por Américo Paim
Poderia ser com o fim do sono, bem natural. Não aqui em casa. É sempre com barulho. Hoje é sábado, mas a toada é a mesma dos outros dias: “quem quiser que se lasque”. Ao filho caçula, o quarto mais perto do bloco de carnaval matinal. Eu que me foda. Preciso é sair logo dessa merda. Cadeira arrastando, porta de geladeira batendo, ruído de fritura. Daqui a pouco cheira tudo aqui. Só não ouço vozes. Pai e mãe no silêncio padrão.
Adoro as possibilidades. Levanto agora e aproveito a comida, pra não ter que preparar a minha? Menos trampo, só que minha mãe falando sem parar, com o balanço da semana sobre o que eu deixei de fazer, como serei um fracassado, a minha gula, o comportamento, meu quarto lixeira e tudo mais. Vale a pena? Posso esperar pra depois, mas corro o risco de bater de cara com a estrela da companhia, minha maravilhosa irmã, aquela escrota, me tratando como seu empregado. Vou mandar tomar no cu, ela vai chamar minha mãe e a merda tá feita. Meu pai, claro, no seu mundinho, cabeça no jornal e depois no dominó com os amigos, tomando uma. O melhor mesmo é pegar de novo uma grana na carteira dele – ele nunca reclama, me picar sem café, encontrar o pessoal na quadra e dar porrada em algum idiota. Não sem antes rolar a bronha matutina, pensando em alguma dessas gostosas que me desprezam. Bem mais interessante.
Ligo pro Gérson, aliás, Venta de bode, pra quem mais?
– Fala, Venta. Vamo pro baba?
– E aí, Gordalhão? Oxe, esqueceu?
– É o quê?
– Enterro do Manolo.
– Essa porra? Cê vai, é?
– Véi, tem que ir. Era nosso colega.
– Era um mané. Perdi nada lá.
– Porra, gordo, num fala assim, o cara morreu.
– Antes ele do que eu. Já vai tarde.
– Foi uma tragédia, cara. Vai todo mundo da escola.
– E daí?
– Não acha que vão falar ainda mais se você não for?
Desligo com a barriga revirando, sensação que engoli comida estragada. Se não vou ao velório do cara que mais me sacaneou na escola, vão reparar? Foda-se. O filho da puta foi meu problema desde a 7ª Série, quando entrou na escola. Agora que ele tá lá bem ajeitado no quinto dos infernos, eu vou aparecer para dar tchau? De jeito nenhum.
Vou pra cozinha. Logo minha mãe chega pegando pesado com seus assuntos preferidos: emagrecimento, estudo, organização, futuro. Sigo meu ritual de “certo”, “aham”, “tá”. Peido e arroto, só que hoje não funciona, ela segue inchando e eu na minha. Até que chega Sandra, a solução dos problemas do mundo. Fica do lado de mainha, claro, só batendo, só que com ela eu devolvo na tora.
– Devia acordar mais cedo para estudar. Vestibular é ano que vem, criança.
– Cuide da sua vida, vaca.
– Olhe como fala com sua irmã.
– Nem ligo mais. Ele sabe que eu tô certa.
– Vá encher o saco do otário do seu namorado.
– Jorge Antônio, contenha a língua!
– Esqueça, mãe. Ele tem inveja do Reinaldo.
– Só se for do carro que ele tem.
– Ele tem a melhor namorada, abestado.
– Tá com duas?
– Muito engraçadinho.
– Qualquer um pega você.
– Vocês querem parar agora?
– Só você que não pega ninguém, né?
– Ele continua lhe comendo na casa da Lúcia, aquela outra vadia?
– O que é isso, menino?
– Qualé, mãe, a Bahia toda sabe.
– Você é um idiota nojento, sem assunto.
– Dia desses vou lá tirar uma casquinha.
– Só se for de alguma ferida no seu rabo.
– Sandra, isso é jeito de falar?
Levo meu sanduba pro quarto com o braço ainda ardendo pela gentileza de minha mãe e a trilha sonora de Sandra aos gritos que não posso mandar ela se foder e sair andando. A cama e o radinho no ouvido me aliviam. Estou sem fones, desde aquela porta dura entre eles e Sandra na nossa última briga. Pena que não tem cerveja. Mainha tá trazendo o velho na corda curta. Pra beber, só na rua, mas nem lá eu ouço a voz de meu pai. Ele vegeta em casa e vive quando sai do prédio. Incrível só lembrar de um riso dele no dia que fui no bar, porque minha mãe pediu. Que espécie de pai apresenta você pelo nome e só? Não tenho nem título de filho. Ele podia me ajudar com essa coisa de pegar mulher. Tá foda. Feiura, falta de jeito e gordura são um pacote impressionante. As meninas riem de mim por tudo. Com os caras eu meto a mão, mas não dá pra bater em mulher, apesar de achar que uma hora dessas o velho vai partir pra cima de minha mãe, de tanto que ele ouve. Acho que ele caga pra ela. Que vidinha, viu? Ou será que não bate por minha causa? Sou duas vezes o tamanho dele. Quem tem, tem medo. Eu teria, já tô com dezesseis, não sou mais menino. Eu devia usar isso com minha mãe, pra ter mais respeito ou até fazer uma grana. Deixa quieto, não ia funcionar, só pra ganhar mais porrada, isso sim.
