O jegue não!

por Américo Paim

Cuidado com o degrau

Separado há cinco anos, Antônio vivia a primeira viagem com sua nova esposa. Moravam juntos há oito meses. Aquele dia em Praga prometia. Diana organizou tudo: passeio de barco pelo rio Moldava, travessia da Ponte Carlos, saindo da Cidade Velha para a Cidade Pequena, e jantar romântico em restaurante à beira do rio, com vista para a cidade toda iluminada. Tudo ia bem até que ao ajudá-la a descer do ônibus a caminho do ponto de embarque, ele falou: “Cuidado com o degrau, Tânia”. Sua ex-esposa agradeceria a deferência.

(Praga – República Tcheca – 2001)

Giuliano Gemma

Seu Arlindo ia à Itália com a esposa e casais amigos. Desconfiado que só, resolveu esconder seus dólares. Mandou fazer uma tábua fina, na medida de uma das gavetas da sua mesa de trabalho em casa, onde guardava o revólver. Fez um fundo falso para o envelope com as verdinhas. Sua mulher até ajudou enquanto ele manejava a furadeira. Ficou perfeito, imperceptível. Na manhã da viagem, ele, orgulhoso do feito, abriu enfim a gaveta, desparafusou a tábua e pegou o envelope. Teve dificuldades para passar os dólares furados em terras estrangeiras.

(Rio de Janeiro – Brasil – 1978)

Fla-Flu belga

Era um curso com fins de semana livres. O hotel bem perto da capital. Estreantes na Europa, os dois colegas resolveram ir de bate e volta a Amsterdã. Sábado cedo saíram de trem para a estação Midi, em Bruxelas, onde haveria a baldeação. Sem compreender o idioma, confiavam nas placas. Chegaram e viram uma pela janela: Zuid. Observaram seu vagão esvaziar, mas permaneceram sentados. Estranharam a demora no local, perderiam a conexão em Midi. Mais aflitos ainda com a parada total dos motores: “pegamos o errado!”. Saíram rápido e deram de cara com uma placa escrito Midi, nome em francês para a estação Zuid. Um deles falou que era tricolor e não entendia flamengo. Nem ele riu.

(Zaventem – Bélgica – 1999)

João

Inverno. Segundo dia da turma de amigos nas trilhas. Escolheram uma leve, mas de trecho plano curto. Logo vieram as subidas, tranquilas, mas não para Marina, fora de forma. Sérgio, seu marido, ficou para trás com ela. Como o resto do grupo seguia bem, o guia João focou no casal. Ela foi um tal de “João, segure aqui”, João, me ajude”, “João, isso”, “João aquilo”. À noite, no jantar, a turma pirraçou, rindo: “João, traz mais uma”, “João, passa o sal”. No quarto da pousada chique com vista maravilhosa do vale, lareira acesa, clima romântico, o casal se olha e ele diz: “Se me chamar de João não vai rolar”.

(Vale do Capão – Bahia – Brasil – 2010)

O melhor destino

O casal em Lausanne há quase cinco anos, vindo do Brasil. Os filhos, dezoito e quinze anos, bem adaptados, gostavam das programações com os pais. Naquele verão fizeram turismo no próprio país que adotaram. Foram a cidades e vilas em diversas regiões, encerrando na Suíça italiana. Na manhã do último dia, já na estação, à espera do pontual trem suíço, o filho caçula contou o que aconteceu quando acordaram. Seu irmão, meio sem motivo, colocou música no celular. De repente, os dois riam e dançavam no quarto. A mãe quis saber o porquê. Ele sorriu: “acho que é porque estamos voltando pra casa”.

(Lugano – Suíça – 2019)

Lua de mel

O teatro do navio não cabia mais ninguém. Três casais da plateia foram convidados ao palco: um com trinta anos juntos, outro com dez e um em lua de mel. As mulheres saíram para que respondessem perguntas sobre elas. Tudo ia bem até o papo sobre o primeiro beijo. O mais velho, conciso, mandou bem. O outro arrodeou, mas respondeu. O recém-casado descreveu detalhes do que aconteceu na Praia do Forte. Vieram as mulheres. Erros e acertos divertindo a plateia. Voltou o primeiro beijo. A velha, consistente, encantou. A outra arrancou risos com tiradas de sacanagem. A novinha emudeceu a plateia quando disse não conhecer a Praia do Forte.

(Mar do litoral do Nordeste – Brasil – 2008)

Dieta

Discreto e caseiro, ele mantinha hábitos simples, mesmo após virar empresário bem-sucedido. Só não gostava de mudar a dieta: feijão, arroz e carne, de preferência de carneiro. Sua esposa era movida a animação e novidade. Ele não gostava de viajar, mas ela adorava e cismou de irem ao Oriente. Lá se foram. Passeios, paisagens, costumes, nada era familiar. Ele fez as vontades dela. A três dias da volta ao Brasil, foram almoçar. Ele só falava o português. Olhou o cardápio e logo apontou uma foto de feijão para o garçom. A comida chegou e ele foi com gosto. Era zenzai, prato com feijão doce. A volta para casa foi antecipada.

(Tóquio – Japão – 1980)

Columbiforme

Primeira vez de Rogério fora do país. Seus pais e sua esposa organizaram a viagem. Foram também seu tio e a mulher. Vindos da Espanha, chegaram a Veneza. Todos empolgados, mas seu pai alertou: atenção com os dejetos columbiformes. Correu tudo bem e seguiram para Pisa, onde fizeram as ridículas fotos escorando ou empurrando a torre. A pedido da esposa, Rogério foi comprar refrigerante. Uma pessoa na fila deixou cair um papel. Gentil, ele se abaixou para apanhar e logo sentiu o impacto molhado e quente na cabeça. Ainda viu um resto de voo do pombo. Teve certeza de que estava sendo seguido.

(Pisa – Itália – 1992)

Busão

Os dois irmãos embarcaram na agência, como o povo chamava o ponto de partida dos ônibus. Lugar marcado, mas madrugaram. Nas poucas paradas ainda dentro da cidade, o coletivo encheu de tal jeito que quem estava no assento do corredor já se irritava com os trompaços das pessoas de pé. Era um tempo em que se ia assim, feito gaiola de galinha ou porco de caminhão. Suor, barulho, choro de criança e reza de velho. André perdeu o lugar na janela no par ou ímpar e seu irmão só ria da cara de bicho dele. Com cinco quilômetros, pararam outra vez. Na beira da estrada, um matuto com uma sacola grande de plástico, uma jovem com lenço na cabeça e um homem apeado, segurando a montaria com uma corda. Aí alguém no ônibus gritou: “o jegue não!”.

(Castro Alves – Bahia – Brasil – 1983)

Deixe um comentário