Carrinho do trem fantasma

(Angélica)

Ouço o barulho da chave tentando abrir a porta de forma atrapalhada. É papai. Levanto do sofá pra ajudar, deve ter ido no supermercado. Quando estou no meio da sala, ele entra em casa empurrando um carrinho de bebê e o mais espantoso é que tem um bebê dentro. Meu queixo cai, não entendo nada. Nos ombros as tiras de algumas sacolas de plástico brilhante. Arregalo os olhos levantando as sobrancelhas e faço uma cara de interrogação. Ele diz que precisa viajar a trabalho por um tempinho, volta logo e que Alice vai ter que ficar uns dias aqui comigo. Comigo? Uma amiga dele está desesperada, tem que fazer uma cirurgia, chorava tanto ao telefone que não teve como recusar. Pai, eu nunca cuidei de um bebê. Assim você já vai treinando, responde e vai pro quarto arrumar a mala.

Fico olhando pra Alice e chego à conclusão que agora nós duas temos um problema. Ela até é engraçadinha, gorda, com as bochechas rosadas, meio careca, mas as orelhas são grandes demais pro meu gosto e meio de abano. Papai volta apressado com uma mala que não é de quem vai passar poucos dias fora. Quando você volta? Não sei ao certo, ligo pra você pra avisar. As fraldas estão aqui, nessa sacola as roupinhas e naquela outra as mamadeiras, pomadas, chupetas, enfim, tudo que você vai precisar. Espera, vou buscar a caixa de leite no porta-malas do carro, é a única coisa que ela come. Assim que papai vai até a garagem, abro a boca de Alice pra ver se ela tem algum dente. Só tem a ponta de um querendo nascer, quando meu cachorro Bingo tomava leite, tinha a arcada completa.

Papai me dá um dinheiro e se despede. Antes de ir, diz pra eu dormir em seu quarto com ela e não esquecer de colocar uns travesseiros na borda da cama pra que Alice não role e caia no chão. Fico brava com ele por ter me arrumado esta encrenca, mas não digo nada, só balanço a cabeça concordando com tudo. Temos brigado muito porque ele acha que não estudo e só fico no celular ou na televisão vendo séries. A ideia de que ele fique fora por uns dias seria ótima se não fosse por esse pedaço de gente orelhudo.

Lógico que não sou estúpida e essa história de que uma amiga precisa de ajuda não colou, por isso saiu voando, pra eu nem ter tempo de peguntar. Alice deve ser sua filha e portanto a minha irmã. Mesmo que não tenha mais cara de joelho, não se parece nada comigo. Bem que eu estava desconfiando que papai tinha algum problema, não parava de teclar nos últimos dias, nunca foi disso. Que vontade de esganar você, pai. Quando ele ligar, vou esganar pelo telefone. E se alguma coisa acontecer com Alice, o que eu faço? Ele devia ter pensado que se tem uma pessoa indefesa aqui, essa pessoa sou eu.

Volto pro sofá e continuo vendo televisão. Alice dorme com a cabecinha caída pra frente. Está tão pra frente que fico preocupada se não vai torcer o pescoço. Ao empurrar sua testa pra cima, ela acorda e começa a chorar. Parecia ser um bebê tranquilo, não, ela não é, não para. Deve estar com fome, eu também estou e queria fazer esse escândalo pra que alguma comida aparecesse na minha frente. Papai comprou um monte de leite e não trouxe nada pra mim. Corro pras sacolas e pela quantidade de mamadeiras, esse bebê veio pra ficar e pra sempre. Isso tudo está muito mal explicado, não estou achando graça nenhuma.

Se é pra ser uma série de terror, papai devia ter me preparado antes. O primeiro capítulo não está começando bem. É melhor que me apresse porque Alice está bem vermelha. Esquento o leite e coloco uma colher de sopa de achocolatado. Tiro Alice do carrinho e fico nervosa porque tenho medo de deixar ela cair. Ela berra mais ainda, acho que percebe que não sei segurar um bebê. Depois do malabarismo, consigo ajeitar nós duas no sofá. Enfio o bico da mamadeira na sua boca, ela mama um pouco e dá uma golfada na minha blusa. Um cheiro azedo sobe pro meu nariz. Logo em seguida gruda de novo na mamadeira e só solta quando o leite acaba. Fico abismada com a velocidade com que ela tomou tudo, imagino que devia estar faminta. Aproveito que Alice está calma e vou trocar a minha blusa e também arrumar as suas roupinhas no quarto de papai. Ao abrir o armário, vejo as prateleiras quase vazias. Sento na cama e soluço.

