Trecho audível de gravação danificada, supostamente, por forças ocultas ou problemas técnicos

Leandro Reis

– Agora uma anedota, se me permitem – uma voz continua a dizer, para nós inédita, uma voz de homem, possivelmente, embora muito anasalada, o que deixa as coisas um pouco mais nebulosas.

– Porque uma anedota é ao mesmo tempo a expressão da consciência e da alma de um povo, uma fotografia do zeitgeist. Devo dizer que não subscrevo a nenhuma opinião ou sentimento que possa estar contido neste simples conto que pretendo relatar – a voz abafa um risinho de escárnio, de modo que temos um primeiro indício de seu humor. – Sou apenas um instrumento de registro. Se me foi dada a possibilidade de enxergar, não posso dispensá-la. Ainda que seja uma simples fotografia, digamos. Uma fotografia de uma árvore. Só que há alguém atrás dessa árvore, e este alguém é Anna – a voz faz um chiado de quem dá uma longa tragada num cigarro.

– Encontrei a história de Anna, ou melhor, me foi transmitida a história de Anna ainda no início de minhas pesquisas com a Flor, antes de apresentá-la a vocês e ao mundo. Muitos de vocês não entenderão por que guardei esse episódio com a chave do silêncio até hoje. E, mais do que isso, porque decidi revelá-lo agora, tantos anos depois – a voz faz uma pausa um pouco maior do que as anteriores. No silêncio, emerge algo como um murmúrio de fundo, talvez duas ou três outras vozes cochichando? – Mas podemos inverter a pergunta e, desse modo, já encetar uma resposta: e não guardariam segredo, vocês, caso a experiência com a Flor os levasse ao lado justamente oposto do esperado, quer dizer, ao avesso do tempo como o conhecemos?

– Se me acompanharam ao longo dos anos até aqui, colegas, nisso que ainda insistem chamar, com uma pompa anacrônica, de conferência, sabem que já tive dias melhores – diz o conferencista decadente. – Sabem que os efeitos colaterais da Flor, como qualquer substância selvagem ao homem, podem ser notáveis a um olho minimamente treinado… Mas também sabem que não diferem de uma droga, digamos, comum, profana, como foi o ópio. Vocês certamente observam que não há cultos do ópio nem da cocaína, ao contrário da Flor, um item sagrado, e talvez por isso, por vingança, os deuses tenham forjado nos adeptos da Flor uma ligação com os demais mortais, mesmo pelas vias mais mesquinhas, como a diminuição da libido e o largo intervalo entre os comandos do cérebro e os movimentos do corpo: porque a Flor se trata justamente disso, de abandonar o corpo como o excesso de matéria que ele é.

– A vida é pura realidade abstrata… – a voz traga o cigarro profundamente. Agora, motivados pela confissão do hábito, transformamos o cigarro numa mistura de tabaco e algum opiáceo cujo efeito imediato desloca a cabeça da voz para o fundo do tablado que deve ocupar, diante de um púlpito negro, dentro da penumbra de um auditório que, pelo remexer dos cochichos, não parece tão numeroso. – E o tempo talvez não seja progressivo. Porque embora a Flor nos leve ao futuro por meio de suas paisagens narcóticas, suas visões de maquinarias e de engrenagens (e muitos de vocês nos trouxeram depoimentos a esse respeito, assistindo a si mesmos vivendo nas mais variadas versões intergalácticas, colonizando planetas distantes e interrompendo rotas de meteoritos e chuvas estelares), desde que meu antigo contato da cidade secou, nos idos do ano 2000, eu venho tendo acesso a uma variação, digamos, regressiva da Flor, por intermédio de Segismundo, vulgo Abraão o Terrível, vulgo Jaime Olho-de-Cobra, vulgo Polvo de Luvas. Não há nada mais misterioso que o passado – a voz descansa. O burburinho cresce, algumas pessoas falam alto e talvez xinguem ou discutam, mas é impossível distinguir as palavras. A voz parece não se importar com os ânimos exaltados e toma fôlego para prosseguir.

