Pra engolir com carinho

(Angélica)

Um velhinho, que mora num sanatório em Campos de Jordão, esquecido pela filha que não quis mais cuidar dele, ao falar, cospe tanto que quem está perto tem que abrir um guarda-chuva ou se afastar. As dentaduras ficaram frouxas, ele encolheu tanto nos últimos meses, que agora tem o tamanho de uma criança. As velhinhas fogem desesperadas e marcaram uma reunião com o diretor pra pedir pra ele ser expulso. Não é só porque elas ficam ensopadas com a chuva de perdigotos e tremem muito, já que em Campos é frio. E sim pelo fato de que o velhinho expressa sua tara, cada vez mais inocente e infantil, apertando qualquer bunda e qualquer peito que vê pela frente. Não se importa se eles nem têm mais pra onde cair, o que na verdade, as velhinhas deviam agradecer. Isso quando não parte pra um ataque mais direto, sem as dentaduras, que já caíram pelo caminho, com a língua de fora. Dizem, por pura maldade, que ele toma o remedinho azul. As enfermeiras ao saberem da rebelião, também querem participar. A única que se mostra aflita é uma velhinha de cabelo lilás, que também diminuiu muito, e ultimamente não quer mais usar calcinha.

Campos do Jordão, São Paulo

Na BR110, perto de Inhambupe, tem um posto de combustíveis chamado Irmãos Coragem, onde os caminhoneiros podem encostar seus veículos pra dormir. E também tomar banho num local decrépito com o ralo entupido e jantar num salão escuro, talvez pra que não vejam os ratos e nem a qualidade da comida. Gislene trabalha lá servindo as mesas. É morena, com o corpo redondo nos lugares certos e um cabelo preto, liso, que vai até a bunda, talvez daí venha o apelido de Paraguaia. Quando leva a refeição, deixa um potinho de cerâmica vazio ao lado. Quem não sabe do que se trata, acha que é pra jogar algum osso ou pedaço de pelanca. Já os que estão mais inteirados e param ali por isso, colocam anfetaminas no recipiente. Ao fechar a conta no seu caderno, Gislene anota em outra folha em que vaga o caminhão estacionou e o que vai receber de acordo com a quantidade de comprimidos deixada lá. Eles ganham uma senha pra que não haja confusão. O dono do posto finge que não vê. E os caminhoneiros, no breu de suas cabines, também não, já que Gislene, na verdade, se chama Deolindo e é rápida como o diabo.

Inhambupe, Bahia

Maria Eduarda se sente tão bem que decidiu que não precisa mais tomar remédio. Na verdade, já tinha parado alguns dias atrás sem avisar o seu psiquiatra. Parte dessa felicidade é por ter ganhado um vale pra remodelar as sobrancelhas. Ao chegar na clínica, se empolga tanto que resolve, mesmo se endividando, fazer botox, preenchimento labial e colocar unhas postiças. O tratamento estético demora horas e assim que Maria Eduarda se vê no espelho, fica eufórica só que quer mais, muito mais. As esteticistas olham uma pra outra e balançam o ombro. Aplicam mais algumas injeções, pelo rosto todo e também nos lábios, capricham na grossura e no preto das sobrancelhas, aumentam mais as unhas e mesmo assim Maria Eduarda, apesar de se sentir radiante, acha que ainda falta um tchans. O preço vai subir muito, diz uma das esteticistas querendo que ela desista e vá embora, já que os procedimentos estão superexagerados. Ela bate o salto no chão e concorda em pagar o que for pra ficar magnífica e reluzente. As unhas agora são modelo Zé do Caixão, o rosto irmão siamês do Clóvis Bornay, e a boca, a boca vamos dizer que ficou algo bem indecente. Se as sobrancelhas lembram pelos pubianos? Temo que sim. O que Maria Eduarda vai achar quando voltar pros remédios? Nunca se sabe.

Tatuapé, São Paulo

Já é tarde da noite e Edivaldo, cansado de dirigir, para num hotelzinho onde sabe que tem uma garota na portaria que é uma graça. Loira, magrinha, olhos verdes e uma boca grossa que só de olhar fica embaraçado. Priscila. Nunca teve coragem de puxar conversa. Assim que vai pro quarto, toma um remédio pra dormir, como sempre, e se deita. Fica pensando que ela está bem ali, do outro lado da parede, e não consegue pegar no sono. Engole mais um comprimido que também não faz efeito, continua fritando na cama. Agoniado, parte pro terceiro na esperança de apagar logo. Não é o que acontece, quer dizer, em termos. Edivaldo, sonhando acordado, abre a porta e vai até a portaria. Canta Priscila de um jeito gostoso e atrevido, coisa que nunca conseguiu fazer na vida. Ela adora, solta uns gritinhos e puxa um dos cantos da boca pra cima. Em pouco tempo, estão rolando na cama e se lambuzando. Edivaldo acorda com o sol na janela, está sozinho e tem apenas uma vaga ideia do que aconteceu. Fica inseguro. Se veste depressa e ao ir acertar a conta, o coração dispara com a possibilidade de encontrar Priscila, por sorte, não é ela na portaria. Ao entrar no carro, percebe que mal consegue se sentar, acha estranho, dói, só aí se lembra dos brinquedinhos da doce Priscila.

Farroupilha, Rio Grande do Sul

Marven é hipocondríaco. Trabalha na casa de uma madame que também adora um remedinho e, por sorte, ele é o encarregado de arrumar, na pia do banheiro, o pacote que chega da farmácia. Abre as caixas, retira os comprimidos das cartelas, pra que a patroa não se dê a esse trabalho e também não estrague as unhas, e coloca tudo numas caixinhas coloridas. Na parede do armário tem uma tabela com o nome dos remédios e a cor correspondente. Por experiência, ele sabe que a azul é pra dor de cabeça, a patroa vive com os dedos nas têmporas, a verde alergia pois ela costuma se coçar muito, a preta quando está aos berros e a amarela pros infindáveis problemas urinários. Já nas outras caixinhas, das demais cores, ele não tem a mínima ideia pra que servem. Também não está nem um pouco interessado, já que pega os comprimidos de onde estiver mais cheio, pra patroa não perceber, e coloca no bolso do avental. Já faz um tempo que Marven toma uma cápsula gorda vermelha. Apesar de engasgar toda vez e de sentir que tem uma espinha de peixe atravessada na garganta, acha que sua pele melhorou muito, quase não tem acne. Agora está acontecendo uma outra coisa e ele vive muito agitado, numa dúvida cruel: se deve ou não comprar um sutiã cor-de-rosa, da cor da caixinha milagrosa.

Boa viagem, Recife

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