(Angélica)
Desde que Carlos morreu, faz uns dois anos, coloquei um retrato nosso em branco e preto, de logo depois que nos casamos, ao lado da cama. Foi tirado numa festa de um casal de amigos. Ele está sentado no braço de uma poltrona, sorrindo e com um copo de uísque na mão. Camisa branca de mangas compridas, calça de listras pretas e o cabelo penteado pra trás. Estou virada pra ele e pelos meus olhos é possível ver o quanto me sinto feliz. Acho graça na tintura vermelha que eu usava na época, lógico, não dá pra ver no retrato, mas meu corte chanel quase pegava fogo. O macacão de losangos em tons de roxo era o meu favorito, além de delinear bem o corpo, parecia ser a roupa de um coringa.
De vez em quando, o sol entra no quarto e bate na moldura prateada do porta-retratos. Tenho a impressão que o brilho que vem de lá é do sorriso dele ou do copo, Carlos gostava de girar os cubos de gelo com o dedo. Por alguns segundos, penso que talvez ele esteja rindo de mim. Ontem à noite, coloquei a mesa pra nós dois, se eu tivesse posto só os pratos seria um mero descuido, mas, em seguida, fui buscar os talheres, os guardanapos e as taças. Só quando abri o vinho, percebi que ia beber sozinha, fiquei desconcertada e como já estava tudo arrumado, resolvi levar o equívoco adiante.
Tinha feito boeuf bourguignon, sua comida preferida, e numa quantidade maior do que costumo fazer. Servi o jantar e o vinho. E como se ele estivesse me escutando, comecei a falar. Por mim, por ele, eu ria, ficava séria, perguntava como tinha sido o seu dia, contava o meu, respondia algumas dúvidas que ficavam soltas no ar. No final, quando acabei de comer e vi do outro lado o prato cheio, sem ser mexido, me deu o mesmo vazio de quando uma apresentação de fantoches acaba. No cenário vazio e pouco iluminado, notei que na taça de Carlos restava apenas um pequeno gole de vinho. Isso me reconfortou.
Quando fui me deitar, vesti uma de suas camisas brancas, igual ao do retrato. Fazia isso, às vezes, quando me levantava sem roupa no meio da noite pra ir ao banheiro. Cheirava, lá no fundo, naftalina. Não sei se por estar inquieta ou se era um sonho, mas senti um movimento na cama. Um bafo quente aqueceu minha nuca e tanto as minhas costas como a parte de trás das minhas pernas se arrepiaram. Fiquei quieta, sem mexer um músculo sequer, queria que essa sensação não acabasse nunca. Devo ter voltado a dormir, porque mais tarde, ao abrir os olhos, o calor havia desaparecido. Não tive como não achar que Carlos veio se deitar comigo. Estiquei o braço pra acender a luz do abajur e ver se havia algum sinal dele, o quarto continuava do mesmo jeito, calado e em ordem. O cobertor e o travesseiro, onde ele dormia, continuavam intactos.
Ao me virar pra desligar o abajur, levei um susto quando meus olhos passaram pelo porta-retratos. No mesmo instante, levantei meu tronco e o peguei, apoiando em seguida nas minhas coxas. Eu estava mais apagada, alguns losangos da estampa do macacão, que antes eram de um cinza claro, tinham desbotado e agora se misturavam ao fundo branco e só os mais escuros, que já não eram mais tão escuros, podiam ser vistos. O meu braço praticamente havia sumido, assim como o contorno do rosto. Só dava pra ver os cílios, os meus olhos castanhos que viraram mel, os buraquinhos do nariz e um traço entre os lábios. Em compensação Carlos estava com muito mais contraste. Seus cabelos castanhos se tornaram negros, assim como as listras de sua calça e seus olhos. As expressões marcadas e o sorriso parecia o teclado de um piano, dava pra ver o risco que separava os dentes. Atordoada e sem entender o que estava acontecendo com o retrato, demorei um bom tempo pra pegar no sono.
Hoje de manhã, por causa do cheiro da camisa de Carlos, abri o seu guarda-roupa e tirei as peças que podiam ir pra máquina de lavar. Os casacos grossos e os paletós foram pro varal. Ao ver o sobretudo balançando no vento, que era o que ele costumava usar nos dias frios, pude ver sua mão procurando pelo maço de cigarros no bolso. Com o prendedor de roupa nos dedos, fiquei esperando que a fumaça da sua primeira tragada chegasse ao meu nariz. Mas só ao me sentar na mureta do quintal com uma xícara de café na mão, foi que senti a nicotina no ar.
Tem horas em que penso que a qualquer instante vou esbarrar meu braço no dele. No chão do banheiro apareceram outras poças depois que eu saí do chuveiro. Molho a ponta do meu pé na água e vou traçando um caminho até o espelho, onde, depois que eu acabava de me maquiar e estava pronta, ele me abraçava e nós dávamos uns passos pra um lado e pro outro, numa dança tímida. Seus braços me apertavam tanto que quase não conseguia respirar, naquele momento eu achava que não precisava respirar. Agora, depois de fazer o mesmo percurso com a água, sinto os meus pulmões pressionados. Pego o perfume de Carlos que está dentro do armário, coloco em mim e, por causa da falta de ar, sinto o seu cheiro na minha língua.
Assim que coloco o roupão, o telefone toca. É minha irmã, a ligação está ruim e mal escuto o que Rosa fala. Quer que eu vá almoçar em sua casa, que ando sumida e não tem notícias minhas. Digo que não estou passando muito bem, ando cansada e com dificuldade de respirar, o que não deixa de ser verdade, mas não falo nada a respeito do jogo de claro e escuro do retrato, ia achar que sou sozinha demais e por isso minha cabeça se enche de fantasias. Prometo que assim que melhorar, vou até lá. Ela fala pra que eu procure um médico, respondo que não deve ser nada e logo em seguida a ligação cai.
Quando entro no quarto pra me vestir, sento na cama e, com as mãos tremendo, pego o nosso retrato. Carlos está tão nítido que penso que, numa fração de segundos, pode pular a moldura prateada e me pedir que faça um talharim Alfredo. Dá até pra ver uma cicatriz muito fina que ele tinha no sobrecílio. Parece que seus lábios foram pintados com batom preto, isso faz com que seu sorriso fique mais vibrante e também com uma aparência ameaçadora. Talvez agora ele seja o coringa do baralho, já eu, sou a mancha branca ao seu lado. Do macacão resta pouco, apenas a sombra de alguns losangos. Meu cabelo já não existe e do meu rosto só sobraram as pupilas que olham pra esse retrato.
Fico tão nervosa que começo a tossir, o peso do porta-retratos faz meu punho ir pra frente da mesma forma que se abre um leque. Se Carlos pudesse me abanar agora, eu ia respirar melhor. Fico olhando pro papelão grosso, pro fecho miúdo da parte de trás e pras duas hastes que fazem o porta-retratos ficar de pé. O telefone toca outra vez, deve ser Rosa querendo me dizer mais alguma coisa. Não consigo levantar, não só porque estou sem força nas pernas mas também porque não quero falar com ninguém. Mesmo ofegante, tenho vontade de rir, rir muito até que a barriga doa. Aos poucos vou dobrando meu corpo. Com a unha abro o fecho que prende o nosso retrato e ele cai na cama, junto comigo. O último barulho que escuto é do vidro do porta-retratos se quebrando no chão.