Os olhinhos dela agora estão meio caídos, não sei dizer se já eram assim. Se dermos um passeio, ela deve dormir logo. As calçadas estão tão esburacadas, Alice chacoalha tanto, que é impossível que feche os olhos. Chego no mercadinho e assim que entramos, ela se vira dentro do carrinho e vomita toda a mamadeira perto do caixa onde alguns clientes esperam pra pagar. Eles me olham feio. Fico sem graça e como sou sem noção, saí sem uma fralda de pano pra limpar sua boca. Talvez achem que eu sou a mãe e ainda por cima relapsa. Papai que devia estar aqui, me deixou esse presente que expele líquidos horrorosos pela boca. Desvio as rodinhas do vômito e desapareço por entre os corredores. O achocolatado deve ter feito mal pra ela, melhor não pensar mais nisso, já colocou pra fora mesmo. Vou pra prateleira dos biscoitos recheados e coloco vários na cestinha. Pego também umas lasanhas congeladas e ao fechar a porta do freezer, sinto um cheiro ruim, ruim não, medonho. Só quando vejo as primeiras gotas caírem no chão, é que me dou conta que a fralda de Alice está vazando e a situação é feia. Agora tenho certeza de que achocolatado e bebês são duas coisas que não combinam. Tento disfarçar indo depressa pro caixa. A moça que passa os produtos na máquina registradora faz uma cara horrível e torce o nariz, finjo que não é comigo, o que na verdade não é e sim com o bebê monstro do carrinho do trem fantasma, pago e vou embora.

Ao chegar em casa, me dou conta que papai se esqueceu de um item muito importante, a banheirinha. Onde eu vou dar banho nela? Vasculho a lavanderia e a única coisa que acho é um balde, não cabe ela deitada, só de pé. Vai ter que ser com isso. Alice começa a chorar de novo, não sei se está com fome outra vez por ter vomitado, por estar suja ou pelos dois. De qualquer maneira, deixo o chuveiro aberto até que sua banheira improvisada se encha e começo a tirar o macacãozinho cor-de-rosa. A visão da fralda é tão nojenta que quero vomitar. Ser mãe de primeira viagem é igual série mexicana, todas as temporadas são um drama. Tenho que segurar Alice com uma mão e com a outra passar o sabonete, vai que Alice se abaixe e engula água ou se afogue, está bem, isso foi um exagero. Ela gosta da água quentinha e bate os braços com força, nem ligo que está me molhando, daí lembro de como ela entrou no balde. Acabou o banho, pra fora.

Seco Alice, coloco a fralda, é fácil, igual colocar um absorvente e depois ponho uma roupa limpa. Ela começa a gritar. Faço outra mamadeira, agora só de leite. Estou exausta. E lá vamos nós pro sofá. Era fome mesmo, Alice é insaciável. Quando finalmente acho que vamos poder ver um pouco de televisão, sinto aquele cheiro ruim de novo. E ao virá-la, está toda suja. Não posso brigar com ela, sei que a culpa foi minha. Não é recomendado perder a paciência com bebês, por mais inconvenientes que eles sejam.

Dessa vez simplifico as coisas e passo álcool gel em Alice da cintura pra baixo. Chega, ficou quase bom. Mais tranquila, ela adormece no sofá. Tento ligar pro papai, preciso contar pra ele o quanto estou sofrendo, que não sou uma largada como ele pensa e também quero reclamar muito. Não atende. Vou esperar que ele veja a minha chamada, ou tento mais tarde, fica irritado se eu insisto. Enquanto isso, resolvo procurar umas fotos minhas de quando eu era pequena pra ver se Alice se parece comigo. Se mamãe estivesse viva, numa olhada, ia dizer se sim ou não, era muito observadora. Um dia, numa briga deles, ouvi ela dizer que papai não prestava. Nunca soube o que exatamente ela quis dizer com isso. O álbum de fotos está uma poeira só, depois de passar as páginas do casamento dos dois, da mamãe grávida, tem um monte de fotos minhas e pro meu desgosto total, tenho as mesmas orelhas de Alice, grandes, feias e de abano. Não vou esganar papai, vou degolar. Como ele não me conta nada, deixa Alice aqui e desaparece? Que ódio!

Meu celular apita, penso que é ele dando sinal de vida, mas não é. A Bia, minha amiga que mora aqui do lado, está me chamando pra ir na casa dela pra ver mais um capítulo da série Do amor não resta nada, já falou com a Tetê e com a Valentina. Olho pra orelha de abano, dorme tão profundamente que acho que não tem problema. Digo que chego logo mais. A história é fantástica: Uma família do Coreia do Norte foge pros Estado Unidos num avião monomotor roubado. Depois de entrarem em diversas frias, conseguem se estabelecer, arrumam trabalho e uma casa. Chul, o marido, enlouquece com o mundo capitalista e toda noite vai pra um bar diferente e fica com várias mulheres. Enquanto isso, a esposa Min dá um duro danado numa empresa que cria coelhos, tem que juntar os machos e as fêmeas pra eles fornicarem, o duro é separar depois. Fora que ela cuida das duas crianças sozinha. O marido pilantra chega tarde, bêbado e cheirando a perfume barato. Até que um dia Chul não volta mais pra casa. Paramos nessa parte.