– E então chegamos à história de Anna. No verão do ano de 2000, quando nem havíamos nos recuperado da ausência do fim do mundo, recebi Segismundo em minha quitinete. Ele trazia nas mãos o envelope pardo que costumava empurrar por baixo da porta toda segunda-feira pela manhã. É verdade que ele tentara utilizar o mesmo procedimento, sem se atentar que a nova versão da Flor, em vez de distribuída em pétalas destacadas, tinha se transformado em pequenas esferas alaranjadas, cujo diâmetro impedia tal técnica de ser levada a cabo. Seja como for, empenhei-me na preparação do ritual, conforme as instruções de Segismundo: debulhei as esferas com um martelo de bife até virarem farelos, depositei numa colher e aqueci o conteúdo na boca do fogão, observando com ansiedade o borbulhar do líquido antes de sugá-lo com a seringa e introduzi-la no braço – o silêncio da plateia, agora, pode significar: como bons junkies, por mera transferência a partir da rememoração do ato, eles sentiam nas próprias veias o torpor da flor sagrada. A voz volta a dominar a plateia. – E então se fez a luz: deixei meu corpo para trás e sobrevoei as épocas, as civilizações, as secas e as cheias, os impérios e as pequenas aldeias, para chegar à história de Anna, observando como um semideus, ou um deus não intervencionista.

– Em tempos imemoriais, às margens da floresta virgem, governada por ursos e lobos, Anna colhia camélias dos arbustos mais baixos e as enfiava no cesto de palha. As camélias começavam a florescer no inverno, sinalizando a mudança da estação e o início do festival na comunidade de Anna, onde a mudança das paisagens representava o ânimo dos deuses e, consequentemente, as mensagens que transmitiriam por meio dos anciãos. Quando pensava nos anciãos, no entanto, Anna se concentrava em fugir de seus abraços longos e mãos escusas, e a forma mais eficiente de fazê-lo era enchendo o cesto de camélias, indo e voltando até a floresta, horas a fio. Haveria flores para ornar os telhados das casas, os troncos das árvores, as roupas dos aldeães, e, sobretudo, haveria camélias para fazer o chá que caracterizava aquele primeiro momento do festival. Mas é claro que, num movimento automático como o que Anna empreendia por várias horas, a pessoa, por mais centrada que seja, começa a ter ideias menos convencionais – em domínio total da audiência, a voz faz nova pausa, sem disfarçar que a faz por mero suspense ou divertimento próprio.

– Desde a primeira infância, quando Anna passou a colher camélias, ela ouve dos anciãos graves recomendações para não entrar na mata fechada, sob risco de sair com o rosto sulcado por gravetos e espinhos, ou atacada pelos mesmos animais que a toleravam perto do rio. O problema desses conselhos é que são apenas isso, palavras vazias no ar, e para uma adolescente como Anna, são na verdade convites à experiência. Com o cesto cheio de camélias, Anna deu o primeiro passo em direção à escuridão da mata, empunhando um galho grosso para proteger o rosto dos espinhos. Com os olhos fechados, caminhou, cuidadosa, por alguns segundos até que surgiram breves clareiras no interior da floresta. A luz era cinza e morna e tremulava como uma membrana no vento. Nos arbustos ao seu redor ainda havia algumas camélias, que rareavam à medida que Anna avançava pelos corredores da mata, até se extinguirem.

