Por entre os meios

Eu sou o dedo indicador de uma jovem adulta que atende pelo nome Carolina D’Alembert. Tenho total consciência da minha importância e proeminência em seu corpo desde que nascemos. Ela, talvez me despreze no cotidiano – a não ser em situações muito particulares, íntimas, em meio a penumbras ou embaixo do edredom antes de dormir. Nem sempre estamos a sós nesses momentos.

Quando Carolina nasceu e o médico a colocou sobre o peito de sua mãe, ainda toda cheia de gosma amarela & outras cacas, a mãe a beijou na testa e, por instinto, roçou seu próprio dedo indicador na parte de baixo mãozinha da bebê que, como quase todos os recém nascidos do mundo, estava com os dedinhos contraídos. O primeiro toque que a mão de Carolina recebeu fez com que todos os músculos recém paridos perto de mim fossem acordados e, num trabalho conjunto, seguramos aquele dedo que, para nós, parecia um rolo de papel Kraft da Kalunga. Foi aí que percebi minha potência, pois era o meu interior que pulsava e se dobrava com mais força sobre o outro corpo.

Logo a pequena Carolina descobriu uma função para mim, que foi a que mais gostei de exercer em toda a nossa vida até aqui. Ok, pode parecer um tanto imaturo da minha parte, mas é que Carolina começou a chupar os dedos. Colocava o dedo do meio e o anelar da mão esquerda dentro da boca e com o mindinho acariciava o lado direito de suas bochechinhas rosadas, enquanto eu segurava a naninha ou a fronha, que ela raspava com igual delicadeza sobre o rosto, fazendo um círculo em torno de sua covinha esquerda. Era como andar de skate num bowl usando um macacão de algodão cheirando a amaciante Super Fofo. E sem o risco de cair. Foram mais ou menos sete anos assim, escutando a voz rouca do Pato Donald ou a risada do Pica-Pau ao fundo.

Depois veio a fase de me colocar dentro do nariz o tempo todo, tirando melecas mais ou menos moles e me raspando em qualquer superfície próxima. Até que a mãe passou a reprimi-la quando me via enfiado na narina. Até certo ponto foi um alívio, mas também ganhei uns belos tapas nessa fase. Não é que chegava a doer, mas quem é que curte levar um “fica esperto”? Óbvio que ainda vou parar lá dentro da cavidade nasal, mas, por causa da sinusite, Carolina aprendeu a lavar o nariz diariamente com soro e essa minha função acabou ficando bem escassa.

Para parar de chupar dedo e porque havia uma pressão das tias para que Carolina se tornasse logo uma “mocinha”, princesa da Disney, Cinderela que não viveu a parte triste, ela passou a ganhar muitos anéis. De plástico, de latão, com diamantes de vidros coloridos, usados quase sempre no anelar ou no médio, o que me causava um tremendo ciúme. Por que não eu, seu segundo maior dedo?

Quando recebi meu primeiro anel aos 16 anos, quase desmaiei. O bicho apertava e pinicava, parecia que minha ponta ia ficar sem sangue e que eu iria morrer bem lentamente, falange por falange. Mas depois Carolina foi acertando melhor as escolhas. E, na medida em que deixava de me colocar um anel que fosse pura expressão de uma leve rebeldia, eu passei a ganhar adornos mais bonitos. Ora grandes e pesados, ora finos e delicados. Em ambos os casos, eram fundamentais para que eu fosse protagonista na expressão dela, que gesticulava mais as mãos, comigo à frente, ou teso sobre o lábio, ou envolvendo seu queixo.

A cavidade nasal não é a única parte desagradável da minha existência – e talvez nem seja a pior delas. Você por acaso já reparou qual é o dedo que você mais pressiona quando faz um dobradinho de papel higiênico e o utiliza todos os dias para se limpar? Quando ela calcula mal a quantidade ou está sofrendo um desarranjo e deixa o papel furar bem no meio da passada, quem é que vai para o outro lado? Eu, eu e eu. 

Eu e meus colegas massageamos sua cabeça enquanto Carolina passa o shampoo. Eu ou o mindinho arrancamos a cera de seu ouvido quando acaba o cotonete. E também sou eu que sou mergulhado no brigadeiro e lambido com gemidos de “hummm”.

Sei, também, que fui e tenho sido fundamental para Carolina se tornar uma mulher que sabe como funciona seus órgãos genitais, para além das funções excretora ou reprodutiva. As meninas, em geral, sentem um formigamento gostoso em suas partes íntimas desde cedo. Um formigamento que pede mais formigamento, porque o cérebro sabe que, se ele for intensificado, algo bom vai acontecer. E elas, meio intuitivamente, mas também com algum grau de vergonha, estimulam isso, se esfregando na almofada, rebolando sobre a cama deitadas de bruços, colocando o travesseiro no meio das pernas e até mesmo se reunindo escondidas com os primos ou coleguinhas de escola para “ver como é”.

