por Américo Paim
Afastando o cabelo caído na testa branca suada e movendo sua cabeça quadrada para todo lado, Giba agitava as mãos e ainda buscava ar. A corrida foi intensa até o quarto dos bagulhos, cheio de mofo e pó, com a lâmpada queimada, no quintal da casa de Tonho, que estava mais inteiro e ficou de pé, olhando pela fresta da porta, para ver se aparecia alguém. A única luz vinha daquela brecha.
– Véi, para com isso. Ninguém vai entrar na sua casa.
– Eles podem pular o muro.
– Que porra você fez?
– Deixa quieto.
– Oxe, me arrasta pra cá feito um doido e não vai me dizer?
Tonho saiu e deu uma volta pelo quintal se esgueirando pelas árvores. O corpo magro e moreno com ossos protuberantes nos ombros se movia em silêncio. Subiu na mangueira com cuidado e olhou em várias direções. Mexeu na barba rala, seu cacoete, e certo de não haver ninguém por perto, voltou ao quarto. Fechou a porta e acendeu quatro velas.
– Bora, véi, larga o doce.
– Tem dois caras querendo me pegar. Tão meio chateados.
– Fez o que, mermão?
– Na verdade eu sou inocente. Não fiz nada que você não fizesse.
– Agora tô preocupado mesmo.
– Beijei uma menina aí…
– Isso não é crime. Quem foi?
– Juliana.
– É sacanagem, né? Justo a irmã do louco da aldeia…
– Pois é. E os meninos não gostaram.
– Meninos? Você é louco! Ela é irmã de Valter Volvo e namora Cledeir Lambada. Eles nem são pessoas. São dois animais, ciumentos, possessivos e violentos.- Ela disse que eles terminaram.
– Todo mundo sabe que ela é mentirosa. Você é um idiota.
– Você tem que me ajudar!
– A morrer? Perseguidos por dois trogloditas sedentos por sangue. Que ótimo.
Pensaram alternativas, ideias cada vez piores. O desespero já batendo. Qualquer barulho externo apavorava e ia escurecer em breve. Tonho resolveu se sentar em uma caixa de madeira no fundo do quarto e ela cedeu com seu peso. Giba riu e o ajudou a levantar. Tonho reclamou que algo o espetou. Aproximaram uma vela para conferir. Era um pequeno quadro, de moldura simples e desgastada. Não tinha gravuras, apenas um texto.
Se a coisa complicar
Não se avexe, seu nó cego
E se ficar quebrado e roto
Algo pode lhe ajudar
Sou estranho, eu não nego
Chame pelo gênio escroto
Agora fale três vezes: “Vem, escroto”.
– Ô véi, que poeminha podre é esse?
– Sei lá, deve ser coisa de meu pai. Guarda tudo aqui. Podia ser verdade, né?
– Qualé, por favor…
– Giba, é só falar: vem, escroto; vem, escroto; vem, escroto!
Aconteceu um barulho parecendo chabu, seguido de mau cheiro forte. Uma luz fraca apareceu no fundo do quarto e veio uma fumaceira. Não demorou a dissipar e os amigos, a essa altura prontos para correr, viram a figura estranha à sua frente. Um sujeito de meia altura, com umas tranças grisalhas tipo Willie Nelson, colete sem camisa, a pele morena, barba de um só lado, um colar com uma banana pendurada, calça marrom rasgada e um charuto imenso. Tinha sandálias velhas. Então ele falou, com voz de som entre guincho e latido.
– Vocês me chamaram.
– Oxe, que porra é essa. É o cramulhão?
– Ei, mais respeito. Lhe dei ozadia?
– E quem é você?
– Ué, o gênio escroto.
– Véi, não sei que brincadeira é essa, mas ô moleque feio.
– Ô otário, você não vai melhorar com o tempo, só digo isso.
– Só porque você quer…
– É meu trabalho. Vejo o futuro.
– Tonho, não sei que porra é essa e já tô vazando.
– Saia agora não. Vai se molhar todo.
Ignorando o aviso do estranho, Giba abriu a porta e ouviu o estrondo do relâmpago. A chuva caía, forte como nunca. Fechou e olhou esquisito para o gênio.
– Eu falei.
– Giba, o cara é bom.
– Porra niúma. Já tinha visto que o tempo tava fechando e pronto, veio com a previsão.
– Ô, véi, prova aí que vê o futuro.
– Porra, vocês são chatos pra caralho. Dois moleques que acabaram de chegar aos vinte…
– Boca suja da porra, viu, Tonho, mas até acertou a idade.
– Qué que cê queria? O cara é o gênio escroto.
– Bora, não tenho o dia todo. Os outros clientes não podem esperar.
– Então mostra aê. Fala uma coisa que vai acontecer.
– Vocês pediram. Tonho, você vai tomar uma broca de seu pai. Vai cortar sua grana por uns tempos. Descobriu que você pegou cem reais da carteira dele. A empregada contou.- Quem lhe falou essa merda? Ninguém sabia, só ela. Como é que contou a meu pai?
– Eu só trabalho com o futuro. E você, Giba, se ligue porque não vai dar certo a saidinha com Soraya.
