Leandro Reis
Escrevo isto com a esperança rarefeita do condenado, a esperança de que pelo menos leiam este relato, porque sei que nada pode mudar a minha sorte. Seguro a caneta com o que me resta de força nesta mão esquálida, os dedos esfarelados, as veias saltando no dorso escamoso. E o que pode ser feito, num caso como esse, além de narrar, fantasiando uma escuta impossível?
Foi no ano de 1927 que me foi dada uma consciência, uma vantagem, como o homem dizia, sobre os demais exemplares da espécie, incluindo a gêmea, a outra – a mão esquerda – que dividia as ações do homem comigo, em quem ele tanto confiava.
Mas se quero rememorar esta história, é preciso retornar ainda a 1925, quando o resto de meu corpo – ou do corpo do homem que, segundo ele mesmo acreditava, eu estava sob tutela – foi retirado de um cárcere e depositado em outro muito pior. Por motivos que se esclarecerão ao longo do relato, as imagens daqueles pouco mais de dois anos se cristalizaram como se, no lugar das unhas, eu tivesse cinco olhos arregalados.
O homem cumpria pena por crimes diversos, de roubo a latrocínio, e estava longe de ser libertado. Quando chegaram dois guardas à sua cela, todos os detentos levantaram das redes e do chão para uma revista de rotina. Mas logo atrás deles a figura engravatada que se aproximava das grades sinalizava a quebra daquela ordem. Ele chamou o nome do homem, uma vez apenas, talvez baixo demais; mas o homem estava atento e se prostrou diante dele, esperando que os guardas destrancassem a cela. Ninguém deu justificativa alguma, e o homem não perguntaria, pois deixavam o pavilhão dos detentos e passavam pela revista, o homem já com roupas civis, deixando a cadeia sem passar por qualquer burocracia.
Nem bem tinha visto a luz do sol, a escuridão voltou a descer sobre seus olhos, pois com as mãos ainda algemadas não pôde sequer lutar contra o capuz imposto na cabeça. Foi arrastado até um carro, debatendo-se e berrando por socorro. Durante o caminho gritava mais, fazia perguntas, e recebia um silêncio aterrador, nem sequer uma advertência ou um golpe nas costelas, como é de praxe nesses casos. Fez a segunda metade do caminho calado, ofegando.
O carro parou e o homem foi retirado do banco de trás. Ainda algemado, foi liberto do capuz, tendo finalmente o rosto atravessado por um sol que julgava morto. Aproveitou aquele momento por aproximadamente trinta segundos. Tempo necessário para que eu sentisse a brisa marinha salgando a minha pele enquanto o homem caminhava pelo cais, guiado pelos policiais. Depois de andar sobre uma rampa, se sentou num banco, e então notei os padrões de madeira que se acoplavam às linhas de minha palma, identificando neles a forma de um barco.
A travessia durou dez ou quinze minutos. O homem avistou uma pequena ilha onde se erguia um imenso e cinzento edifício, com quatro ou cinco andares e extensos corredores, pontilhados por muitas janelas. O prédio estava fincado num solo rochoso, ladeado por cactos e árvores altas e de folhas amareladas. Uma pequena comitiva de homens com jalecos brancos e gravatas vermelhas esperava o barco atracar.
Um deles se adiantou e abriu os braços para receber o homem ainda algemado, apertando-o contra seu corpo efusivamente e conduzindo-o pelos ombros para o interior da ilha. Tratava-se, é certo, do chefe dos outros, que se contentavam em andar alguns passos atrás dele e do recém-chegado.
– Este é o Hospital da Ilha da Pólvora – disse o anfitrião e médico, diante do portão de ferro, guardado por dois outros homens de roupas e máscaras brancas, deixando apenas os olhos à vista. – Mas não pense que você está doente. Não há nada de errado com você. Na verdade, você é a cura.
Passaram pelo portão e subiram uma longa rampa de concreto até o terraço do prédio. O homem se aproximou da mureta e contemplou a paisagem, o movimento dos navios alargando os vincos da baía de Vitória. Gentilmente, o médico tocou seu ombro direito, estremecendo o braço inteiro do homem até as pontas dos meus dedos, convidando-o a ir na outra direção.
