Ainda penso nos banheiros

Calle 168 # 62-2 a 62-100, Bogotá, Cundinamarca, Colombia

Uma casa bege com grades vermelhas. Foi o que ela disse quando nos despedimos em Barranquilla. E eu estava muito interessado. Interessado ao ponto de pegar um ônibus de Barranquilla até Bogotá. Interessado o suficiente para enfrentar as quinze horas e trinta e quatro minutos de viagem, com paradas programadas, com um único livrinho de palavras cruzadas em mãos. Interessado ao ponto de caminhar da rodoviária até a Calle 168 enquanto pedia informação dos outros pedestres. Ela não me disse o telefone, mas eu estava realmente interessado. Muito interessado. Acontece que na Calle 168 havia cerca de vinte casas bege com grades vermelhas. Vinte. E aí perdi o interesse. 

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Aleea Nicoresti, Timișoara, Romania

Cemitérios sem muro são um desrespeito. Veja o caso de Romanov. Através das grades baixas do cemitério do Beco Nicoresti pode-se ler claramente Hier Ruhen Romanov Domasneanu. Aqui descansa Romanov Domasneanu. Descansa mesmo? Descansa com todos os carros acelerando na rua? Com todas as pessoas falando nos celulares pela calçada mínima? E com grupos de jovens  fazendo piada perto da meia-noite, ensaiando passos de Thriller? Duvido muito. Pobre Romanov. Deve se sentir intimidado. Não pode nem mesmo se levantar e bater um papo com o amigo Codrut, do túmulo ao lado. Nem paquerar Anastasia de séculos atrás. Fica confinado ao caixão porque nós, vivos, assim queremos. Porque nós, vivos, construímos cemitérios sem muros. Os mortos merecem mais privacidade.

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Unnamed Road, Botswana

A máfia africana é a mais econômica do mundo. E Montsho sabe disso. Não se gasta dinheiro com balas ou katanas. Não se fabricam sapatos de concreto para jogar pessoas no rio. Envenenar a comida é um desperdício. A máfia africana simplesmente dirige até um lugar afastado e deixa a pessoa lá. A própria África dá um jeito. E Montsho sabe disso. Já fez isso com outros. À direita, uma vegetação amarela, seca, com árvores sem folhas e madeira escura. À esquerda idem. Nenhum carro. O leão que o encontrar não será preso. Não deixará provas. O leão, por sinal, será mais inocente que Montsho. Ele segue a estrada de terra. Segue porque se sente vivo o suficiente para não se entregar. E na esperança de sair vivo mora a beleza da punição. Como num cassino, todos sempre acham que com eles vai ser diferente. Que é seu dia de sorte. Que os leopardos estão saciados, e as hienas sem vontade de rir. Mas é um sonho. E Montsho, no fundo, sabe disso.

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Gutachstraße 8, 13469 Berlin, Germany

Ao chegar em Berlim para o mestrado, Gilberto não esperava encontrar aquele cartaz na rua onde ficaria hospedado. Era uma rua alemã como se espera que as ruas alemãs sejam, com Audis e Volkswagens e BMWs estacionados. Havia também um Peugeot, mas não vem ao caso. No cartaz, via-se a foto de um papagaio e a inscrição “Papagei”, que é papagaio em alemão. Mas ao contrário desses cartazes de animais perdidos que vemos por aí, onde normalmente são listadas as características físicas do animal, aquele exibia uma pequena, porém impressionante, lista de crimes. O Papagei havia roubado uma singela fortuna em jóias e euros em espécie dos antigos donos. Além disso, havia fugido da polícia e deixado um oficial ferido durante a troca de tiros. Possuía passaportes com nomes falsos, era fluente em quatro idiomas e havia atravessado a fronteira usando um elegante disfarce de flamingo. Gilberto lembrou do papagaio que o avô criava em Santana de Parnaíba, que falava palavrões e contava piadas de churrasco. Um papagaio muito inferior. 

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LA-577, Winnsboro, LA 71295, USA

Quentin, os aliens não vêm. 

Eles vêm sim. Eles têm de vir.

E por que eles teriam de vir? 

Porque algo precisa acontecer na plantação de milho. 

Mas, Quentin, por que eles atravessariam o universo pra desenhar na nossa plantação de milho? 

Porque nós temos a melhor plantação de milho de Luisiana. 

Mas, Quentin, veja só, se eles podem chegar na nossa plantação de milho, eles podem chegar em qualquer lugar do universo. 

Mas eles querem isso? Duvido muito. 

Quentin, falando sério, nenhum alien, nenhum, vai vir aqui desenhar símbolos na nossa plantação de milho. Eles podem ir a outras galáxias, dar voltas em alfa centauro, atravessar buracos de minhoca e viajar no tempo. Eles poderiam colonizar Marte antes de vir desenhar na nossa maldita plantação de milho. 

Em Marte tem milho? 

Não. 

Foi o que pensei.

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Nová 71-72, 054 01 Levoča, Słowacja

No caminho de volta da escola, o pequeno Alexej faz uma revelação à mãe. Mãe, descobri porque ainda não reformaram a casa do senhor Kovac, ele me disse que é porque todos acreditam que sua casa é mal assombrada e, por isso, os construtores evitam entrar lá. Só os gatos entram. Os gatos não têm medo dos espíritos e conseguem comer a comida que os fantasmas preparam. A mãe não fala nada. Não apenas por saber que o Senhor Kovac morreu antes mesmo de Alexej nascer, mas por saber que há muitos anos Alexej também não está vivo. 

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South Korea, Seoul, Doseon-dong, 101 성동삼성쉐르빌

Pai, você não pode sair com o moletom do Mickey.

E por que não? Eu comprei. 

Pai, é ridículo. 

Filho, mas essa é a beleza de ser turista. Ninguém me conhece aqui em Seoul, eu posso ser tão ridículo quanto eu quiser. O mais ridículo dos ridículos. O mais ridículo do mundo.

Vou fingir que não te conheço. 

Te abraço em público daí. 

Pai…

Filho, você não tem mais idade pra agir feito esse tipo de adolescente. Vai achar que eu e sua mãe somos virgens agora?

Pai, por favor. 

Filho, que mal pode acontecer? O carro do Google passar, tirar nossa foto e eternizar para todo o sempre a minha ridícula roupa de turista? 

Tipo isso, pai. 

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Rua Embuaçu, Vila Mariana, Brasil 

A proposta pedia mini contos sobre lugares já visitados. Pensei muito em fugir do clichê de viagens, praias e bangalôs e escrever sobre banheiros. É, banheiros já visitados. O banheiro do Shopping Vila Olímpia, o banheiro da fábrica da Brastemp, o banheiro de beira de estrada que interditei em uma excursão do terceiro ano do colégio. Todos aplaudiram quando voltei para o ônibus. Mas resolvi abrir o google street view e randomicamente viajar por lugares desconhecidos, parando onde alguma coisa prendesse minha atenção. Casas iguais, um cemitério, um moletom. A proposta também pedia para evitar a primeira pessoa e logo de cara escrevi o conto inicial com ela. Gostei dele, fazer o quê? Comecei errando e continuei. Por sinal, esse miniconto aqui nem se parece com um miniconto. Não tem cena nenhuma. Não tem ação. O personagem é uma completa incógnita e só funciona dentro da oficina de contos do Ronaldo Bressane. Sabe, ainda penso que os banheiros seriam mais interessantes. 

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