(Angélica)
Monique entrou em casa com umas olheiras tão fundas que dava dó. Como eu estava morrendo de fome, a primeira coisa que perguntei foi “vamos jantar?”. Ela pendurou a bolsa e o casaco felpudo de onça, que ia até o meio das coxas, no cabideiro e, ainda de pé, abriu o zíper das botas. Usava meias amarelas. Me deu um beijo e se deitou no sofá. Antes de fechar os olhos, disse: “preciso relaxar um pouco, se quiser, vai comendo”, se virou de costas pra mim e num minuto apagou. Como ela estava com o cabelo preso num coque, passei um tempo observando a perfeição da sua nuca da poltrona.
Fixei os olhos na última vértebra da cervical que saltava na altura dos ombros, outra coisa de que eu gostava muito, e fiquei pensando em qual vinho abrir. Aos poucos, uma faixa de luz branca envolveu o corpo de Monique, outras faixas, de outras cores, apareceram como um arco-íris e a imagem se fragmentou em milhares de pontinhos pretos. Mesmo se eu piscasse, não conseguia mais ver Monique. Ela havia sumido do sofá. Foi tudo tão rápido, que era impossível que tivesse se levantado.
Mesmo assim girei a cabeça pra ver se ela estava em algum canto da sala. “Cadê você, Monique? Onde você foi?”, repeti umas quatro vezes com a voz trêmula. Enquanto espiava o estofado vazio, me sentindo totalmente perdido, percebi que alguma coisa se mexia perto da porta. Ao virar o rosto, me assustei tanto, que minha cabeça foi pra trás e bateu no encosto da poltrona.
O casaco de onça pintada da Monique tinha se desprendido do cabideiro e flutuava no ar como se houvesse alguém lá dentro. Por um momento achei que estava delirando e esfreguei o rosto, do jeito que se lava roupa no tanque, umas três vezes. Não adiantou nada, ele continuou parado a uns oito metros de mim. Talvez pra me assustar mais, os punhos subiram pela costura da lateral e pararam marcando a cintura. As duas mangas ficaram dobradas como asas. Parecia que estava me dando uma bronca. Confuso e assustado, perguntei: “o que é que eu fiz?”, em seguida, não pude me achar mais ridículo, desde quando era possível conversar com um casaco de onça?
Me voltei pro sofá, na esperança de que Monique tivesse reaparecido e pudesse me salvar. Pro meu azar, continuava sumida, ia ter que lidar com ele sozinho. Me deu um medo tão grande que comecei tremer, além de achar que era um fantasma, já que sempre acreditei nessas coisas, ainda havia o fato de que alguma coisa muito terrível estava se passando com a minha cabeça.
O casaco felpudo, em vez de permanecer quieto e voltar pro cabideiro, de onde nunca devia ter saído, começou a andar na minha minha direção. E de fato parecia que um corpo, lógico que invisível, habitava o seu interior. Além de ter volume, algumas partes franziam quando se movimentava. Quis desmaiar, quem sabe tudo voltaria ao normal assim que eu acordasse, mas infelizmente não consegui, ninguém desmaia porque quer. No meio do caminho ele parou, o que me deu um alívio momentâneo.
Uma das mangas se dobrou e o cotovelo, se ele tivesse um, encostou na altura da barriga, que também ele não tinha e ficou balançando o punho num vai e vem curto. Na hora não entendi o que isso queria dizer, mas depois, quando os movimentos ficaram mais fortes, percebi que aquele pedaço de tecido cheio de pintas pretas estava me chamando. Uma péssima ideia dele, me arrepiei todo. Não tinha a mínima vontade de me aproximar de droga de casaco nenhum. Pra que ele queria que eu fosse até lá? Boa coisa não devia ser. Eu estava muito bem sentado, na verdade, não muito bem.
Me levantei a contragosto e fui andando com uns passos bem pequenos pra que essa ida demorasse uma eternidade e ele se esquecesse de mim. Mas não tinha jeito. O casaco de onça fajuta me esperava ainda mais esticado e impaciente, batia agora os dois punhos freneticamente contra o peito. Dei um sorriso, um pouco forçado, pra ver se melhorava a minha situação, quem sabe ele podia dar uma mexidinha de rabo de cachorro pros lados. Não se mexeu e também não parecia sorrir. Resolvi mudar a estratégia e parti pra intimidação. Arqueei umas das sobrancelhas e encarei o casaco fake fazendo cara de mau. Não teve o mínimo efeito.
