Dioniso dança o shoegaze

Por Susy Freitas

É de cortesia. Foi o que o Pastor disse à Lindie quando entregou a ela dois pequenos frascos. Sob as luzes do Caverna, o conteúdo translúcido tornava-se multicolorido. Cada cor revelava os diferentes cenários do clube: o laranja exibia meia dúzia de corpos, dentre homens e mulheres, enrolados como cobras que trocam de pele, sob uma ampla mesa num centro do salão. O roxo nos cantos era mais eclético: entregava algumas mesas de intelectuais mendicantes, trisais em crise e magnatas que insistiam em trazer suas ovelhas elétricas para a casa, o que era terminantemente proibido. 

O único foco rosa, apontando diretamente para a entrada, era onde Lindie estava. Sozinha. A luz vinha de um neon no qual se lia: Madnaus – aqui fazemos as coisas diferente. É a minha cor, a minha cidade, ela pensou, jogando os cabelos também rosa para o lado e ajeitando os elásticos que prendiam suas meias sete oitavos rasgadas no lugar enquanto analisava onde aportar com seu tesouro. Nos alto falantes, a baixista das Pitonisas garantia que a afinação do instrumento em ré fizesse os vidrinhos vibrarem na mão de Lindie a cada nota. A banda inteira era engolida por um verde profundo e hipnótico, embalando uma antiga canção que dizia:

Dioniso dança o shoegaze

e as tochas que rumam a Delfos arruínam o céu. 

Se Apolo vai, eu não sei

mas esse fogo aqui dentro só pode ser meu!

E o longo uivo das Pitonisas abria espaço para Una e seu solo de guitarra. A única peça de roupa que cobria o corpo voluptuoso de Lindie além das meias era o seu sobretudo de plástico incolor. No bolso, à vista de todos, pendia seu novíssimo Manipulator, um modelo já antiquado, mas que ela economizara meses para adquirir. Hoje seria sua grande estreia.

E quando as luzes se tornaram cada vez mais epilépticas, e o solo de Una cada vez mais apoteótico, Lindie seguiu para a beira do palco. A maioria das pessoas já estava em avançado estado de cópula ou algum tipo de decomposição. Era difícil definir, mas pelo movimento das formas, algo ali a fazia pensar em vermes e na total aniquilação da raça humana. É para não pensar nessas coisas que existe o Manipulator, Lindie concluiu, tirando-o das profundezas do bolso e enfiando o pequeno plug rosa no rabo, já com o nariz na altura do palco.

Foi quando ela lembrou dos frascos na outra mão. Lindie levantou um deles ainda mais uma vez, de forma que Coop, a baixista, foi atingida em cheio por um dos raios de luz verde refletido no vidrinho. A garota esquelética olhou nos olhos da amiga na platéia, procurando-os entre sua longa franja negra, e lhe lançou um joinha, seguido por uma rajada de gelo seco direto na cara de Lindie, bem na hora em que ela aproximava o frasco aberto das narinas. 

O susto fez Lindie inspirar não apenas o que quer que existisse dentro do vidro, mas também o gelo, doce e frio. De pronto, ela foi envolvida pela paz absoluta. As ondas emitidas pelo Manipulator traspassaram-na como flechas saindo da jóia lilás que pendia para fora do aparelho, e a mistura inusitada de gases parecia intensificar seu prazer. A orgia ao seu redor já não emitia som ou movimento, e as Pitonisas de repente calaram seus instrumentos. No lugar do baixo de Coop afinado em ré e do solo demoníaco da guitarra de Una, o que havia eram as cinco mulheres da banda tirando seus mantos juntas e repetindo em uníssono:

 Sexo é sempre o lugar 

para onde as mulheres vão 

quando querem ficar

sozinhas na escuridão.

O último verso pulsou fundo no gozo de Lindie. Mas ao invés da explosão de praxe, o Manipulator a levou para o Lugar Todo Branco. Nada existia ao seu redor até onde a vista alcançava, apenas uma pia de mármore branco com água corrente e um trono ornado por lírios também brancos. Com cuidado, Lindie retirou o plug anal e o higienizou na pia, sentando-se em seguida. Ao sentar-se, imagens de seu passado e futuro corriam diante dos olhos, enquanto ainda sentia as paredes alargadas de seu cu: nascimento, primeiros passos, a morte da mãe, as brigas com Blixa, a volta para Madnaus e, depois, longos anos turvos, que começavam em algum momento no Caverna e lhe escapavam das retinas quanto mais tentava focar neles e sua anatomia voltava ao normal. O futuro. É com isso que ele se parece.

Havia uma mulher, é certo. Uma mulher de cabelos muito longos e muito brancos, usando uma túnica prata e os mesmos coturnos que Lindie usava agora, pretos e brilhantes. Mas nos pés de Anne, a mulher, eles estavam opacos e com uma sola diferente, vermelha. De fato, nada tinham a ver com os coturnos de Lindie. Ela simplesmente sentia que eram os mesmos, assim como sentia que o anel no indicador de Anne, com três pérolas e um brilhante sobre um oito de prata, era igual ao que Lindie trazia em sua própria mão agora enrugada, embora não a visse. 