– Não espero que você entenda tudo de uma vez. Daremos tempo para você se ambientar. Talvez uma forma interessante de apresentar nossas ideias a você seja uma simples visão de nosso trabalho. Um quadro vivo, um quadro de carne dentro de uma moldura. Aproxime-se – e chamou o homem para perto da mureta onde se recostava.
Do terraço, era possível distinguir seis pátios separados por muros altos, todos com uma fonte de água num canto e alguns bancos de madeira dispostos no espaço. Os corpos vagavam em túnicas amarronzadas, outros permaneciam sentados no chão, ou ainda deitados, como se mendigassem. Encostados nas paredes, os enfermeiros seguravam pedaços de pau com que afastavam os internos quando chegavam muito perto.
– Como você deve saber, esta é uma moléstia que está fora de controle. Esses homens e mulheres que abrigamos são uma ameaça à ordem social. Se não os isolarmos, eles tomarão a cidade inteira – o médico percebia o horror no rosto do homem, mas continuava com um meio sorriso. – De tempos em tempos, chegam de barco umas beatas da capital. Entendem que a doença é um castigo divino, uma espécie de impureza espiritual. Acreditam que o próprio Jesus devia carregar esse mal. Então elas vêm e abraçam eles, abraçam longamente cada um deles. Se é o que querem, se querem provar sua santidade, que o façam. No mínimo, elas são nosso contato com a cidade, levam pra lá notícias divinas, notícias santas do hospital. Nós somos uma espécie de purgatório.
O resto do encontro a mente do homem não pôde reter. Estava paralisado, tornando inúteis as algemas que ainda usava. Depois de descer do terraço, ele foi instalado num quarto do último andar, indicado na porta como Leito 22, e vestido com uma túnica branca.
O homem fazia as refeições e dormia boa parte do dia, sem ânimo – ou coragem – para deixar o quarto. Ele perguntava aos enfermeiros que vinham recolher a comida o que, de fato, esperavam dele naquele lugar. Naturalmente, não havia resposta, e então o homem exigia falar com o médico sob ameaça de greve de fome; o enfermeiro gargalhava e chamava mais dois colegas, que o encaravam até que desistisse e voltasse para a maca.
Numa manhã especialmente quente, o homem foi acordado com um farto café da manhã, com pães, biscoitos, queijos e geleias; o gentil enfermeiro ainda lhe deu um cigarro para a digestão, tragado com avidez. Então o médico finalmente apareceu, sempre efusivo em seus abraços, conduzindo-o para fora do leito. Acompanhados pela equipe do médico, foram caminhando pelos corredores vazios e escuros. O homem não se atrevia a perguntar a que se devia sua estadia no hospital. Falaram amenidades por uns minutos, quando estacionaram em frente a uma porta de ferro.
– Bom, inicia-se agora a sua missão, a razão de estarmos reunidos neste dia ensolarado – e se afastou, começando a fazer o caminho de volta. Um dos enfermeiros puxou a barra que trancava a porta e o homem foi empurrado para dentro do pátio.
Aquele era certamente o pavilhão mais cheio, ou o mais doente. Ante a visão aterradora, o homem tentou voltar, mas os enfermeiros já empunhavam os pedaços de pau e ordenavam que se misturasse aos outros internos. Estes o olhavam com curiosidade, em silêncio, inquirindo-se talvez sobre a natureza de sua túnica branca. O homem espalmava a mim e a mão esquerda, olhava para os lados e se virava constantemente sobre seu eixo. Mas aquele espetáculo lento cansava os enfermeiros, que erguiam os olhos para o terraço, de onde o médico talvez vigiasse, de onde talvez ordenasse o que faziam agora, forçando as costas dos doentes com os pedaços de pau para que se amontoassem ao redor do homem, cada vez mais perto, de modo a deixá-lo sem saída a não ser aderir àquela ciranda da morte.
***
Depois do evento no pátio, o homem foi jogado de volta no leito, desta vez sem cerimônias. Por vários meses – o tempo de incubação da doença –, ficou trancado no quarto, quase sem sair da maca exceto para buscar as refeições na porta e fazer suas necessidades num balde. À noite, ouvia os lamentos guturais dos internos ecoando pelos corredores, seguidos dos passos dos enfermeiros que adentravam os leitos para contê-los. O homem nos erguia, eu e a mão esquerda, e chegava a adormecer tapando os ouvidos. Mas depois acordava, sempre assustado.
