A maldição de ser uma teta caída

(Angélica)

Tudo na vida despenca, Raíssa, para com isso. Para de chorar. Desde que você se apaixonou pelo Daniel nossa vida virou um inferno. Ele pediu pra você mandar umas fotos e pra ficar bonita, o que você faz? Compra esses sutiãs. Sutiãs não, aparelhos de tortura, com aro e barbatana de metal. Além do quê, ao vestir, põe no último colchete, estica as tiras ao máximo, fica tão apertado que mal consegue respirar, imagina eu, não sei qual das duas vai desmaiar primeiro. Dói, viu?

E dói também o jeito que você me olha, pensa que não percebo? Você nem disfarça mais. Eu sei que tô toda caída, então não precisa me segurar com a sua mãozinha aflita e me levantar de supetão querendo que eu fique lá em cima. Querida, não sou alpinista. Já disse pra parar de chorar e não ponha a culpa em mim. A teta direita não reclama e eu sou a implicante? Talvez seja mesmo. Não queria dizer nada, mas ela tem uma certa debilidade cognitiva e também uma falta de discernimento espantosa. Nem se importa se o elevador caiu no fosso.

O Daniel tem cinquenta e sete e só pega mulher de trinta e cinco? E se você arrumasse um de setenta? Tá, vou ficar quieta. Não falo mais isso. A única coisa que sobe é a gengiva? Você tem toda razão, envelhecer é uma desgraça mesmo. A minha visão do mundo, por exemplo, mudou. Quando você vai tomar banho, em vez de olhar pros azulejos azuis, pro espelho em cima da pia e pro nosso corpo arrepiado de frio, o que eu vejo? Alguns fios grudados do seu cabelo loiro na lajota branca do piso e os seus pés cheios de joanete com as unhas pintadas de rosa choque.

Nude? Ele quer que você mande nude? O Daniel é bem ligeiro. Dá uma de tímida, tira uma foto de costas ou manda uma do seu pezinho. Ai, não me belisca. Agora sério, amor não se mede pela teta, mas que pode prejudicar muito, pode. Quem quer uma mulher com uma muxibinha? Calma. Não grita, não falei que é o nosso caso. Ainda não. Bem que você podia tomar uma providência. Qual? Aquela. Você sabe. Chuta. Não, se matar na fonte do prédio não vai dar certo. Silicone. Coloca silicone, pronto falei. Tá vendo? Até começou a sorrir.

Enquanto você procura um médico, marca a consulta e faz os exames, leva o bofe em banho-maria e no meio do cozimento manda umas mensagens de texto apimentadas, sempre funciona. Você tá preocupada com outra coisa? Que além de você gastar suas economias pra pagar o implante, vai ter que ficar um tempo de molho? Ué, vai. Mas é por pouco tempo, não se preocupe. Só até você poder levantar o braço, aí você volta pro salão e não vai ter mais problema em segurar a tesoura nem o secador de cabelo. Vai valer super a pena, não vai? Você merece, isso é o que importa. Vamos ficar lindas. Se meritocracia também serve pra teta? Lógico. Você não tem que pensar com o cérebro e sim com a mama. E pelo amor de deus não vai dar uma de avarenta e economizar no tamanho da prótese. Os mililitros são como champanhe, quanto mais você toma, mais ele sobe, entende? Se eu vou me incomodar em ter um objeto estranho junto de mim? Óbvio que não, acho que vai ser como encostar a cabeça num colchão de piscina.

Você gostou do doutor Pin? Também senti firmeza, parece seguro e pelo que ele disse vai ser tranquilo. Não falei pra escolher uma prótese grande? Foi a que ele recomendou, de perfil super alto. O Daniel não para de mandar mensagem depois que você falou que planta bananeira na cama? Como é isso? Você anda bem criativa, é sinal que a depressão já tá passando, até eu já ando menos caída, não de aparência, claro. Ele quer que você vá pra casa dele agora? Diz que precisa viajar e que inclusive já tá com as malas prontas. E que na volta vocês se encontram e você mostra uns outros segredinhos pra ele.

