História de terror (de duas frases) que alguém copiou da Internet

(Bruno Vicentini)


Ele podia ouvir coisas que ainda não tinham acontecido, coisas que só aconteceriam no futuro, dali a exatamente um ano.

Um dia (hoje), os ruídos cessaram.





[digamos que alguém se coloque então a imaginar o que esse personagem faria agora que sabe que vai morrer, mas não já, só vai morrer daqui a um ano – não um ano e um dia ou mesmo um ano menos um dia (ou dois), mas sim um ano, um ano de maneira absolutamente precisa, porque é isso que diz a história que alguém copiou da Internet, de um site de histórias de terror de duas frases, algo que parece ser – ou, pelo menos, parece ter sido, em algum momento – uma espécie de febre mundial, de hype, uma coisa que as pessoas fazem (ou faziam) pra impressionar ou apavorar ou causar qualquer outra espécie de efeito num hipotético, improvável e cada vez mais enfastiado leitor, não é por isso que se resolve escrever no fim das contas, mas digamos que alguém então imagine que esse personagem sem nome, identificado pelo pronome pessoal Ele (um personagem masculino portanto), ao saber que tem um ano de vida, nem mais nem menos, resolve ir a uma papelaria e comprar uma agenda, porque é Dezembro, já se vendem agendas do ano que vem, depois decide marcar na agenda que acabou de comprar o dia em que vai morrer, faz um grande X de caneta vermelha (STABILO©, tinta molhada, fininha) no dia correspondente e escreve embaixo com caligrafia sóbria, dia em que vou morrer, parece uma boa primeira providência pra esse personagem, é dramático mas não melodramático, porém também não é o bastante, é preciso saber o que ele vai fazer depois disso, e depois, e depois, até o final, é preciso imaginar tudo, todo o resto, porque a história de duas frases, por mais que funcione muito bem pra causar efeito num hipotético, improvável e cada vez mais enfastiado leitor, muito mais do que um bizarro conto que alguém resolva escrever com base nessa história, a título de justificação (ou coisa que o valha), a história de duas frases não explica muito, ela não deixa claro, por exemplo, quem é esse personagem que vai morrer, se ele tem uma família, um emprego, se é feliz, doente, chinês, um ascensorista, um samurai, onde ele está quando os supostos ruídos cessam, se é mesmo Dezembro, se já se vendem agendas do ano que vem, o que ele estava fazendo, e, sobretudo, o que fará daquele ponto da história pra frente, como escolherá viver seu último ano, seus últimos trezentos e sessenta e cinco dias (ou trezentos e sessenta e seis, se o ano for bissexto, quem sabe – isso é outro ponto que a história de duas frases não elucida, alguém pode achar que o fato de aquele ser ou não um ano bissexto e a confusão que isso poderá causar caso o personagem queira, ou precise, definir com exatidão o dia em que vai morrer, alguém que frequentemente se engana pode achar que isso é uma boa ideia pra se incluir no conto, talvez não agora mas sim mais pra frente, quem sabe), nada disso está contido na história de duas frases – nem seria razoável esperar que estivesse, considerada sua extrema concisão e o ensinamento que alguém recebeu há pouco, numa oficina literária, de que é tão importante o que uma história deixa de dizer quanto o que efetivamente diz, sobretudo uma que se queira tão curta (e que era ainda mais curta no idioma original, quando alguém a copiou da Internet, tendo sido expandida apenas por impaciência e por inaptidão tradutória), talvez por isso imaginar uma segunda providência pra esse personagem seja ainda mais difícil, porque um ano parece tempo insuficiente pra que se deixe de ser samurai ou ascensorista (além do mais, é impossível deixar de ser chinês) e se busque ser alguma outra coisa, pode ser o bastante pra se tornar infeliz ou doente, talvez ele passe a ter dificuldades pra dormir com tanto silêncio, como quem, acostumado com o silêncio, tem dificuldades pra dormir com tantos ruídos, venham eles do futuro ou de qualquer outro tempo ou lugar, pois se por um lado parece um clichê levar o personagem a fazer loucuras ou a pedir desculpas ou a dilapidar o seu patrimônio ou a abandonar a família, ou seja, a viver de modo diverso do que vivia até então (um modo que, lembremos sempre, não está contido na história de duas frases, o passado e o futuro do personagem não existem, são apenas suposições), por outro lado supor que ele vai continuar vivendo da mesma forma, que vai ignorar o silêncio, o macabro silêncio que lhe sobreveio, isso por sua vez parece preguiça de alguém, ou obtusidade, parece insuficiente, é preciso que algo se altere ou então é melhor desistir logo, não seria nenhuma novidade, alguém já desistiu muitas vezes, muito mais vezes do que perseverou, mas se por acaso ou teimosia resolve continuar, só dessa vez, é possível que chegue à conclusão de que o personagem, se ele sabe que vai morrer daqui a um ano, pode dizer igualmente que não vai morrer antes disso, algo que ninguém mais além dele pode afirmar com certeza, sobretudo hoje em dia, num mundo pandêmico, degradado, poluído, mas o mundo do personagem é outro, é a ficção, ele então tem um superpoder, não importa o que faça, não vai morrer, não antes de decorrido um ano, um ano completo, ora, encarar as coisas assim chega a ser quase otimismo, always look on the bright side of life, com assobiozinho e tudo, ele pode beber veneno, pular de uma ponte, desafiar a milícia, traficar armas de fogo no continente africano, tudo isso de maneira impune, basta que alguém se sinta disposto a levá-lo a tanto, se sinta capaz de fazê-lo dentro do contexto de um exercício de escrita, proposto no âmbito de uma oficina literária, que prevê a criação de um conto de até nove mil caracteres, incluídos aí os espaços (“espaços são caracteres”), o que não parece no entanto ser o caso, alguém não se sente apto, mesmo que lhe ocorra agora o final do conto, o final que o conto teria se fosse levar a termo a empreitada (o personagem, fosse ele chinês ou um ascensorista ou samurai, tivesse ele escolhido mudar ou não seu estilo de vida a partir do ponto em que se dá o silêncio, o silêncio aterrador dos ruídos do futuro, iria, em algum momento, talvez um dia antes do dia marcado na agenda, o dia em que vou morrer, iria voltar a ouvir coisas que ainda não tinham acontecido, coisas que só aconteceriam no futuro, então ouviria vozes num idioma estrangeiro e um choro desesperado que reconheceria como o seu próprio, sem reconhecer no entanto o efeito que isso causaria num hipotético, improvável e cada vez mais]

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