“Uma promessa, decerto”, disse Anne repentinamente, sentada aos pés de Lindie no Lugar Todo Branco.

“Quando vamos nos encontrar? Eu vou esperar quanto tempo ainda?”.

Com um sorriso, Anne apenas se levantou, aproximou as mãos em concha do ouvido de Lindie e disse algo. Tudo que ela conseguiu ouvir foi o cântico das Pitonisas invadindo o local, o qual não tinha certeza se vinha de dentro ou de fora de si:

(Lindie, oh, Lindie)

Você precisa entender que o futuro

(Lindie, oh, Lindie)

é um bailado contínuo no escuro

As visões do Lugar Todo Branco pareciam tão à frente em sua linha do tempo que o sentir precedia todo o ver. Por isso Lindie sabia que as bochecas de Anne esquentavam, segundo a segundo, já na varanda da palafita em Colônia do Livramento, embora tudo que visse na prática, estirada no chão do Caverna, fosse um túnel negro se fechando lentamente, e os fragmentos de sua vida com Anne caindo numa espécie de descarga, sobre os fragmentos de uma vida não vivida.

“Lindie, caralho, que porra que tu tomou?”, é o que Lindie ouviu depois de sua breve viagem. Una, dobrada sobre uma barriga de sete meses, levantou a amiga do chão, enquanto a cozinha das Pitonisas improvisava a trilha sonora do resto da orgia. A guitarrista então notou o Manipulator, apanhou-o e passou a mão de leve, para tirar a poeira. “Ah, é isso? E aí, o que você viu?”.

“Como assim?”, ela retrucou, atordoada pela precisão da pergunta. Seu corpo todo tremia, e os lábios e pontas dos dedos despontavam de um azul cadavérico.

“Lindie, oh, Lindie”, Una riu, levantando a amiga e devolvendo o Manipulator. “Tu não foi a primeira e certamente não será a última”.

“Eu preciso voltar!”, ela respondeu, cada vez mais agitada, os olhos tentando saltar das órbitas. Flashes brancos pulam sobre seus cabelos rosas ao ritmo da música. “Eu não ouvi, Una. Eu não ouvi o que ela disse”.

E lágrimas verdes desceram por seu rosto.

“Não é que tu não ouviu”, explicou Una, afagando a barriga após quase tropeçar em dois rapazes unidos por um fisting. “É que o futuro está sempre em movimento. Tu não achou que era simples assim, né?”.

“Eu ainda tenho um frasco”, lembra Lindie, agarrando o vidrinho na altura do coração, cada vez mais atordoada. “Posso voltar. Posso ver o resto!”.

“Patos voam na estratosfera?”, pergunta Una. “Hienas precisam de molho rosé para comer carcaças podres? A resposta é não. E é a mesma coisa com nossos frascos e brinquedinhos e gelo seco. Nós não podemos e não precisamos voltar tão cedo pra lá. E mais importante: não devemos. Seguranças!”.

E o mover de dois dedos bastaram para que dois homens corpulentos surgissem do meio da massa dionisíaca, circundando Lindie. Ao longe, o Pastor dava com os ombros, abordando outra menina, tão ou mais nova que Lindie, na porta de entrada, sob a luz rosa.

“Não! Não!”, ela gritava, já em pé na beira do palco novamente, empurrando o Manipulator com força para dentro do corpo mais uma vez e o frasco partido ao meio, esperando a próxima rajada de gelo seco.

“Tu sabe como funciona”, e Una deu as costas, subindo ao palco como uma gata prenha num muro.

Lindie e sua força descomunal recém descoberta fixa uma garra na borda do palco. Os homens tentam removê-la, sem sucesso, e é como se quanto mais a puxassem, mais a força deles era absorvida por ela. E assim, no último esforço de seu ataque, Lindie partiu o vidro ao meio e enfiou a cara no gelo seco, abandonando-se ao ímpeto dos homens.

“Isso aqui é Madnaus. Fazemos as coisas diferente aqui”, ela murmurou, resoluta. 

O que aconteceu depois disso, é difícil dizer. Alguns dizem que Lindie encontrou, no limiar do Lugar Todo Branco, a resposta que procurava antes de morrer. Outros, que seu ataque orgástico desencadeou ondas de visões proféticas em todos os presentes. Há, ainda, quem acredita que a média que lhe prestou os primeiros socorros, a qual estava por acaso no Caverna naquela noite, tinha cabelos muito longos e muito brancos e uma túnica prata, e que o tempo todo sussurrava segredos em seu ouvido para mantê-la lúcida. O certo é que enquanto ela estivesse na névoa verde, tudo estava em suspenso.

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