Os outros exames foram fáceis mas ser esmagada na mamografia é uma das piores coisas que pode acontecer pra uma teta. Também estou nervosa. Não via a hora de estar aqui com todas essas luzes em cima de nós. Se a teta direita sabe o que tá se passando? Não faço a mínima ideia, é tão lunática que deve achar que estamos numa sessão de bronzeamento artificial, bem provável que só perceba daqui a uns quinze dias que ela triplicou de tamanho. Já estou sentindo a ponta da luva do doutor Pin me tocar. Tô mais mole do que de costume e com muito sono.

Raíssa, você tá superansiosa pra ver como nós ficamos? Não tô me aguentando. Sim, ainda tem que cicatrizar o corte. Sabe, é como se eu tivesse grávida, uma barriga enorme com placenta e tudo, só tá faltando o bebê. Pra eu parar de viajar? Deve ser o efeito retardado da anestesia. Tira o curativo, vai. Nossa! Esplêndida é pouco. Estamos maravilhosas. A teta direita nem acordou ainda? Deixa ela pra lá, é meio tonta mesmo. Obrigada, você realizou meu sonho da teta própria. O Daniel que vai agradecer?

Sim, tá doendo um pouco, nada que não dê pra suportar. Você tomou uma dose maior de analgésico? Fez bem, não é um colchão de ar boiando na água não, isso aqui tá mais pra uma cama de faquir. Doutor Pin achou melhor uma prótese áspera? Você não me contou essa parte, que falta de consideração, devia ter me avisado. Talvez me acostume e ache só que tô deitada numa tolha que alguém lavou com cândida.

Pensei que fosse mais fácil. Já era pra ter menos dor. Eu tô começando a inchar, me sentir tonta, quente e vermelha. Acho que você deve ligar pro doutor Pin e perguntar se é assim mesmo. Ainda bem que você também tá sentindo as mesmas coisas do que eu ou ia falar que sou enjoada. Tá, eu sou, mas para de ter piti, não é hora. Vai até o espelho e tira a blusa. Não consegue levantar o braço? Tenta puxar com os dentes, isso, tá quase. Ajuda um pouquinho com a mão até onde der. Isso. Meu deus! Pega o celular correndo e liga pro médico. Depressa. Para de chorar ou ele não vai conseguir entender. Não atende? Liga de novo. Deu certo? Ufa. O doutor Pin foi pra China? Triste perder a mãe, mas não dava pra ser em outra hora? Pegou o número do Whatsapp, que bom. Se ele embarcou faz pouco tempo, quando fizer escala em algum lugar do planeta, a mensagem chega.

A cicatriz tá medonha. Eu acho que inflamou. Trinta e nove de febre? Não é hora de responder pro Daniel, você vai falar o quê? Que sua teta tá pegando fogo e precisa de ajuda? Deixa de ser carente. Já escreveu pro doutor Pin? É, vai demorar pra ele ler a mensagem. Também não tô bem, sabe aquelas poltronas que chacolham e a pessoa relaxa? Pois é, o silicone tá assim, tremendo todo e não tô nem um pouquinho calma, pelo contrário. Ter um ataque não resolve. Nem arrancar os cabelos. Se acho que o doutor Pin pegou o dinheiro da operação e fugiu? Não me diga que você nem pesquisou o histórico dele na internet. Vários processos? Quantos? Vou desmaiar.

Alguma coisa muito estranha tá acontecendo aqui. Parece que eu caí no meio de um maremoto e desta vez tô enjoada de verdade. Você tá preocupada que vai ficar uma cicatriz horrorosa, grossa e com queloide? Pior é que vai e eu não consigo controlar minhas lágrimas. A teta direita tá passando mal também? Não? Só eu? E você me odeia porque fui eu que inventei isso? Não é hora de jogar isso na minha cara. E quem escolheu o doutor Pin, você pode me dizer? Nem sinal dele, né? Só do Daniel e ele tá dizendo que quer brincar de espanhola? Só de pensar nisso tenho calafrios, dos mais medonhos. Sim, eu sei que ele é a única alegria que você tem nesse momento trágico. Mas por favor, deixa o bofe de lado e procura outro médico depressa. Tô falando sério.

