O Príncipe Negro

(Leandro Reis)

Eu cuido da Igreja de Santa Clara há uns dois anos, desde que o prédio da capela foi condenado e a paróquia mudou de lugar. Entram carros ou caminhonetes pelos fundos, deixam as encomendas na sacristia e eu as repasso para quem vem buscá-las. Essa é a descrição do meu trabalho. Quando me perguntam mais do que isso, eu desconfio e aviso o Albino.

O Albino não gosta de vir aqui. Mas sempre vai embora feliz.

Primeiro há uma espécie de música que o anuncia, descrevendo o caminho que ele faz até apontar no pátio. É sempre um objeto diferente que pende de sua mão e de início delineia a calçada de pedras portuguesas, depois um pedaço do asfalto ao atravessar a rua.

Meu ouvido treinado adivinha cada vez mais rápido o procedimento. Na última vez, o Albino passava ainda na esquina quando desenhei perfeitamente na cabeça a picareta de ponta vermelha que ele usava em seu emprego formal, no canteiro de obras no fim da rua.

Como de hábito, eu estava sentado na minha mesa, no pátio, em frente à sacristia. O homem diante de mim tentava descrever o pacote destinado a ele.

– Não tenho o que fazer sem um número de chamada – eu argumentava.

– É uma caixa pequena, parece uma caixa de sapato.

– Não posso fazer nada pelo senhor.

Notei que ele não tinha gostado de ouvir aquilo. E estava gostando cada vez menos de não ter seu pedido atendido.

– Bom, se é ali atrás que vocês deixam essas merdas – e apontou pra porta da sacristia –, eu posso entrar e achar eu mesmo.

– Somente pessoal autorizado. Estamos no pátio, mas ainda é a casa do Senhor.

Essa última eu falei pra irritar mesmo. Já tinha mandado mensagem pro Albino enquanto o idiota bufava e falava no celular. Agora vinha andando na minha direção como se não houvesse mesa nem uma pessoa na frente dele.

– Vai me dar a chave ou vou ter que pegar eu mesmo?

Eles olham meu aspecto franzino, minha circunstância precária e se animam, criam mais duas ou três bolas debaixo do pau.

– Está destrancada – falei e ele foi abrindo a porta. – A fúria de Deus cairá sobre os ímpios.

Citei de cabeça, mas devo ter acertado no mérito. Nisso a picareta do Albino já emitia seu idioma da calçada. Quando ele viu o cara lá dentro, não precisei explicar nada e ele não precisou me devolver como resposta sua implacável inexpressão. Liguei o rádio na estação de música sacra e aumentei o volume até o máximo. O som do órgão preenchia o pátio.

No fim, o cara deve ter achado a entrega, porque o Albino saiu fumando um charuto e carregando uma sacola de pano bem cheia de alguma coisa. Não tinha apreço pelas palavras e esse era seu diferencial.

E assim a rotina seguia, as pessoas buscavam suas mercadorias e diziam adeus, ou o Albino dava as caras e elas diziam a mesma coisa, só que pra ele.

Mas insondáveis são os caminhos do Senhor. E Ele escolheu uma noite de sexta-feira para testar nossa pequena operação.

Eu já tinha escutado um carro rodando o quarteirão com um som alto. Parecia procurar vaga pra estacionar. Só notei que na verdade procurava a entrada quando o mesmo som e o mesmo carro pararam no pátio. Tinha estacionado mas continuava lá dentro, escondido no insulfilm. Os faróis acesos na minha cara e o carro desligado.

Desceu fumando um cigarro. Era o que fazia enquanto me cegava, acendia um cigarro.

– Na paz do Senhor. Aqui é a Santa Clara?

– Aqui é a Santa Clara. Na paz do Senhor.

O rapaz tinha uma cara conhecida, apesar do capuz tampando uma parte do rosto. Eu só assistia televisão à noite, depois do expediente. Às quartas e aos domingos era tudo o que aparecia na tela, a cara do sujeito comemorando ou perdendo um gol. Os jornalistas e a torcida o chamavam de Príncipe Negro.

– Se veio fazer promessa pra domingo, nem padre a gente tem mais, quanto mais Jesus ou Deus – brinquei.

Ele tirou o capuz e suspirou – como quase todos o fazem, pois ninguém gosta de esperar, muito menos alguém como ele. Subiu a manga do casaco e olhou o relógio dourado. No pé da orelha, balançava um enorme pingente de Santa Bárbara, como um vitral.

– Eu vim pegar uma coisa, mano, não posso demorar, tem gente me esperando. Você tem caneta aí? Foto agora você me complica.

