Respire fundo que passa mais rápido

por Américo Paim

Sou bem resolvido hoje. Nem sempre foi assim. Bem, a culpa não é do Genésio Tavares, claro, é da genética. Seus pais se uniram e a sorte foi lançada. Eu bem que poderia ter puxado à Dona Teresa, mas Seu Egberto venceu a disputa. Outras partes do corpo do rapaz herdaram a beleza e a elegância geométrica da mãe. Eu não. Sou parte proeminente do menos bonito entre quatro irmãos e considerado o vilão. Sou o nariz tipo coxinha de Genésio. Não é opção política. Também sou conhecido como nariz de batata. Não gosto de reclamar, afinal sou vizinho dos olhos, o que me deixa em posição privilegiada, admito, mais bem localizado que, por exemplo, a bunda.

Passamos a infância quase toda em Salvador mesmo, onde ele nasceu. A gente morava na Boca do Rio nos anos 1970. Período terrível. Primeiro, as secreções intermináveis. É uma coisa de projeto mesmo. Existo para permitir a saída de tais fluidos, mas com Genésio foi bem exagerado. Todos os tipos de gripes e resfriados. Nessa época seus dedos descobriram que poderiam fazer bolinhas de meleca, um show de horrores. Disputava torneios de formatos e tamanhos com os amigos e pirraçava sua irmã Cláudia, colocando algumas no travesseiro dela à noite. Não tenho saudade e ainda ficou meio que um vício para ele, acreditem. Não é nível de técnico da Alemanha, mas já lhe trouxe alguns problemas.

Na pré-adolescência já havíamos nos mudado para o Rio Vermelho, casa maior, em uma rua arborizada e cheia de crianças. O bullying me fez notado. Os amigos não perdoavam. Fui salvo pelas orelhas de abano do Mané, preferência da garotada. Foi também a fase dos gases por esporte. A partir dali ele notou que eu era especial, funcionava muito bem. Percebia os cheiros, se podemos chamar assim, de imediato e na mínima manifestação. Era útil para sair logo do local infestado, mas horrível quando não havia rota de fuga. Nem gripe atrapalhava minha performance. Só não gostava se me apertava com força por causa do mau cheiro e algum criminoso flatulento dizia: “respire fundo que passa mais rápido”.

 

Desse tempo, outra coisa relevante: meninos nunca se preocupam com machucados pelo corpo. Sobrevivi a inúmeras atividades perigosas. Entendi cedo por que homens vivem menos que mulheres. Pense em bicicletas, fuga de cachorros, baba porrada, garrafão, guerra de mamonas. Não morremos por pura sorte. Pancadas, boladas, fora as brigas de rua. Os ossos sofreram. Achei que aquele cheiro de hospital nunca me deixaria. Inesquecível porque ele começou a pegar onda e os caldos me deixavam ardido de água do mar, com espirros intermináveis. Ele demorou a compreender que aquilo não era, se me permitem o trocadilho, a praia dele. Sairíamos ilesos se não fosse aquele jogo de vôlei no interior, quando eu quebrei em um choque de disputa de bola na rede. Foi tão discreto que na época ninguém fez nada. E eu passei a viver meio torto, algo que ficaria mais aparente anos depois.

Perto de ele completar dezoito anos, um momento definitivo: precisaria usar óculos! Era miopia. Ficou bem decepcionado. Não tinha nada a ver com aquilo, mas sobrou para mim e para as orelhas, destinados a carregar peso pelo resto da vida. A mudança mexeu com a vaidade. Ele se achava meia boca, não posso dizer que estivesse errado, e tinha esperança de ia melhorar. Sem dinheiro para comprar os óculos que queria, vivia com o modelo “quimidão”. Demorou a aceitar que armação metálica não combinava com seu suor corrosivo. Teve que se adaptar às plásticas. As marcas em nós nunca sairiam. E as coisas complicaram porque vieram as mulheres.

Claro que já tinham aparecido antes. As paquerinhas, como dizia sua mãe. O show era de mãos, boca, língua e afins. Eu aparecia mais nas compras de perfumes ou em carinhos estranhos nos rostos das incautas – odiava se era na praia com a mistura de suor e bronzeador escorrendo. Houve pelo menos um dia em que agradeceu o que sua avó, saudosa Dona Iaiá, sempre lhe disse: “seu nariz é bom, não é só para segurar os óculos”. Foi em um encontro com uma menina doida por ele. Ele estava chegando perto dela e o vento trouxe a fragrância enjoativa que a moça usava. Ele foi rápido em inventar uma desculpa para ir embora e não mais voltar. Sabia que não aguentaríamos aquilo por muito tempo. Achei gentil.

Na fase de sexo insaciável, eu me dei bem. Houve criaturas bem cheirosas e incursões em que travei conhecimento com toda a geografia feminina. Às vezes saía molhado ou com arranhões, mas não reclamo. Os colegas de corpo trabalhavam mais que eu para realizar os desejos de Genésio. Muito prazer no geral, porém, vou declinar dois constrangimentos aqui. Um era quando a moça falava que eu era grande e ele associava ao tamanho do pau. Ridículo e sem noção, primeiro porque a brincadeira sempre foi com os pés e depois, tínhamos espelhos em casa. O outro foi a famosa piada sexual infame que um tio dele contou, no dia do seu aniversário de vinte e um anos: “sabe qual a semelhança de fazer um 69 e o Alto do Calabetão? A vista é um cu!”. Estive nessa perspectiva várias vezes e uma delas não foi uma experiência aromática das mais agradáveis. Pela qualidade do meu trabalho, ele brochou. Não comentem por aí, ele não gosta. Sinto-me culpado, mas no fundo (oops), sei que ele me agradece.

Logo depois que se casou, no início dos anos 1990, passou a usar bigode e barba. Foi tenso. Não limpava o troço direito e foi uma tortura aquela convivência com aqueles odores de restos de comida e outras coisas. Enfim, desistiu e raspou tudo. Um alívio. Nessa mesma época ele experimentou uns cigarrinhos aqui e ali. Não durou muito. Só fiquei preocupado uma vez que um amigo lhe ofereceu o pó branco. Ainda bem que ele não topou. Aquilo ia acabar comigo, com certeza.

Uma das minhas glórias máximas foi em um jantar de família, no Dia das Mães. Ele agora morava na Graça, nos anos 2000, já com os filhos. Após a macarronada de Isabel, que só o cheiro já pagava, veio a musse de baunilha, em tigela chique, daquelas de uso anual. Genésio resolveu servir a todos. Na primeira colherada, ainda no ar, a caminho da cumbuca chique de porcelana de Dona Teresa, ele parou e falou que não se tocasse na comida. Cheiro de barata! Sem falsa modéstia, sou bom em hidrocarbonetos cuticulares, ácido oleico e ácido fórmico (aquele das formigas). Foi um mal-estar. Os irmãos zoando: “nariz de barata”. Ele foi à cozinha e achou no lixo a caixa que estava com restos do ingrediente da sobremesa. O cheiro era pura barata. Ele a exibiu com orgulho – nem precisava tanto, mas fiquei vermelho, embevecido.

Bem, relatei tudo isso porque fiquei meio nostálgico. Amanhã vou passar por uma cirurgia para corrigir desvio de septo. Ideia da segunda mulher dele. Diz que ele precisa respirar melhor. Confesso até que tem roncado mais depois que engordou. Será que nossa relação vai mudar? Meus poderes serão reduzidos? E se acontecer um erro médico ou ele se animar e resolver fazer plástica? Sinto cheiro de problema.

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