Você tá vendo os hematomas? Infeccionou. Tô toda deformada. Socorro, Raíssa, aqui tá cheio de pus, eu tô sendo atacada por um monte de bactérias. Do jeito que eu tô sensível não acho difícil que elas estejam me comendo. Em vez de gemer, se manda pro pronto-socorro. Larga de ficar de mimimi com o Daniel, antes que aconteça o pior. Sei lá, uma infecção generalizada ou a morte súbita de uma teta infeliz. Não é só você que tá sofrendo, eu já tô me afogando nesse caldo meio verde, meio amarela. Não, parece que o silicone despedaçou.

Que alívio sair do colchão esburacado e voltar pro tapete. Ainda bem que a cirurgia foi um sucesso, alguma coisa tinha que dar certo. A teta direita tá perfeita? Cheia e arrebitada? Não me fala isso, tô com muita inveja, muita. Você tá dividida? Me odiando da mesma forma que eu odeio a outra teta? É, pra você encontrar o Daniel vai demorar. Pega umas fotos de outras tetas e manda pra ele. Você me promete uma coisa, quando tirar o curativo, jura me dizer a verdade?

Eu tô muito mais feia do que antes? Um rabisco do inferno, medonha e uma autêntica muxiba? Também não precisa ser tão sincera. Agora tô torcendo pra eu ter uma gangrena, ficar roxa e morrer pra você ver o que é bom. Eu sei que você tá tomando antibiótico, é que eu tô magoada. Doutor Pin não respondeu nenhuma das suas mensagens e você viu, numa rede social, que ele tava tomando um drinque num bar chique de Pequim? Esquece ele por um tempo, depois nós fazemos um vudu com as agulhas bem no meio das pernas dele.

Vamos ter que esperar a infecção passar pra depois colocar o silicone de novo. Falta pouco. É, eu fiquei toda marcada. Você tá chorando porque vai ter que terminar o que nem começou com o Daniel? Mandou algumas fotos de umas tetas lisinhas e não vai ter como explicar a nossa aparência nem mesmo depois da segunda cirurgia? Não vai mesmo. Entendo, mas essas lágrimas deviam ser pelo nosso estado. Enquanto isso a teta direita deve estar toda sorridente. Tá se achando? Por que teve que acontecer isso comigo e não com ela? O mundo é muito injusto, ela mal pensa, que ódio!

Tem certeza que esse doutor Ramanovisky é bom? As melhores referências, fico aliviada. Daniel tá dizendo que você faz muito doce? E você acha que ele tá quase desistindo? Se vocês se encontrassem e ele olhasse pra você, com uma teta redonda e a outra murcha, como uma manga chupada, ia sair correndo do mesmo jeito. Não tô segurando mais essa onda, ainda bem que fomos pra baixo das luzes de novo. A teta direita com certeza deve tá pensando que foi pra praia de topless.

Muito mais dolorido dessa vez. Também, nesse tira e põe. E a recuperação tá lenta. Não queria falar uma coisa, mas preciso dizer. Você tomou um monte de antidepressivo por causa do fora do Daniel e se for mais uma notícia ruim, você se joga no lago do Ibirapuera? Não posso deixar que o esboço do inferno vire o próprio inferno, sinto muito, não tem jeito. Eu tô começando a inchar, me sentir tonta, quente e vermelha. É, de novo. Tudo de novo. Formigando também. Eu ia pedir: liga pro doutor Ramanovisky, Raíssa. Pensando bem, não é só você que quer morrer. Mas naquela água suja não, por favor.

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