Achava que eu queria um autógrafo. Na minha época eu corria atrás de jogador, agarrava no alambrado esperando o treino acabar, chorava quando não me atendiam ou sequer acenavam. Hoje, não.

– Sabe que santa é essa no seu brinco? Santa Bárbara. Ela controla as tempestades. O próprio pai a matou porque ela era muito devota e teimosa.

Ele não respondeu, ensaiando um bico. Depois olhou o relógio de novo e retirou o brinco da orelha.

– Mano, me falaram pra te dar um número que você adianta o meu lado – pôs o cigarro na boca e puxou as extremidades do pingente, revelando um pedaço de papel dobrado no interior. Sofisticado. O Príncipe Negro sabia o que queria.

Olhei o número de chamada e caminhei até a sacristia. As mercadorias entregues na segunda já tinham sido quase todas retiradas. A encomenda do rapaz estava perto do guarda-roupa que era do padre. Quando vi não entendi nada: aquilo era um latão? Um barril? Não me lembrava de ter visto os carregadores colocarem isso ali.

Suspendi o barril e notei o líquido se chocando contra as paredes internas. Devia estar cheio. Não deviam estar pagando em dia se o cara precisava contrabandear bebida. Ou gasolina. Ou algum produto químico controlado.

Quando saí da sacristia o príncipe já tinha aberto o porta-malas. Não fez menção de me ajudar. Larguei aquilo lá dentro, virei as costas e fui voltando pra mesa. E então ele assobiou.

– Mano, toma aí pelo serviço – e estendeu uma nota na minha direção. – Vou marcar um dez aqui dentro do carro e já tô saindo.

Me passou pela cabeça que o Albino quebrava pedras ali do lado, prolongando o expediente de acordo com a demanda da nossa igreja.

Deixei o príncipe com a gorjeta na mão e fui sentar de novo na cadeira. Ele soltou uma outra espécie de suspiro, entre uma tosse e um espirro, que julguei desdenhoso. Entrou no carro, manobrou de modo a ficar de costas pra mim e parou de novo, bem perto do portão.

Teclei pro Albino.

Enquanto esperava, resolvi ouvir um pouco de música. Mas as rádios católicas já tinham encerrado os trabalhos do dia. Fiquei uns minutos mudando as estações só por teimosia. Depois lembrei que o padre guardava umas fitas lá dentro e fui buscá-las.

Voltei com as fitas e o boçal ainda estava ali, engolido pelo insulfilm. E nada do Albino chegar. Desisti da música. Andei devagar, fazendo-me notar, até a janela do sujeito e dei dois toques no vidro, como um policial de trânsito. Não escutava nenhum ruído lá de dentro. O príncipe estaria dormindo? Mas não estava com tanta pressa?

– Vamos fechar as portas aqui, é melhor você ir embora.

Nada. Esperei mais uns segundos e puxei a maçaneta com muito cuidado. Não estava travada.

– Puta que me pariu, Satanás do caralho.

Blasfemei com razão. Abri a porta e o Príncipe Negro jazia na cadeira com um torniquete no antebraço. O desgraçado tinha injetado alguma merda, mas não devia ter dado certo, porque o sangue pingava do braço no câmbio automático. E jogava bola, o drogado!

Fechei a porta do motorista e me dirigi ao lado do carona. Mandei outra mensagem pro Albino. Mais por raiva e gosto do que por qualquer outra coisa, dei dois tapas na cara do príncipe. Ele grunhiu. Depois tossiu e babou. O rosto de Santa Bárbara pendia da orelha.

– Filho da puta. Quer dizer que é zé droguinha também?

Abriu os olhos e aos poucos parecia se dar conta de onde estava.

– Mano… Não é droga, não.

Ele me olhava agora com um olhar inédito. Estava prestes a introduzir um assunto seríssimo.

– Domingo é a final do campeonato, mano. Tem esse cara no time, o mexicano, que deu a pala: pra ganhar dos filha da puta, só com ajuda do céu. Ou do inferno. Os cara ganha o triplo da gente e são até mais bonito.

Tentava me sacanear. O príncipe dizia que a família do mexicano era descendente direta de um rei maia. E a prima era a sucessora imediata do trono, caso o império tivesse resistido. Mas aquilo não era nada no México de hoje, financeiramente. E aí a lenda veio a calhar, porque, segundo ela, a família real maia doava o sangue para que os guerreiros bebessem antes da guerra. Acreditavam que a força divina passaria pra eles. Então, começaram a vender o sangue da menina, primeiro no bairro, na cidade, depois na internet, pro mundo todo. Mas como era uma criança, não estando totalmente formada, a coisa batia mesmo uns dois dias depois do pico.