Acabo de comer e ainda sou assunto na cozinha: a filha perfeita, orgulho da mãe e o irmão dela fodido, piada preferida de parentes, colegas da escola e vizinhos. Acho que nem elas sabem mais quando começaram a implicar comigo. E meu pai? Me defendesse uma vez que fosse. E se eu saísse do país? Apenas sumisse? Meu braço dói do treino. O caratê foi uma contribuição do velho, taí. Dois anos só e agora estão com medo da minha figura de quase 140 kg. Por que Chico Puta foi me chamar de porco sardento? O dedo quebrado deve ter ensinado a ele. Três dias de suspensão, mas não me arrependo. E Michel, agora com sorriso alternativo? Até guardei um dente dele. Foi esperto, saiu correndo. Ia morrer. Dizer que eu devia ter nascido de barriga de vaca porque em mulher não cabia? O cara teve colhão. Não achei legal Venta ter me segurado na hora. Eu perdoo. É o único amigo que não desistiu. Ali é irmão. Inteligente, o filho da puta. Num guenta um murro, aquele fiapo. Por isso que fica perto de mim. Será que ele tá certo e eu deveria ir ao enterro do desgraçado do espanhol?
Resolvo ir por causa de Vilma. Ela pode ser a primeira mulher que eu vou pegar. É linda. Tem aquele cabelo quase vermelho como o meu e nem anda, desfila. E aquela pele lisinha? Venta me diz que ela não é nem bonita. E eu sou? Ela me olha diferente, não me sacaneia quando eu passo e até me ajuda nos trabalhos da escola. Do lado dela eu posso até suar demais. Velho, se eu não for e ela pensar que não dou importância a nada? É quase isso talvez, mas ela não precisa saber. Por causa dela eu podia até ficar mais calmo, sei lá. Um pouco de paz. Então é isso, vou lá, fico no meu canto, ninguém vai dizer nada.
Acerto com Venta e chegamos juntos. Gente pra caralho. Começa a me dar gastura, me coço todo. Acho que é esse cheiro. Flor demais, perfume forte, naftalina, não sei. É tudo ao mesmo tempo. Venta vai pra junto do pessoal da escola e eu pra fora da sala. Preciso respirar, nego. Suando muito, uns arrepios estranhos. O povo chegando. Plínio, Silva, Eraldo, o pessoal todo certinho. E o Moita, cara? Sujeito puxa-saco, no ouvido dos pais do morto. Nem era chegado assim ao cara. E Magda? Fingimento da porra. Vivia se jogando, levou um fora retado dele e tá de lencinho na mão, fungando? Otária. O único choro de verdade é o da turma dele: Tico, Verme e Sombra. Bando de sacana. Esses aí vão sentir falta da proteção do morto. Tão me olhando. Quero rir alto, mas vou estragar tudo. Vilma ainda não chegou. Será que não vem?
“Deus o tenha em bom lugar”. Muitos falando isso. É coisa de velório mesmo. Foi assim no de minha avó. Tô ouvindo bem o que eles dizem, mas ninguém desconfia o que tá na minha cabeça. Eu não tô triste. Não tenho essa hipocrisia. Tudo bem, cara novo, da minha idade, morreu de acidente. E daí? Virou santo? Acho que vou embora. Que é que Venta tem com esse olho vermelho? Fumou um, foi?
– Tristeza da porra, véi. Todo mundo arrasado.
– Qualé, Venta. Muito exagero.
– Gordo, não precisa falar mal. Podia ser um de nós.
– Ó você errado… O cara era vacilão.
– Como assim?
– Morreu fazendo pega, mermão. Com o carro do pai.
– Acidente.
– E daí? Deu no quê? Agora fica o velho ali chorando com cara de coitado.
– Porra, tá sendo cruel.
– Deu o carro ao de menor. Lá em casa ia ser “não” fodido de meu pai e um tapaço de minha mãe.
– Ele adorava o pai.
– Taí, sentimento que não conheço.
– Você tá muito amargo.
– Quer que eu chore por esse aí?
– Não precisa esquecer, mas dá um tempo, ele tá morto.
– Eu é que não dava uma vacilada dessa. Já tenho muito problema pra morrer com dezesseis anos.
Relembro a ele as tantas vezes em que me esculhambaram, trataram como bicho, as brincadeiras escrotas do santo finado e seus amiguinhos. Falo com prazer daquele dia atrás do pátio do primário, que quase gozei vendo a cara dele sangrando. E ele mentindo pra todo mundo que foi queda de bicicleta? A gente depois não brigou mais. Ele pegou medo, mas fez minha caveira com as meninas e os professores. Tá morto, mas continua enchendo o saco. Venta não tá com uma cara muito feliz com esse papo.
Velho, Vilma chega e tudo fica diferente. Ela tá me vendo, mas tá calada. O pessoal da escola fica olhando que ela foi caixão. Denise tá abraçada com ela. Parece que ela tá triste mesmo. Eu tenho vontade de ir embora com essa cena. Ela parece que tá rezando, enquanto eu mordo minha boca e saio de fininho. Venta tá falando com ela. Apontou pra cá. Sentado aqui nesse banco pintado de branco, frio e duro que só a porra, nem parece um cemitério. Ela tá vindo.
– Que triste, Jorge.
– Só você e minha mãe me chamam assim.
– Não gosto de apelidos e é fácil falar só do que se vê.
– Você tá estranha.
– Impressionante essa perda. Tão cedo.
– Veja só, eu…
– Não fale isso que pensou.
– Mas você sabe o quanto eu…
– E de que vale? Quer ser lembrado assim?
– É o que sou, não?
– É o que escolhe ser.
– Tá estranha mesmo.
– Você veio aqui. Gostei disso.
– Só que…
– Aproveite pra enterrar outras coisas.
É hora da missa. Os colegas vão se aproximando pra ficar todo mundo junto. Venta me fala algo. Ela só me olha e estende a mão. Nunca alguém me deu a mão.
