Manual da comedora de casada

Condições

Para ser uma comedora de casada, você precisa, em primeiro lugar, ser uma mulher. Em segundo lugar, não interessa que tipo de mulher você é ou sua orientação sexual – cis, trans, hetero, lésbica, bi, a+: a qualquer momento você poderá criar ou aproveitar uma situação x para comer uma casada.

Para comer uma casada, será sempre mais fácil se o par dela for um homem. E quanto mais homem o marido se considerar, mais fácil será comer a casada em questão.

Já no meio lésbico, comer casadas é um assunto corrente. Se você é lésbica, sabe do que estou falando. Se tem amigas lésbicas, já deve ter se deparado com tal tópico. Se não tem, é provável que a comedora de casadas seja você.

Existem comedoras de casadas que começaram com a intenção de se tornarem uma? Claro, é um fetiche clássico de contos eróticos postados em sites duvidosos, sem pontuação e imagens narradas pelo êxtase da pré-felação, com diversos anúncios clicáveis em formas de gifs animados de pintos e bocetas – será que dariam bons NFTs? É uma pena que você seja uma pervertida lendo e escrevendo sobre sexo do tipo que você não faz em vez de utilizar sua sagacidade para ganhar dinheiro.

Há também as comedoras de casadas que, um dia, assim, sem querer, beijaram aquela amiga casada e foi muito bom. E então elas começaram a considerar que a traição não veio da parte delas. Que, inclusive, elas nem fizeram nada para provocar aquilo. Foi sem querer, mas só que proibido é mais gostoso. Esse roteiro também tem aos montes lá nos tais sites.

Se você vê o assunto “Comedoras de casadas” com algum grau de moralismo e nenhum humor, nem continue a leitura a partir daqui. Porque você terá caminhos trilhados para se tornar uma profissional do ramo. Existe uma professora que dá um curso em que conta sua trajetória para se tornar uma “comedora de casadas profissional”. Emilaine. É uma coach da subversão, provavelmente uma filósofa da não-monogamia, adepta do feminismo existencial e com certeza uma expert das artes marciais. Emilaine diz que se tornou uma ninja na arte de comer casadas. Além de ela ter outras qualidades, como editora de vídeo e pesquisadora de imagens para vender seu produto. Confiram no YouTube e digam se é mentira. De novo, só não ganha dinheiro em novos mercados quem não quer.

Mas para que qualquer objetivo seja alcançado quanto a ser uma comedora de casadas ou compreender essa atitude (estilo de vida, fetiche, deslizada, meta etc.) é preciso um pouco de regressão. Lembra-se de quando você sentia vergonha só de ver escrita ou ouvir alguém pronunciar a palavra “sexo”? Que só de se deparar com ela parecia que você estava cometendo um delito? E que você precisou passar por um processo de se reconciliar com a palavra “transar” porque ela te parecia muito, hum, digamos, explícita? E que depois você até descobriu que foi uma gíria dos desbundados nos anos 1960, sem conotação sexual?  Tudo isso por que? Porque a boa comedora de casadas conhece a si mesma.

Questões práticas

Nenhuma previsão é óbvia quando se trata da relação entre personalidade e sexo. “Comer uma casada” é algo que pode acontecer por causa de um ponto sensível: falta de sexo, de atenção do cônjuge, ou por não ter tido a sorte de se casar com parte dos cientificamente comprovados 1% de homens héteros que sabem onde fica o clitóris, ou dos 0,2% que ouviram falar do ponto g, ou dos 0,1% que sabem sobre squirt.

Assim, exceto quando se trata de comer a mulher de um macho odioso, o acontecimento “comer uma casada” não tem lá uma relação muito boa com a ideia de ética. Mas até isso é questionável pois pode haver um acordo ali entre o casal que tenha criado suas próprias leis, não é? Sim, é verdade: é difícil, quase impossível, e você concorda totalmente que isso não aconteceu.

Agora, fica o alerta: vão aparecer, uma hora na vida, amigas que querem disputar quem come mais casadas ou quem já comeu as mesmas casadas que você. Vão fazer tabelinha, virar mais uma dose de tequila e calcular os pontos. Na metade de uma garrafa de José Cuervo, desenharão num quadro branco com pincel azul as já “comidas” que foram aprovadas e com pincel vermelho as que ainda não estão na lista, mas podem entrar. Essa é uma parte que ninguém te conta da dinâmica social das “comedoras de casadas”, se chama “Planejando o alvo”.

Os próximos passos podem ser uma chuva de verão no asfalto, molham o piso que já deveria estar molhado, mas que o calor senegalês do Brasil já secou. Por isso nunca é demais reafirmar:

  1. Evite ser pega no flagra.
  2. Evite o chamado “trisal”. Não precisa nem ter assistido “Carga pesada” para saber a estatística sobre os 99,8% dos solteiros que já tentaram e comprovaram que é cilada. Portanto, não me chame de Pedro, que eu não quero ter que te mandar correr, Bino.

Saiba mais

Para saber mais sobre o universo das “comedoras de casadas” no ano de 2021, você não precisa comprar uma peruca loira, óculos escuros com detalhes dourados no aro e entrar numa locadora de vídeos pornôs. Até porque não existem mais locadoras. Se for fazer uma conta no Only Fans, tenha os cuidados básicos da aba privativa, senha forte e e-mail que não seja o do trabalho. Se for baixar vídeos da deep web, sinceramente? Você vai ficar sem o conselho, porque é um nicho ainda não explorado por aqui.

Mas você pode acessar as playlists sobre o tema no Spotify. Provavelmente, concorrentes de Emilaine, ou seria ela mesma diversificando seus canais? A capa da playlist é um emoji amarelo sobre um fundo branco, usando um guarda-chuva e com os seguintes dizeres: “Ó o toró kkkk”. Tem uma outra que selecionou apenas Artic Monkeys. Parece também que Billie Eilish comanda um público cativo. Se você é do BDSM, se sinta representada.

O que? Você está achando que era a única “comedora de casada”? Que estava desbravando um nicho novo? Não, amore, muitas vieram antes de você. Você é apenas a neta da comedora de casadas que não conseguiram pegar no flagra.

Por fim, se você achou que esse manual ia te contar situações específicas de como encostar na perna de uma casada, dançar a dança do acasalamento casual na balada, trocar olhar sobre uma taça de dry martini no balcão do bar, despistar o marido da casada na casa de veraneio da família, tomar banho junto com sua melhor amiga, fazer suruba no ofurô ou encontrar as mães da escola em festinhas regadas a MD, achou errado. Ainda não foi dessa vez, mas quem sabe numa segunda parte.

Agora, se você souber o por quê de todos os perfis do Reddit, Tik tok e Twitter que utilizam o arroba ou a descrição de comedora de casada são, na verdade, perfis sobre pop coreano, me conta? “Comer casada” hoje tem outro sentido? Precisa aprender a língua de Kim Jon-un? Fica a questão.

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