– Não ia dar tempo de chegar em casa pra tomar. Ia bater só depois do jogo – ele justificava.

– Então isso aí… O que está no barril…

– É sangue, mano. Sangue dos maia.

Emergindo da noite, a cabeça pelada e albina entrava no pátio como um manequim animado. Dessa vez trazia uma chave de roda; por isso não tinha ouvido nada arrastando nas pedras portuguesas.

– Chegou o mecânico – brinquei.

O príncipe de súbito retomou as forças e se jogou da porta do carro. Foi tropeçando até a mesa, que derrubou, e em seguida entrou na sacristia. Veem uma porta e acham por bem entrar.

Ajeitei a mesa, liguei o rádio e coloquei uma fita do padre. Aumentei tudo pro Albino entrar na sacristia.

Depois que saiu, contei pra ele um resumo, tentando gargalhar. Albino limpava o macacão com um pano sujo e talvez me ouvisse. Tive certeza de que me ouvia quando parou de se limpar e me olhou fixamente. Eu tinha acabado de lembrar do milagre mais conhecido – da água pro vinho. Era impossível não pensar naquela passagem. O vinho foi servido assim naquele dia, num galão, pra mendigada toda. Albino parou de me olhar quando eu disse que o barril estava no porta-malas.

Tirou do carro sem dificuldade e pôs no chão, mas não abriu. Voltou a olhar pra mim e entendi que eu deveria fazê-lo. Pequenos choques elétricos percorreram meu corpo. Eu estava na presença de algo maior. Era uma história ridícula.

Destampei o barril e vi aquele mar vermelho e turvo, suas ondas reluzentes refletindo na cara vazia do Albino.

Mas eu não gostava da ideia da seringa. O Albino também não, ou teria sinalizado. Alguma deliberação precisava ser feita. O sangue maia talvez fosse o mais próximo da embriaguez divina daquela tarde de festa com os apóstolos. Pensei logo na caneca que o padre escondia dentro de um castiçal.

O Albino ouviu meus argumentos e tampou o barril de volta. Não estava disposto a ultrapassar certos protocolos. Antes de sair, botou a chave de roda no porta-malas do príncipe. Se soubesse dirigir, tinha levado o carro.

Mas não consegui me livrar daqueles pensamentos. Peguei a caneca na sacristia e abri o barril sem tirá-lo do porta-malas. O aroma ferruginoso preenchia meu corpo e me elevava. Eu tinha um espírito. Jesus não havia morrido em vão, nem o rei maia ou a prima do rapaz mexicano. Mergulhei a caneca no poço rubro e dei uma golada. Minha boca inteira, minha língua, as gengivas e os dentes, tudo ficou pastoso. As partes mais sólidas lembravam o bagaço do suco de laranja, caso se ignore a cor e o gosto. Bebi com fervor, como o batismo que não tive.

Depois enchi a caneca de novo e sentei à minha mesa, como um rei maia, sentindo uma grande paz. Agora era esperar os dois dias. A noite avançava, a música seguia e eu não sentia vontade de deixar meu trono. Me sentia protegido e soberano.

As fitas do padre terminaram e a bateria do rádio, também. Já tinha terminado minha segunda caneca e o tempo parecia elástico. Pensei que seria engraçado fumar um cigarro do príncipe, ouvindo suas músicas, como um tributo ao apóstolo mais importante que era, àquele que me trouxe a verdade.

Foi o que fiz, camuflado na escuridão do carro, praticando baforadas xamânicas. As músicas do príncipe faziam meu organismo inteiro vibrar. Senti que podia dançar, eternamente, reerguer a igreja com minhas próprias mãos e ministrar missas ecumênicas. E sinto realmente que o faria, não tivesse reparado no retrovisor a porta entreaberta da sacristia.

Desci do carro com a chave de roda e caminhei devagar até a mesa. Queria me conter, mas a música do príncipe me impulsionava a continuar, erguendo a chave de roda como um cetro. Escancarei a porta temendo o pior, mas nada estava fora do lugar. A não ser no lavabo, de onde vinha uma luz, que o Albino devia ter deixado acesa. No caminho pra lá não vi uma caixa no canto da parede e tropecei, caindo de joelhos diante da porta sanfonada. Quando a abri, vi o príncipe emitindo a luz branca e me livrei do cetro, juntando as mãos em louvor.

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