volte a ver os vídeos e tente tirar uma média do que os youtubers propõem e o que você consegue colocar em prática. À medida que você for ganhando segurança, avance na brincadeira. Quando as aulas no youtube chegarem num nível mais complexo, você naturalmente vai escolher uns três canais com playlists contendo as melhores dicas a seguir. Você vai aprender o tempo correto para ficar agachado em cima da prancha, como se estabilizar com um pé na frente e o outro atrás e ao mesmo tempo ficar na crista da onda para ela te empurrar e te fazer feliz.

Chegada a felicidade, você vai perceber que aprender algo com outra pessoa junto pode ser melhor. No surfe, você não consegue ver o que está fazendo e se não tiver ninguém por perto fica difícil identificar o que pode corrigir. Você não tem espectador, especialmente porque fica longe dos outros surfistas para evitar problemas. Eles detestam iniciantes e partem para o ataque para demarcar o próprio território sem te dar a menor chance de defesa. A solidão do surfe mais a da pandemia pode cortar os efeitos da dopamina. Não chega a ser triste porque surfar é legal pra caralho e sentir o corpo vivo no isolamento é sinal de resistência. Não se entregue.

Nos dias seguintes (talvez meses), teu desempenho melhora. Você consegue dar remadas mais profundas, posicionar o pé reto para ganhar velocidade mais rápido e sacar o tempo da onda. A cada tentativa bem-sucedida, pensa em esticar as sessões e começar a trabalhar mais tarde, mas desiste quando olha para a areia e não há ninguém te observando. Você não tem com quem dividir suas conquistas, então tanto faz praticar algo diferente ou não. A experiência já está de bom tamanho para compreender que ainda não está preparado para fazer algo exclusivamente de você para você.

Mesmo treinando bastante, você não evolui no surfe a ponto de te garantir uma frequência, especialmente com os dias mais gelados. As motivações para se divertir no mar começam a ser boicotadas. O desafio de entrar na água e explorar a imensidão do oceano já não é mais suficiente para te fazer ir à praia todos os dias. No sobe e desce de ondas, você nota a impermanência do estado original. O mar já te transformou. Você enfim compreende que toda onda acaba. Tem dias que você passa mais tempo observando a água, mesmo que lá dentro, do que surfando, quase como a pandemia, que te permite fazer muito pouco, além de ver a vida passar.

Os altos e baixos dos gráficos dos casos indicam a amplitude das perturbações oscilantes. O hype é breve e parece que o ânimo se esvai no ritmo de uma ondulação. Um dia você sai da água e um garoto te pergunta quanto está a prancha. Com a respiração ofegante, você percebe a própria barriga avantajada e as panturrilhas latejando. Você não sabe quanto tempo passou. Se desfaça da prancha e volte para o seu quarto. A vida ainda suspensa te faz decidir entrar em uma nova onda. Para descobrir outro mundo, abra o youtube e digite: como aprender coreano.

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