Cada um com seus problemas

Silvia Argenta

DRINK NO SHABAT

O professor ofereceu um drink à garota desconhecida sentada no banco da frente de sua casa. Ela acenou que sim com a cabeça. Ele lhe entregou um copo de coca-cola, dando um sermão sobre o shabat, feriado sagrado judeu, quando, dentre várias restrições, não deviam beber nada alcoólico. Nem escrever eles podiam naquele dia. Ele então disse que, apesar do deslize inicial, a aceitava como esposa, pois os dentes dela indicavam que ela não fumava. Preferia mulheres sem vícios. Para não perder contato, o professor entrou na casa e retornou com o número do telefone anotado num pedaço de papel. Pela primeira vez a turista falou: “mas hoje não pode escrever. Como você fez?”. Sem nenhum constrangimento, ele respondeu que deixa vários bilhetes pré-anotados para usá-los em emergências.

Jerusalém – 2014

LOW COST

O rapaz era acostumado a fazer viagens no estilo low cost. Tinha todos os sininhos de promoção de voos e hotéis ativados. Era um gênio da economia do bom, bonito e barato até o dia que vacilou no peso da mochila, que tinha cinco quilos a mais do que o permitido pela companhia aérea. Para não perder seu status de nonô eficiente e se livrar do pagamento por excesso de bagagem, pesou primeiro a mochila da namorada, que estava com o peso adequado. Depois tirou da própria mochila um livro, a necessaire e um par de chinelos e, sem o menor pudor, colocou tudo na bagagem da namorada. Só então apoiou sua mochila na balança. A atendente fez que não viu.

Teresina – 2007

A DENÚNCIA

No encontro nacional de estudantes, não eram prioridade as palestras e oficinas. Um grupo se reuniu para fazer um passeio numa cachoeira próxima à faculdade. A guria que organizava a pequena viagem colocou Ana e Vanessa numa fila de espera, apesar de haver vaga no ônibus alugado. Em vez de arrumar encrenca, as duas resolveram contratar um guia local para fazer o passeio. Elas saíram de carro da faculdade no mesmo horário do ônibus com o restante da turma. No meio do caminho, uma blitz na estrada parou o ônibus. Os policiais encontraram maconha e cocaína e todos os trinta alunos foram presos. Ana e Vanessa passaram o dia fumando e tomando banho de cachoeira. Juram de pés juntos que não foram elas que denunciaram. 

Bonito – 2001

EMBOLADA

A moça aguardava o sinal abrir para passar na faixa de pedestre. Se sentia bem, pois tinha acabado de tomar duas bolas de sorvete de chocolate servidas numa taça de ouro. O trânsito estava intenso e no horizonte plano do outro lado da rua observava a bola de fogo se pondo no final da tarde. Começou a ficar impaciente pela demora do sinal, que priorizava os carros, e apertou novamente o botão do poste. Quando enfim ia trocar de cor, o último veículo passou na sua frente. Era uma van lotada de crianças. Mal teve tempo de perceber que gritavam e foi atingida por alguma coisa bem no meio do rosto. Os berros se dissiparam ao ouvir os brincos pendentes de ouro se batendo. Desnorteada, levou as mãos ao nariz e não sentiu nada, nem mesmo sangue. No chão, viu a bola de meia suja que bateu na sua cara. A van já estava longe. A moça então atravessou a faixa de pedestre tropeçando no salto agulha. Ao contrário do sorvete, a bola de meia não se dissolveu tão rápido assim.

Dubai – 2009

O POLAQUIANO

A família tinha terminado o lanche no restaurante da beira da estrada e entrado no carro para continuar a viagem. O pai, um homem alto de pele e olhos claros, acionou o câmbio automático, deu a ré e não pisou no freio. Acabou atingindo a traseira do jipe no capô de um Gol bolinha estacionado no pátio. Sem titubear, o pai de família engatou o drive e saiu em disparada pelo chão de pedrinhas até chegar ao asfalto. O dono do Gol saiu correndo do restaurante, gritando: “seu polaquiano filho da mãe!”. Entrou no carro para alcançar o jipe e, quando virava o volante a cada curva, a buzina era acionada. Depois de tanta curva e buzina, desistiu da perseguição.

