
Precisou de um zeitgeist feminista para, 60 anos depois de sua estreia, Silvina Ocampo ser finalmente publicada no Brasil. A mulher de Adolfo Bioy-Casares, melhor amiga de Jorge Luis Borges e irmã da também escritora Victoria Ocampo foi a escritora argentina mais destacada do século 20. Mas, fora o machismo estrutural, a imensa sombra de Borges e Bioy-Casares talvez tenha eclipsado uma escritora muito original. Talvez até mais original que eles.
Herdeiras de uma família riquíssima, as irmãs Ocampo agitaram os salões literários de Buenos Aires. Quem não fosse convidado para suas festas não fazia parte da parrilla argentina, o que atraía olhares raivosos para as irmãs. Também não devem ter ajudado sua militância antiperonista e seu comportamento libertário – o casamento de Silvina com Adolfo era pro forma, ela pegava os homens e mulheres que quisesse (o que incluía pegar a sogra e a sobrinha). Sylvia Colombo fez um ótimo perfil de Silvina aqui.
Mas não são essas fofocas que nos interessam (mentira), e sim a literatura de Silvina. Uma espécie de Lygia Fagundes Telles argentina, Silvina também era uma craque na ficção breve, uma especialista em literatura fantástica e em emoções ambivalentes. Muita crueldade, amores angustiados, terrores noturnos e crianças horríveis são padrões em suas histórias, sempre temperadas com muito humor negro.
Como nestes dois exemplares aqui. O primeiro é herdeiro direto de “O gato preto” de Poe – uma fábula deliciosa sobre a fidelidade canina. O segundo, o conto favorito de Cortázar (repare na semelhança com “A casa tomada”), é uma história de terror habilmente contada: quando percebemos o que está acontecendo, já é tarde.

PROPOSTA
E é isso o que você vai fazer: vai manter um morto por perto.
Importante: o morto não está morto metaforicamente, e sim de uma forma concreta. Portanto, sua manutenção próxima também deve ser concreta.
No entanto, essa proximidade do ente ou da coisa morta pode se dar através de uma representação.
Mas como?
- Empalhar aquele pet querido
- Transformar o maridinho em uma múmia
- Conviver com o retrato da amada na parede
- Esquartejar e congelar um corpo, para comer aos poucos
- Guardar e reler cartas escritas durante décadas
- Forrar uma casa com fotos do ente devotado
- Enterrar um parente debaixo de sua cama
- Procurar a imagem do morto nos próximos amantes
- Cantar as canções que o morto fez para você
- Usar a pele da morta para tecer um vestido
- Transformar-se no próprio ser adorado
Quem conta?
Você vai escrever na primeira pessoa.
Não precisa ser necessariamente você mesmo o personagem que está contando a história. Ou seja, pode ser uma ficção completa.
Mas, se você quiser, pode enveredar pela autoficção e retratar-se a si mesmo neste narrador.
Mas e aí?
Bem, digamos que você tem o tal morto. E aí escolhe uma das dez opções acima para viver com o morto. Como é viver com este morto? Tranquilo? Favorável? Aterrorizante? Perturbador? O que acontece quando as pessoas da sua família, os seus amigos, os seus vizinhos, a polícia. ficam sabendo que você vive com um morto? Ou eles não ficam sabendo nunca? Você e o morto viverão felizes para sempre?
Você é quem escolhe.
Afinal, o morto é seu.
Em 7 mil toques.

