– Já andava algum tempo sem a necessidade do galho a se proteger, e sem lembrar dos temíveis animais que podiam atacá-la, como acometida por um transe. Nesse ponto, apenas um evento físico poderia desviar Anna de um caminho, talvez, sem volta. E não era isso que Anna estava buscando? Nunca se poderá saber. Porque – e a voz, mais uma vez, engendra seu golpe rasteiro, sua técnica barata de suspender o destino de Anna, por longuíssimos segundos. – Porque seus pés, desavisados, simplesmente mantendo aquele movimento arbitrário floresta adentro, roçaram algumas pétalas alaranjadas nas raízes expostas das árvores, e logo encontraram toda uma comunidade de flores inéditas: as pétalas arredondadas imitavam a silhueta das rosas, mas não traziam espinhos no caule nem exalavam cheiro algum, como Anna observou ao se agachar para colhê-las. Como o cesto estava cheio de camélias e Anna não queria misturá-las, guardou um punhado das novas flores no bolso do vestido. E, talvez, por efeito do próprio movimento de ocultá-las nos bolsos, decidiu que não revelaria a ninguém sua descoberta.

– Naturalmente, vocês entenderam, que Anna estava, sem saber, em poder da Flor. Quando voltou ao acampamento, o festival já ia começar: os aldeães vestiam suas roupas mais arrumadas no lugar dos trapos cotidianos, o palco de pedra recebia uma enorme fogueira e troncos finos fincados ao redor com máscaras de madeira nas pontas, além dos cinco tronos dos cinco anciãos da comunidade. De tão naturais, os passos de Anna em direção à tenda onde se preparava a ceia mal puderam ser registrados pelos aldeães. Oculta pela fileira de cozinheiras, Anna resgatou as flores dos bolsos, amassou as pétalas numa cumbuca e ferveu a água, para em seguida derramá-la na Flor e transferir o líquido para um cantil.

– Agora um pouco afastada dos outros, Anna sentiu o aroma cítrico da Flor fervida, o aroma a que todos nós, aqui, aprendemos a venerar. Embora não fosse ignorante no quesito embriaguez, pois já havia pitado dos cigarros de fumaça espessa dos anciãos, do líquido amargo que era servido com opulência nos festivais, um único gole do chá da Flor levou Anna ao chão congelante, irmanando-se à relva, ascendendo às copas das árvores, mergulhando nas carcaças dos animais deixadas por lobos e ursos. O que pode ter visto durante sua visão da Flor, bem, isso é matéria para especuladores. Mas é certo que a esta altura Anna já era instrumento da Flor, já seguia seu desígnio mais primitivo: a reprodução. De volta à aldeia, com olhos viperinos, Anna começou a espalhar a Palavra: “Aceita um gole?”

– Logo não havia mais mulheres a preparar alimentos, logo não havia mais reuniões inflamadas de homens falantes, logo não havia crianças se divertindo ao redor da fogueira. Logo não haveria celebração, pois o tempo já se fazia outro e não respeitava tradições e horas marcadas, muito menos a vontade dos mais velhos, que, únicos a não estarem em poder da Flor, esgoelavam-se na tentativa de arrebanhar os aldeães, apelando para as suas consciências, ou melhor, ao passado de suas consciências: porque cada cabeça tinha, agora, o seu próprio portal a atravessar. Anna, então, levantou a garrafa como uma bandeira ou uma espada, e apontou para os anciãos, embolados entre si, como se assim pudessem confundir os revoltosos.

– Os mais fortes se encarregaram de segurar e neutralizar os membros dos anciãos, uma vez que, desnecessário dizer, mesmo o corpo mais ruído pelo reumatismo é capaz de extrair de suas profundezas uma força imensurável quando se depara com a realidade da morte. O espetáculo era constrangedor, mas Anna não deixava de acompanhar as explosões dos músculos tesos dos aldeães, que rompiam as tangas apertadas nas coxas exibindo um vigor ancestral, exalando o odor dos animais da floresta quando perseguem ou são perseguidos. O êxtase da cena era tamanho que faria Anna jurar pela Flor que seus olhos, à distância, foram responsáveis por aumentar o fogo no palco e, não fossem as crianças a taparem seus ouvidos porque também o faziam com os delas, apostaria que seu desejo também criava os berros que deliciosamente empanturravam seus tímpanos e alargavam sua boca num sorriso pastoso – e a voz respira, profundamente, sem no entanto tragar o cigarro.

