por Américo Paim
Vou contar o que de fato aconteceu e adianto que essa história só pode ser revelada quando eu for dessa para uma melhor. Sei que a maioria do povo de Pedra Velha é respeitadora, mas não foi assim na ocasião, teve muito burburinho. O nome de Eulália Conceição Tavares, ou Lalinha do doce, como sou mais conhecida, foi açúcar na boca de gente que não acaba mais. Fizeram piada, faltou respeito com a dor.
Em 1972, eu já tinha vinte anos de casada com o Epaminondas Tavares, o Nonô da loja de ferragens. Todos lembram dele: camisa de botão e camiseta por baixo, sempre por trás do balcão, em cima do degrau de madeira por causa da falta de altura, a mostrar os dentes. Homem bom e honesto. Vivia para a família e o trabalho. Almoçava em casa e à noite, após a janta, a gente conversava e via TV. A não ser pela missa no domingo, quase não saíamos. Eu cuidava da casa e do nosso filho Antônio Pedro, Toninho, então com dezoito anos. Eu gostava de cozinhar. Meus doces de compota, receita de voinha, eram sucesso. Vender foi ideia de Nonô. Deu tão certo que até ganhei aquele apelido. A nossa vida era um pelo outro. Até aquela quinta-feira, 11 de maio.
Ele vinha pela calçada a caminha de casa, pouco depois do meio-dia. Na frente do cemitério, parou, olhou para a porta de ferro e caiu, feito manga madura. Assim contaram uns dois ou três que passavam na hora. Socorreram, mas Nonô já tinha partido. Tinha 47 anos. Meu mundo desceu pelo ralo. Chorei a vida inteira durante muitos dias. Umas três semanas depois, quando achei que ia melhorar, as coisas ficaram estranhas. No começo não contei a ninguém que eu via Nonô em todo lugar. Na cadeira na hora do almoço, abrindo o armário e escolhendo a roupa, rindo das bestagens da televisão. Não falava comigo, nem me olhava, mas era ele, eu juro. Tive medo, voltei ao choro, só que depois de uns dias queria era falar com ele. Na época, Toninho dizia que eu não interagia, me isolei de tudo, parecia não estar ali. As pessoas se afastaram, minha solidão aumentou. Ninguém me entendia. Me achavam louca. Não tinha fome, sede, sono. Só ficava na espera por ele aparecer a qualquer momento. Eu não tinha vida e não conseguia ver que ele estava morto.
Quando eu passei a colocar a mesa para três, fazer as comidas que ele gostava e falar com a cadeira vazia na sala de televisão, Toninho se assustou de verdade e acionou Eugênia, minha irmã. Eu expliquei tudo a ela, mas ninguém sabia o que me dizer. Só tinham medo ou pena. Uma tarde, após o almoço, ela entrou no meu quarto. Me achou em cima da cama, quase nua, abraçada com a foto dele, me acabando.
– Lalinha, minha filha, que é isso? Tu tá de cueca!
– Ele trocava de roupa comigo.
– Oxe que ninguém nunca soube…
– Isso é pra contar? Ele tá aqui, de calcinha.
– Creiemdeuspai… Óia só, ele tá morto, fia, enterrado. Deus é mais…
– Ele tá é deitado aqui, quietinho.
Ela me convenceu, prometeu não contar a ninguém sobre a troca de roupas íntimas e fomos ao médico. Contei tudo, mas ele não me deu muita conversa. Só falou do trauma da perda, da dificuldade de me adaptar à nova vida. Com os remédios que passou, tudo ficaria bem. Voltamos para casa. Minha irmã com esperança e eu querendo outra aparição.
Todo mundo me olhava enviesado e fofocava tudo o que podia. Meu filho sofria com piadas dos amigos e Eugênia tentava manter o nosso círculo de afeto inteiro, pois tudo desmoronava. Comecei a usar os remédios, melhorei e como o doutor avisou, passei a ter muito sono, cochilava nos lugares mais imprevisíveis. Nonô aparecia cada vez menos, mas um dia ele falou: “venha me visitar”. Pensei que só podia ser no cemitério, claro. Passei a ir todo dia, na expectativa. Ficava na frente da sepultura, contando as novidades, com roupa que ele gostava, chorava, ria e ia rezar na capelinha.