As primeiras feridas apareceram nas canelas e logo subiram para as coxas. Pouco depois as notei nos nós dos meus dedos, a princípio como bolhas e depois abertas como cavidades longitudinais, lembrando pequenas bocas brancas. O homem gritava e chorava, cochilando entre as duas atividades.
Mas é claro que aquilo seria apenas o início do terror. Para o homem, digo, porque para mim, honestamente, não saberia avaliar. Talvez o terror, o verdadeiro terror, esteja acontecendo agora, em seu cume, enquanto escrevo isto. São as palavras que criam a realidade, e não o contrário. Uma realidade que se acentua e se sublima a cada linha que escrevo. Porque a partir do episódio que pretendo descrever obtive o que se chama entre vocês de consciência.
De madrugada, o homem acordou e seu corpo já estava preso na maca com duas faixas grossas no tórax e na cintura, os braços e as pernas seguras por dois enfermeiros com macacões brancos, como astronautas. O médico também entrou no quarto e pareceu ler os pensamentos do homem.
– Você é nossa esperança, a esperança de uma nação. Você é nosso homem na Lua.
E aplicou uma injeção no braço do homem, logo acima de mim. Depois deixou o leito, acompanhado de seus capangas espaciais.
Foi aí que a coisa se deu, sem anúncio, como se o cérebro do homem tivesse um cano ou um ralo para escoar as imagens diretamente para mim durante o sono. Também seu passado recente e seus sentidos se apresentaram a mim, e eu os reconheci como parte de minha história, familiares, mais antigos que minha consciência.
Pude sentir que o homem suava frio, estremecia, umedecendo a minha palma. Algo acontecia dentro de seu coma, algo que aos poucos se desenhou para mim como uma projeção na parede do quarto. Uma cena noturna, o homem sentado à mesa de um bar, olhando o movimento da rodovia. Estremecia na cama talvez pela impossibilidade de retornar ao mundo de lá. Assistia aos caminhões e às carretas no asfalto e mexia no copo à sua frente, movendo de forma circular o indicador nas pedras de gelo do uísque. Tinha uma arma na cintura, ao alcance da mão esquerda, a quem delegava esses trabalhos. Mas o que devia sentir falta era mesmo sorver a dose contemplando o filme eterno da estrada, porque acordamos assim que a cena se apagou da parede, o homem ainda contido pelas faixas no corpo, meu dedo indicador repetindo o movimento do sonho com espirais no lençol branco.
Aos poucos foi permitido ao homem se libertar dos contensores e andar pelo quarto, plugado numa bolsa de soro. As feridas ainda se proliferavam e seu corpo enfraquecia na umidade. A equipe médica o visitava todos os dias, manipulando uma espécie de cadáver animado com pinças e lupas. Eu observava tudo imitando a languidez da mão esquerda. Às vezes o chefe da equipe vinha sozinho, se aproximava da maca e me segurava, olhando fixamente meu dorso e depois a minha palma. Depois me soltava do alto, impaciente, e ia embora praguejando.
Quando estávamos sozinhos, eu tentava negociar com o homem, ou com o que tinha sobrado dele. Ele, na verdade, não parecia compreender ou aceitar que eu tinha ganhado algo como uma “vida”. De todo modo, ainda fraco, ele controlava o resto do corpo, então mantinha sua supremacia sobre mim.
Trocamos, sim, alguns gestos intempestivos, tive que lutar pateticamente com a outra um par de vezes; cheguei a ser amarrada nas bordas da maca durante a noite porque o homem temia um assassinato às escuras, ou que eu conspirasse com seus outros membros (sobretudo o braço, de quem dependo para quase tudo) num motim. O homem delirava. Foram noites agitadas.
No fim, porém, eu me compadecia. Arrastando-se pelos cantos do quarto, ele me apoiava na parede fria, acendendo a memória de tempos remotos, quando mergulhava o corpo na água da praia, alçando os braços fortes até os recifes próximos à orla, pousando as mãos na superfície lodosa e gelada. E então se sentava para descansar, contemplando a extensão brilhosa da areia povoada de banhistas.
