Circular sindical n.48

(Susy Freitas)

Meus dias correm entre a total escuridão e uma penumbra multicolorida. Ora bege, ora preta, ora vermelha, ou com bichinhos. Você sabe como é, Fernanda, porque é você que compra essas calcinhas de vovó na gôndola de promoção. Só em casa, em breves lampejos pós-banho, vejo o mundo como acredito que ele seja, antes que você me recubra por esses filtros e cores, ou pior, me esconda dentro da sua calça favorita do momento, de material sintético imitando couro. 75% de poliéster, 20% de poliuretano, 5% de elastano e 100% candidíase. Mas aí é outro departamento, pois sou apenas uma bunda e, como tal, as bactérias que compõem minha flora são de natureza diversa, ou pelo menos deveriam ser, se você não tivesse o péssimo hábito de usar o mesmo papel higiênico do xixi para limpar o seu cocô do meu recanto mais precioso. Eu só queria que você me valorizasse como você valoriza as suas selfies de ladinho usando essa calça idiota, Fernanda.

Por um lado (o de trás), eu entendo você. Não tornei a sua vida fácil. Primeiro vieram os comentários inocentes como lá vai a patinha, patinha Fernanda, olha essa bundinha empinada, nenê do bundão. E à medida em que você ia crescendo, eu crescia com você e apesar de você, mudando a forma e conteúdo dos comentários, cada vez mais vulgares: rabuda da porra, senta esse cuzão da minha cara. Caramba, você era apenas uma menina com o que, uns treze anos? 

Desde então, você fez com que parte da sua personalidade fosse delineada pelos meus contornos. Dependendo de como você os cobre ou revela, diferentes dinâmicas são testadas, mas todas levam ao mesmo resultado: homens e mulheres buscam em mim, pela inveja ou pela cobiça, qualquer coisa transcendental que os revele a si mesmos, mistérios de prazer muito diversos do que posso oferecer, no fim das contas. Sou apenas um amontoado de carne que abre passagem para o fêmur e que não tem nada e muito relevante a dar, nada que qualquer outra bunda não o dê, provavelmente até com mais eloquência e gingado que eu mesma. Mas em algum momento da nossa história, você abraçou a narrativa imposta a nós e me colocou um enorme peso sobre os ombros que eu sequer tenho.

 Mesmo em ambientes supostamente mais civilizados como o seu trabalho hoje em dia, vejo que o silêncio dos seus colegas de firma tem o mesmo conteúdo dos comentários daqueles caras xexelentos em Gols cara chata, cobradores urrando das janelas dos coletivos e até mesmo o seu tio Ezequiel bebaço no sítio da família, pelo amor de deus! Às vezes, se por acaso uma calcinha de renda sob um vestidinho mais leve permitem, encaro-os em meu contínuo zoom out enquanto você se afasta, e se eu as tivesse, mataria-os com as próprias mãos. Mas isso não é possível, e eles apenas encaram o que o tecido sugere enquanto seus lábios moldam uma interjeição muda, a mais temida, a mais irritante, a mais desnecessária: uuuh, papito! 

Será por isso que você não tem pena de me sufocar, Fernanda? Ultimamente, quando não é essa maldita calça de couro fake, são as sainhas de veludo. Elas exibem todas as minhas dobras e fazem minhas bochechas suarem. Algumas horas na sua cadeira de escritório e o suor já marcou todas as minhas expressões, o que atrai ainda mais olhares. Isso é uma merda, sabe, e olha que de merda eu entendo, mas você parece não perceber, ou então se faz de desentendida. Qual é a sua, afinal? Por que você não toma os seus remédios e me deixa em paz?

Ao invés disso, entrega-se a cada vez mais porres homéricos e a esse flerte ridículo com o Jota Bê. Você pensa que eu não percebo, mas esquece que eu tenho, literal e metaforicamente, um terceiro olho para certos assuntos. Não que eu tenha escolha, pois você sabe que eu sou contra, até por motivos de impossibilidade física, de me meter nas coisas alheias, mas não tenho como ignorar meus chamados “músculos rabiais”, como aquele bêbado do Caldeira intitulou uma vez, se contraindo. Pois é, eu sei e tudo, porque meu fluxo sanguíneo vai na sua onda e começo a sentir uma série de espasminhos anunciando o “deus me livre, mas quem me dera”. 

Até eu sei que esse cara não é pra você, Fernanda. Pelas suas costas, ou seja, na minha cara, ele flerta com todas e você finge não se importar, para depois passar horas se analisando no espelho a procura de defeitos que justifiquem o cafajestismo alheio, como se o problema estivesse em mim em qualquer outro colega de ofício na empresa Seu Corpo. Mesmo depois do Pedro, do Eric, da Janaína e do Jones, pra só contar os desastres desse ano, é a mesma história, e ela não termina com um final feliz. Ainda que possa parecer fácil para mim, já que minhas bandas têm sua respectiva cara metade lado a lado desde que nascemos, atente ao ditado: antes só do que mal acompanhada. Nós já sabemos bem que o que o Jota Bê e os demais procuram se desgasta assim que conseguem chegar ao que os interessa: eu. 

O resultado dessa graça, todos nós conhecemos: você para de se hidratar, de se alimentar, começa seus rituais com as lâminas e depois manda foto pros seus chegados no WhatsApp em busca de atenção, posta nudes obsessivamente com quilos e quilos de filtros que descaracterizam cada centímetro do seu corpo e se mete com esses tipinhos, destruindo lentamente a todos nós: seus braços, suas pernas, sua cabeça, e eu também, que estou a cada dia mais carente de colágeno, já que você parece achar que ainda temos vinte anos. Por tudo isso, em nome do Sindicato dos Membros Inferiores do Corpo Humano dos Últimos Dias, eu apelo mais uma vez: tome os seus remédios, Maria Fernanda. Tome os seus remédios!

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