Guarapuava – 2004

A PERDIDA

A moça da cidade estava decidida a fazer a trilha no meio do mato para postar no instagram. Queria likes a danada. Entrou tão preocupada com os stories que não pediu licença para entrar na floresta. Postou foto em cima da rocha, abraçada na samaúma e pendurada no cipó. Depois de terminadas as três horas de trilha, a moça deu falta da bolsa onde estavam os documentos e cartões. O guia alertou lá no início que era para prestar atenção porque o curupira pregava peças nos turistas. Pelo menos ela não perdeu o celular.

Velho Airão – 2019

POR UM FIO

Ela reclamou no táxi, no check-in e no assento do avião. Na decolagem, um fio de água caiu do bagageiro superior, bateu no pescoço e escorreu pelas costas dela. A quarenta e cinco graus, ela desafivelou o cinto e ficou de pé no corredor com a camiseta molhada. A comissária, sentada próxima, lhe disse: não posso te ajudar agora. 

Espaço aéreo – 2015

PROIBIDO

O casal de apaixonados era doido por frutos do mar. Um dos sonhos da vida era conhecer o mercado que era uma das maiores feiras de peixes do mundo. Deixaram a visita para o último dia para fechar a viagem em alto estilo. Acordaram de madrugada para ver o leilão de atum e depois encarar a muvuca das vendas. Ao chegarem ao galpão imenso, deram com a cara no portão fechado. Sem entender o motivo, foram até um restaurante próximo. O cozinheiro lhes disse que era feriado. Aliás, o único feriado anual do mercado. Fecham tudo para balanço somente uma vez no ano. Premiados, os dois não se conformaram com a notícia. O cozinheiro, se arriscando com os turistas desavisados, então ofereceu a eles o proibido sushi de baleia para comer no café da manhã. Era caro, mas eles aceitaram. 

Tóquio – 2012

OS ASTROS

Com o sol forte, a garota descia devagar a escada de degraus irregulares construídos séculos atrás. A pedra já era gasta de tanta gente que passava por ali todos os dias. A pirâmide da Lua, posicionada no alinhamento dos astros, era motivo de interesse de vários turistas, que se enfileiravam na parte central da escada para descer se apoiando numa corda que nada tinha de segura. Impaciente com a fila de senhoras orientais, protegidas com seus chapéus e que apoiavam os dois pés em cada degrau, ela decidiu seguir seu próprio caminho. Se afastou da corda e pisou um pé em cada degrau, abrindo os dois braços para se equilibrar. A cada passo, o joelho da perna de trás quase encostava no degrau já superado e assim foi ganhando velocidade até que se desequilibrou. Não se sabe se foi a pressão baixa, um tropeço ou se viu estrelas. O fato é que nesse instante vários cliques das máquinas fotográficas dos parentes que esperavam as senhoras da fila foram disparados. A imagem deve rodar pela internet.

Teotihuacan – 2018

PÉ DE PATO

Márcia colocou os pés de pato para dar um mergulho no rio transparente. Queria nadar rápido para aproveitar bem o pouco tempo que tinha disponível para o passeio. Enquanto ela estava apreciando os pequenos peixes prateados, um turista da outra margem do rio gritou: sucuri! Márcia nunca tinha tido desempenho tão bom com as nadadeiras. Chegou rapidinho no barranco. O problema foi subir o pequeno trecho de terra com os pés de pato junto com o apavoro. Na função entre se segurar com as mãos e fincar as nadadeiras na terra, um menino apareceu de barco e perguntou o que tinha acontecido. Assim que soube, ele respondeu: “Ah, mas elas não pegam gente não. Só pegam bezerro”. E Márcia perguntou: “E como é que vou saber se cobra entende a diferença entre gente e bezerro?” 

Cáceres – 1998

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