Antes, ligo mais uma vez pro papai. Nada, não atende. Minhas amigas se espantam com Alice, digo que é filha de uma prima que teve que sair e pediu pra eu cuidar dela. Com pipoca nas mãos, começamos a ver o próximo episódio: Min liga pro emprego de Chul e descobre que ele ainda continua trabalhando lá, parafusa roscas numa fábrica de trailers. Está furiosa, faz tempo que ele foi embora e nunca mandou um tostão pros filhos. A cara dela dá até medo, ainda mais porque ela acabou de pegar uma faca na cozinha e parece que coisa boa não vai sair daí. Enquanto isso, Chul tira o uniforme, guarda no armário, pega a marmita e quando está saindo pelo portão, vê a esposa esperando por ele. Min conversa com Chul de um jeito bem calmo, aí tem, e tem mesmo. Quando se afastam e estão numa rua deserta, ela pega a faca da bolsa e enfia bem na braguilha da calça dele. A cena é incrível, jorra sangue pra todos os lados e Chul grita desesperado. Min é bastante determinada, gosto disso. Na cena seguinte já se passaram alguns meses e eles estão num tribunal, o julgamento começa, na verdade são dois julgamentos, Chul está sendo acusado de não alimentar os filhos. Acaba assim.

Valentina conta que tempos atrás, seu pai não pagou a pensão alimentícia e quase foi preso, o que ela achou bem feito. Ao ouvir isso, fico gelada, meu estômago aperta, talvez porque ainda não comi mas o mais provável é que seja pânico. Digo que preciso ir, elas reclamam, lembro da prima e num instante estou em casa. Coloco a lasanha no forno. Como Alice nem se mexe faz tempo, acho melhor conferir se ela ainda está respirando, sim, dorme igual a um anjo batendo as orelhas. Preciso pensar, muitas coisas estão passando pela minha cabeça.

Não estou gostando nem um pouco dessa série da minha vida. E se papai estiver fugindo da polícia por não ter dado dinheiro pra mãe da Alice e por isso inventou essa viagem a trabalho? E se ele não voltar nunca mais e a mãe da Alice morrer nessa cirurgia? Isso se já não estiver morta. Vou ser mãe aos quinze anos? Não tenho nada com isso, num fiz filha nenhuma. E como vou fazer pra sustentar nós duas? Começo a chorar, mas me dá uma raiva tão grande que engulo as lágrimas e telefono pro papai. Como é de se esperar não atende. Mando uma mensagem malcriada e peço pra ele me ligar urgente.

Alice acorda inquieta. Faço a mamadeira e enquanto dou pra ela, como a minha lasanha. Depois troco a fralda encharcada. E decido que o melhor é ir pra cama, estou exausta. Me dá um certo desgosto ter que sentir o cheiro de papai nos lençóis, por isso arranco tudo numa puxada e troco por um limpo. Os travesseiros na borda do colchão, assim como ele disse, o bebê orelha bem acomodado, desligo a luz e em poucos minutos pego no sono. Acho que por pensar que estava na minha cama, que é grudada do lado esquerdo na parede, rolo e me esborracho no chão. O barulho é tão forte que Alice acorda e começa a chorar. Também choro, e não apenas porque me machuquei toda. É engraçado como alguém com pulmões tão pequenos pode berrar desse jeito. Enfio a chupeta na sua boca, mas ela cospe fora. Mancando, vou preparar a mamadeira. Quando volto, ela está roxa. Puxo o travesseiro e encosto na cabeceira da cama, pego Alice nos braços e tento que ela beba o leite, também não quer. Vejo que a ponta do dentinho já rasgou a gengiva e mesmo passando a pomada, continua berrando. Só quando coloco sua cabeça no meu ombro e acaricio suas costas bem devagar por um bom tempo, ela dorme. Sinto aquele cheiro bom de bebê e também seu calor. De alguma maneira que não sei explicar, me sinto protegida. Com receio de me mexer pra que ela não acorde de novo, durmo sentada, com Alice em cima de mim.

De manhã, o sol entra no quarto, tinha esquecido de fechar a janela. Coloco Alice na cama, pego meu celular e ligo pro papai. Desta vez ouço: este telefone não existe, por favor verifique o número discado. Alice abre os olhinhos, a mamadeira da madrugada ainda está aqui. Ela mama tudo, arrota e cai no sono outra vez. Vou até a cozinha, pego uma faca, das grandes, com a mesma cara que a coreana e guardo na gaveta do criado-mudo. Em cinco minutos, volto a dormir.

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