Mas de maneira quase imperceptível, o corpo do homem parecia reaver as forças. O sucesso do experimento se provou quando retiraram sua túnica branca e desenfaixaram as feridas, que começavam a recuar. Quando soube da melhora, o chefe da equipe, antes desiludido com o tratamento, rumou nas primeiras horas da manhã até o Leito 22, adentrando a sala já com as mãos erguidas em direção a mim, como se enxergasse um objeto divino ou mesmo uma aparição. Passava os dedos sobre minha pele e notava a recessão das chagas.
– Apollo 11. Vou te chamar de Apollo 11.
À melhora repentina do corpo homem seguiu-se, também, uma mudança no quarto e em sua rotina. Sem justificativas, dois enfermeiros entraram no quarto carregando uma escrivaninha e uma cadeira; atrás deles, outro empurrava um carrinho de supermercado cheio de jornais, revistas e coleções de livros de biologia e medicina. Pareciam querer que o homem se educasse a respeito de sua doença, da doença que agora estava curado.
Nunca gozamos de tanta harmonia enquanto estudávamos, completando as palavras um do outro. Embora sua mão esquerda fosse muito menos hábil com a escrita, prestava para ações mais simples, como alimentar e hidratar o corpo do homem, além de aplacar sua solidão em momentos íntimos, enquanto eu me ocupava com questões mais elevadas.
À medida que os dias passavam, as visitas da equipe médica minguavam. Em vez dos homens de jaleco branco, quem começou a frequentar o leito, sempre no início da tarde, foi um homem jovem, asséptico e engravatado, de grandes dentes brancos e rosto liso, talvez o mesmo que tinha buscado o homem na prisão para ser depositado neste hospital. O jovem interrogava a respeito do conteúdo dos livros, terminando suas perguntas com um sorriso larguíssimo; manipulando as palavras, utilizando-se de suas ambiguidades, delineava as respostas que o homem deveria decorar, recompensando-o com pequenos mimos, como um banho de sol mais demorado, uma cama com um bom colchão e até um refrigerante após o jantar.
O homem, feliz com a nova configuração de sua estadia, não notava nada estranho. Provava-se, afinal, apesar de tanto estudo recente, um homem de ação. Comecei a escrever mensagens apenas com letras maiúsculas – coisa que detesto –, alertando-o do perigo que sofria, dizendo que estava se comportando como um rato de laboratório e que logo não teria serventia. Mas ele me ignorava, entregue às mordomias e à amizade com o jovem diabólico. Chegou a me amarrar novamente na cama para dormir empanturrado com refrigerantes e chocolates.
O homem certamente seria apresentado ao mundo como propaganda do experimento, muito em breve, caso a doença não tivesse voltado com toda a força. Em questão de semanas seu corpo já estava tomado com mais feridas do que antes do experimento. Mas não o corpo inteiro. Não temo em dizer que, além da alegria de não ter as bocas brancas novamente em meu dorso e nos dedos, senti o sangue animado pela revanche esquentar minhas veias. Do outro lado, a outra mão se encurvava numa garra terrível, como uma gárgula. Era o início do fim para aquele pobre homem.
Mais uma vez, os enfermeiros entravam no quarto com suas roupas especiais, monitorando o avanço da doença. O homem já não se levantava. E eu me fingia de morta, embora fosse notável meu aspecto saudável. Nunca se sabe o que os homens podem fazer quando se deparam com o desconhecido. Certa noite, enquanto o homem delirava, ouvi pedaços de uma conversa entre dois enfermeiros. Algo sobre um golpe do Exército e a reconfiguração das instituições. Dizia-se que o hospital seria desativado para voltar a servir os militares, como no século passado, como depósito de armamento. Sim, talvez eu devesse ter feito um sinal naquele momento, escrever nos lençóis que me amputassem e me levassem com eles. Mas as melhores ideias só vêm à cabeça quando já não têm utilidade.
Naquele mesmo dia ou no seguinte, o homem soltou seu último suspiro gutural. Não demorou para que a porta do Leito 22 fosse arrancada e, no lugar, erguida uma parede de tijolos. À noite, ouvi muitos gritos, estouros que, suponho, fossem tiros e, gradativamente, apenas o barulho dos galhos açoitados pelo vento. E fomos cobertos pelo escuro, eu e o cadáver do homem, a não ser pelos fios de luz que entram pelas frestas dos tijolos e permitem que eu escreva nesta folha de relatório, apoiada numa prancheta, para uma plateia cega e surda.