– Bom, vocês parecem acreditar que a história de Anna acaba aqui. Que a história de Anna é mais um elo glorioso na trajetória milenar da Flor. Estão enganados. Porque agora, de fato, chego ao que preciso lhes dizer nesta noite. Prestem atenção. No afã da revolta, Anna havia prometido aos aldeães que no dia seguinte mostraria a trilha para a Flor. Mas a manhã seguinte não chegaria exceto viciada pelos vestígios da noite: imersos no efeito da Flor, os aldeães não dormiram por vários dias. Depois do sacrifício dos anciãos, a floresta foi tomada por uma série de outras profanações: o comedimento visto mesmo nos banquetes anuais deu lugar à glutonaria; os caldeirões de chá de camélia secaram-se em banhos coletivos; a seiva das árvores tornou-se sangue e sêmen; os laços de sangue tornaram-se mera formalidade diante do ímpeto da pele; as crianças que por ventura escaparam da corrupção dos corpos foram abandonadas na margem do rio; conflitos foram resolvidos em duelos de lanças e facas, e não menos de uma dezena de corpos se estendeu sobre a relva chamuscada.

– De todo modo, em algum momento Anna dormiu, talvez por vários dias, e acordou. Porque, nesses casos, é sempre em certa manhã que as coisas acontecem. Anna acordou sóbria e viu que não havia mais nenhuma gota na garrafa. De modo que começou a caminhar para a primeira casa, na intenção de acordar a comunidade e ir em busca da Flor. Mas não deu mais que cinco passos até perceber. As pontas dos dedos e as unhas foram as primeiras porções do corpo que cederam às manchas pretas. Ela parou de andar e espalmou as mãos para o céu de uma manhã claríssima. Não havia dor; mas as manchas não demoraram a subir como vermes e a tomar suas mãos e braços. Anna gritava, ou tentava gritar, porque sua voz já minguava, represada no início da garganta. Ela rasgou o resto da roupa enquanto os aldeães desinchavam as caras e abriam as portas, prontos a rir e celebrar, porque Anna parecia, de fato, elaborar gestos festivos. O engano duraria o tempo de perceberem, neles mesmos, as nódoas escalando os corpos.

– Bom, aqui, finalmente, termina a anedota. Obviamente, vocês nunca vão me ouvir falar nada contra a Flor. Sou adepto há mais trinta anos, muito mais tempo que qualquer um de vocês. As visões estão aí para serem compartilhadas. É preciso querer enxergar. Quanto a isso, eu posso ajudar vocês. Como dizem por aí, trouxe a surpresa bem debaixo da manga. Vejam – e gritos horríveis, ganidos e barulhos de cadeiras caindo tomam todo o áudio da fita. Por alguns segundos, a voz parece contemplar a cena. – Do que têm medo? Não é inteligente ter medo do que já está determinado… Toda vez que usei a Flor, desde então, eu sabia que estava seguindo o caminho de Anna, embora tentasse, com doses maiores ou menores, ou combinações insólitas com outras substâncias, voltar na história de Anna com poderes de intervir, como fazem nos filmes. Mas eu sempre era transportado para o céu, sobrevoando, inalcançável, o destino de Anna e dos adeptos da Flor – Os ruídos de passos e cadeiras arrastadas cessam; ao fundo, janelas parecem bater pela ação de um vento que aumenta. – E por que digo isso a vocês agora, a vocês que ainda me ouvem no canto do auditório, que não se entregam a histerias? Para responder a essa questão, basta invertê-la: e por que não? – e, mais uma vez, talvez pela última vez, porque a partir deste minuto, tudo é chiado, a voz abafa um risinho de escárnio.

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