Torceu o pé na aula de dança. Vai cancelar daqui a pouco.
– Esse cara é pancada…
– Como é? O que querem de mim?
Ouviram o sinal de mensagem no celular de Giba: Soraya cancelou a programação. Foi aí que Tonho começou a contar sua história. Ele sempre foi a fim de Juliana, só que tinha medo porque o irmão dela era brabo e o namorado nem se fala. Aconteceu no dia anterior. Ela sozinha em um banco no pátio da faculdade. Ele passou, cumprimentou, mas viu que ela chorava. Quis lhe dar atenção. Conversaram e ela desabafou. Estava infeliz com o namoro porque ele era um grosso, lhe dava medo. Falou que o namoro tinha acabado. A circunstância, a fragilidade dela, o desejo dele, tudo facilitou um beijo, longo e esquecido da vida. Só que foi visto à distância por Michele, ex de Tonho, ainda magoada pela traição recente dele, em uma balada. A moça entregou tudo para Cledeir e Valter, com o requinte de dizer que foi tudo feito com a participação de Giba.
– Puta, como tu é burro, Tonho. Banco do pátio, em pleno dia? Porra, tanto lugar…
– Foi por acaso, véi.
– Aham… Vamos aos negócios, então?
– Gênio, ajuda aí.
– Escroto, por favor. É mais distinto. Tem muito gênio por aí.
– Mais distinto? Puta que pariu…
– Calma, Giba. Escroto, esses caras vão me matar.
– Não chegará a tanto, mas será sofrido e doloroso. Quanto podem pagar?
– Ô, escroto, a gente é durango. Quebra aê, na moral.
– Nunca ouvi falar que gênio recebesse dinheiro, mermão.
– Eu sou escroto, mas fui com a cara de vocês. Se me derem uma caixa de charuto do bom…
– Porra, onde tem isso?
– Seu Geraldo vai receber uma novinha, ainda hoje à noite, de aniversário.
– Ah, claro. O pai de Valter e Juliana. Perfeito. Tem uma ideia melhor, tipo uma boca de jacaré pra eu colocar a cabeça? Ô, Tonho, num tá vendo que esse cara tá de sacanagem?- Pegar ou largar.
– Como vamos conseguir isso? E os dois animais?
– Vejam é tudo muito simples.
Contou aos amigos que sabia que Valter gostava de fazer uns pegas de carro: “vai ter uma corrida amanhã, acontecerá uma batida e será grave. Haverá uma briga dele com Juliana minutos antes, por causa do tal beijo. Ele não vai morrer na capotagem, mas ficará no hospital por meses e a irmã cairá em depressão, se sentindo culpada. Acontece que o acidente será provocado por uma falha nos freios, sabotados por uma turma rival”. Os dois amigos só teriam que avisar sobre o problema e mostrar o freio mexido. Valter ficaria surpreso e até agradeceria. Ainda não engoliria bem o tal beijo de Tonho em sua irmã, mas não partiria para a ignorância. Eles diriam que a informação merecia mais que agradecimento. Valia, por exemplo, uma caixa de charutos. Quanto a Cledeir, o corno, ele é todo influenciado pelo amigo e uma coisa resolveria a outra. Após explicar tudo, o escroto desapareceu em nova cena de fumaceira.
– Que doideira é essa, Tonho? Não vai dar certo. Deixa essa menina se ferrar.
– Não, eu gosto dela. Não tem escolha. Ou quer morrer na mão dos caras?
– Ele já falou que não vamos morrer.
– Ah, agora tá acreditando?
Decidiram ir. Mais tarde, quando chegaram à casa de Valter, acharam estranho que ele deu chance para que falassem, sem muita confusão. Explicaram sobre o acidente. Ele não acreditou e eles disseram que lhe mostrariam no carro. Foram até a garagem, mas os freios estavam com tudo no lugar. A pressão chegou a baixar ao verem o sorriso maroto de Valter, que assobiou uma melodia. Era a senha para Cledeir aparecer. A musiquinha foi a última coisa agradável que os dois se lembraram, assim que acordaram, já na enfermaria do hospital, bem quebrados.
– Porra, anotou a placa?
– Você ainda faz piada? Me colocou nessa! Se eu não tivesse tão lenhado ia aí lhe bater.
– A culpa é do capeta do gênio. Culhudeiro da porra.
– Chama o miseravão aê. Vamos ver o que ele tem a falar!
– Vem escroto; vem, escroto; vem, escroto!
– Olá, meus amigos!
– Amigo de lá ele! Você é um sacana! A gente apanhou que só! Por sua causa.
– Epa, não foi culpa minha. Eu falei certo.
– Ó o cara, véi… Não tinha defeito no freio do carro. Como explica?
– Fácil. Ele consertou.
– Porra, claro, né? Como ele soube?
– Ué, eu disse. Ele me perguntou e pagou com esse charuto maravilhoso. Quer dar um pau?
– Que onda é essa, véi?
– Não sou exclusivo. Fui chamado por ele e mostrei o futuro. É o que faço.
– Você é um bom…
– Escroto. A seu dispor.