Carolina perdeu a virgindade tarde, depois dos 18. Tinha pavor em sentir dor e imaginava que tal coisa doeria bastante. Fora o medo de engravidar. Chegou a fazer um teste de sangue mesmo antes de romper o hímen, só porque o garoto ficou raspando aquela babinha transparente pré-coito nela, daí dá pra sentir o nível de paranoia que a falta da educação sexual pode fazer na cabeça de uma mulher criada desde cedo sob a ameaça do pecado e com a cobrança da vida material bem sucedida. Eu queria muito que aquela adolescente tímida e rebelde me aquecesse entre suas pernas e permitisse que eu entrasse em mais uma de suas cavidades. Mas sentia seu corpo se encolher só dela pensar na possibilidade de fazer isso.

Um dia Carolina acabou perdendo a virgindade, como todo quase todo mundo. Os primeiros caras com quem transou não foram lá muito generosos. Às vezes, da minha visão periférica, imaginava que ela transava como Amélie Poulain antes de ficar com Nino. Quando passei a ter visão lateral ou superior de suas trepadas, passei a reparar que as coisas haviam melhorado, porque ela parecia feliz em se ver nua em espelhos laterais ou de teto, rebolando em cima de um idiota qualquer que mordia o lábio a cada vai e vem. Ela se divertia de estar aprendendo.

Tales foi o marco de passagem, porque ele não poupava esforços – língua, dedos e saliva – para ver Carolina gozar. E ela nem sabia que isso era possível, achava que a transa devia dar um prazer e aquilo é que era. Com o Tales, deixava ele ficar lá com a cara entre seus quadris o quanto quisesse. Para ela era gostoso e para ele parecia ser um fetiche, ela achava assim. Até que um dia o formigamento se transformou em uma descarga de energia que irradiou de seu centro em milésimos de segundos e em igual sintonia para a cabeça e para os pés, tomando cada centímetro de seu corpo, fazendo com que ela tivesse um espasmo e soltasse um grito de sopro.  A cada vez que ela sentia isso, eu e os demais dedos éramos levados a agarrar o lençol e o colchão da cama onde estivesse.

Carolina e Tales namoraram por uns dois ou três anos. O término deles e a falta de um substituto para o coração e para a cama, deixava Carolina com angústias profundas, porque queria, precisava gozar. E aí ela descobriu uma nova função para mim. Desde então, não passa uma semana em que ela não me bota para percorrer seu clitóris. Sabe o ponto central, o topo, a parte mais saliente do nervinho? Não é por lá que ela começa, mas pelas suas laterais. Faço movimentos circulares para um lado, depois para o outro, os demais dedos abrem os lábios e massageamos juntos a maior extensão da vulva. Se ela se sente molhada, eu vou primeiro para dentro do canal, mas nunca sou suficiente – não estou reclamando!

Se Carolina está com pressa, passa logo o médio e eu na língua e manda ver só na parte de cima. Porém, nas tardes de sábado em que não vai fazer nada, costumamos trabalhar bastante. E nesses momentos a cavidade anal até adquire um sentido diferente e eu paro de ter o nojinho que demorei para superar. O que eu gosto da Carolina é que ela pode até ser atrapalhada, atrasada, uma adolescente que se transformou numa adulta talvez confusa, mas ela tem uma espécie de toc. Ela nunca, jamais, confunde a função que vai atribuir a casa um dos dedos na hora de se masturbar. Nunca visito duas cavidades num mesmo dia – não sem ser lavado antes.

Quando o dólar abaixou o preço e Carolina foi morar sozinha, logo depois da faculdade, ela comprou seu primeiro vibrador – um dildo simples que vibrava. Ela já pesquisava sobre isso desde quando queria perder a virgindade sem precisar de ninguém. Os vibradores supriam sua carência de ser penetrada. Às vezes o ligava e deixava no clitóris enquanto via filme, mas sem chegar a gozar.  Às vezes eu podia ir em cima e ele embaixo; ou vice e versa, meu jeito preferido. Sim, era gostoso sentir a viscosidade macia do colo do útero. Mas a sensação mais única que já tive e espero continuar a ter é quando Carolina dá seu espasmo final comigo lá dentro, porque as paredes que imagino tridimensionais se fecham e me cercam, me abraçam, para em seguida começar a pulsar e pulsar.

Só posso ser grato por essa vida. Apesar dos vibradores terem evoluído e Carolina ter uma coleção deles, suas tensões mais fortes são resolvidas junto comigo e com os outros dedos. E são esses momentos em que me sinto realmente vivo, e não quando tenho minha sensibilidade testada na chaleira quente ou no gume da faca.

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