A capela era de construção bem simples, com aqueles bancos de madeira solidários, de espaldar inteiriço, as paredes nuas e o altar. Nada além. Eu ia para lá por volta das quatro da tarde. Nas primeiras vezes, meu filho e Eugênia me acompanhavam, mas logo viram que não tinha motivo para preocupação. Eu sempre voltava para casa.
Não demorou muito e Nonô sumiu de vez. Eu continuei esperando. Bino, o coveiro, nunca me falava nada, só perguntava se eu precisava de alguma coisa. Até um dia.
– Dona Lalinha, que pano é esse aí?
– Cobertor, não tá vendo?
– Mas a senhora não pode colocar aí na sepultura, não.
– É que tá frio, coitado.
– Veja só, vai dar bicho, alguém pode levar. Deixe aqui comigo.
Depois dessa, Binho não aguentou e avisou a meu filho. Os resultados foram medicação ajustada e mais sono. No dia 16 de agosto de 1973, outra quinta-feira, não sei como ou quando, mas adormeci e desabei no banco da capela. Na hora de ir embora, Bino fechou a porta, o portão do cemitério e foi para casa. Anoiteceu e eu não chegava em casa. Toninho foi com Eugênia ao cemitério. Estava fechado, claro, e o portão de chapa metálica não deixava se ver nada lá dentro. Foram à casa de Bino, que disse não haver ninguém na capela quando ele olhou da porta. Buscaram lugares onde eu pudesse estar, hospital, acionaram Polícia, espalharam pela cidade. Ninguém sabia de mim.
Alheia a tudo isso, acordei já bem mais tarde. Pelas poucas velas ainda queimando, sabia estar na capela. Saí pela porta lateral e fui ao portão. Trancado. Gritei por ajuda, sem resposta. O povo evitava passar perto do cemitério à noite. Achei uma cadeira e uma caixa e subi com dificuldade. Não consegui alcançar o topo do muro, muito alto, mas minhas mãos eram vistas. Acenei e gritei.
– Socorro, alguém me ajude!
– Oxe, tão me chamando?
– Graças a Deus! Quem tá aí?
– É como? Aonde que eu vou dizer… Quero conversa com alma não.
– Preciso sair daqui!
– Mas, mas… Fica quieta, dona. Seu lugar é aí.
– Quem é o senhor?
– Eu sou o Zé Todinho, todo mundo sabe.
– Ai, meu Jesus, logo o bêbado. Ô, Seu Zé, me ajude! É Dona Lalinha do doce.
– Oxe, que nada… Essa tá vivinha da silva… Quem morreu foi Seu Nonô.
– Eu tava na capela e dormi. O portão tá trancado.
– Apois, é pro mode ninguém sair daí. Olhe, me deixe…
– O senhor me conhece…
– Deus é mais… Fica aí balançando a mão… A senhora vá descansar, seu tempo aqui acabou.
– Eu não morri! Só fiquei presa. Chama Bino que ele abre o portão.
– É o quê? Tá doida? Se abre esse portão, tu me leva pra dentro. Quero nada…
– Eu quero sair!
– E eu num quero entrar! A senhora não me leve a mal. Uma hora dessa eu vou, mas né hoje não.
Por sorte passou uma mulher. Vendo a cena curiosa de um bêbado a falar olhando para cima do muro onde se via duas mãos e sabedora do meu sumiço, ela salvou o dia. Foi um susto grande, mas serviu para ficar boa de vez. Resolvi cuidar da vida. Muitos debocharam e me chamaram de “Lalinha do muro”. Tudo gente ruim.
Ah, mais uma coisa. Quando cruzo com Zé Todinho, ele muda de calçada, diz que tem medo de alma. Nunca mais passou pela porta do cemitério. Eu ainda vou lá. A reza é rápida e saio junto com Bino. Ajudo a fechar a capela.