Dei um passo minúsculo e tive a infeliz ideia de pensar: e se ele se jogasse nos meus ombros me obrigando a vesti-lo e começasse a me esmagar até que sobrassem só os meus ossinhos triturados? Desconsiderei logo essa possibilidade porque um casaco de onça não era uma jiboia. E se eu for estrangulado pelas mangas peludas? Ou pior ainda, e se ele enfiar as mangas na minha garganta? Se isso acontecesse, e Monique, a desaparecida, me encontrasse deitado no chão com as mangas do casaco na boca até altura das axilas, ia ser uma situação bastante constrangedora, mesmo que eu estivesse morto.
Formular essas hipóteses foi péssimo, só serviu pra aumentar meu pânico. Me deu uma raiva muito grande de todas as mulheres que tinham fixação por roupa de onça e das que eram parecidas com um rinoceronte e tentavam se disfarçar com a estampa de pintas pretas. O casaco estava bravo, bravo não, furioso, mexia as duas mangas como um guarda de trânsito mandando os carros prosseguirem. Só porque resolvi me abaixar e andar de quatro, ou melhor engatinhar e pra ser mais exato, me arrastar como uma lesma. De tanto esforço que eu fiz, um rastro de suor se estendeu atrás de mim.
E se o casaco de onça me fizer engolir os botões e eles entalarem na minha faringe como uma bala soft? Além do que eram cinco. Só de imaginar essa cena me senti um pouco sufocado. Uma ideia muita macabra passou pelo meu cérebro: e se ele pedir pra eu colocar a mão no seu bolso e torcer tanto o tecido até que no fundo só restasse carne moída? Minha imaginação estava bastante fértil nos últimos cinco minutos. Os únicos que podiam me salvar eram os vizinhos, mas eu ia gritar o quê? Socorro! Tem um casaco querendo acabar comigo? Era tanta pergunta idiota que talvez estivesse bem perto de me tornar um débil mental, ou talvez já fosse? Por eu estar demorando tanto pra percorrer a distância final, o casaco começou a vir ao meu encontro. Agora eu estava frito, muito mesmo, não ia ter pra onde fugir.
Me senti dentro de uma batedeira de tanto que meus ossos chacoalhavam, não conseguia me conter, estava totalmente descontrolado. O que esse casaco fofo ia fazer comigo? Não aguentava mais ouvir meu coração disparado, queria pegar a bola e acabar com o jogo. Mas quem disse que a bola era minha? Era melhor me preparar pra morrer.
Quando o casaco parou na minha frente, em vez de me levantar com calma, meu instinto de sobrevivência fez com que eu desse um pulo numa rapidez nunca vista e partisse pra cima da onça. Até eu me assustei. A primeira coisa que fiz foi agarrar o seu pescoço, ela conseguiu escapar e nos atracamos. Pôs as patas nas minhas costas, eu nas dela, como se tivéssemos nos abraçando e em questão de segundos começamos a rolar no chão. Ela rugia alto e pra que eu não ficasse atrás, urrei mais alto ainda. Seus dentes tentavam me morder, mas eu tinha os meus também e consegui arrancar um pedaço da sua pele, que encheu a minha boca de pelo. Cuspi, me esquivando das suas garras.
Era uma luta intensa e muito truculenta, até que uma hora, consegui segurar o rabo pintado e ao puxar com muita força, rasguei o casaco pela metade. Não me contentando e também pra me manter esperto, porque agora eram dois contra um, prendi cada pedaço do casaco nos meus braços. E rasguei de novo e de novo até ele ficar completamente dilacerado. Só aí consegui respirar com tranquilidade.
Quando olhei pro sofá, vi as meias amarelas de Monique em cima do assento. Enruguei o rosto como uma ameixa e fechei os olhos. De novo? Vou ter que lutar com duas meias? Bufei e em seguida dei um suspiro. Então, Monique começou a aparecer pouco a pouco. Não só as roupas, mas ela toda. Cheguei a derramar algumas lágrimas. Dei um beijo na sua nuca. Assim que ela acordou e se virou pra mim, viu a pilha do que tinha sobrado da onça no meio da sala e perguntou: “o que você fez com o meu casaco?”. Sem graça, respondi: “uma barata. Voadora, cascuda e muito repugnante entrou pela janela e pousou nele, sem querer eu acabei rasgando”. Monique disse, “e precisava ter causado todo este estrago?” Eu ri e completei, “vou comprar outro pra você, prometo”.
