Aproveite o silêncio

Eu vivo entre ruínas desde que nasci. Como todo mundo que vive em uma cidade, seja de 500 mil ou 10 milhões de habitantes. Muros de concretos que desabam por ou sem querer, asfaltos gastos mesmo quando novos, fábricas em combustão, gritos por toda a parte. Desde que fui a primeira vez em um clube de dança aos quinze anos, descobri o único lugar no qual encontrei silêncio para minha cabeça, enquanto meu corpo descia uma eterna rampa de tobogã. Todo habitante urbano vive entre o caos e a imaginação solitária.

Minha mãe sabe que eu mentia quanto a ir a acampamentos de escola. Isso durou uns dois ou três anos. Depois eu comecei a falar “vou dançar”. Eu fiz dezoito anos, fui morar fora. Vejo minha mãe às vezes na quarta à noite, às vezes para almoçar no final de semana ou quando podemos. Não criamos o hábito de ter um dia certo para isso. Ela não é uma pessoa muito sociável, com milhares de amigos – se é que alguém tem muitos amigos na vida adulta –, mas se dá um drink por dia. No mês com hora extra, ela arrisca um bistrô. Os anos da minha mãe podem ser divididos pelo drink que ela escolhe por noite, raramente tomando o mesmo duas noites seguidas. E duram o tempo necessário para ler ao menos três capítulos de um livro, seja “Crime e Castigo” ou “O Idiota”.  

No último ano eu tinha me dedicado a desenhar no ateliê da faculdade. E quando a noite chegava, me ocupava de descobrir onde poderia escutar um vinil por noite enquanto tomava água com limão. Nos finais de semana, escondia um cantil com vodka na calça e entrava nos clubes. Eu já fazia isso há três anos. Alguns rostos eu já conhecia, mesmo que não me importasse de falar com ninguém de forma constante. Um dia eu estava saindo do banheiro com a mão dentro da calça, terminando de arrumar meu cantil e uma garota, visivelmente mais velha, se virou de costas para o espelho da pia e passou o braço pela porta da cabine sanitária e ficou me encarando. As batidas aceleradas e graves a ponto de nem dar para diferenciar quando uma começava e outra terminava me deixaram plantada de volta na frente dela com ar de normalidade. Ela desabotoou minha calça dando um passo comigo para perto do vaso e girou sua língua dentro da minha boca com a mesma velocidade com que seus dedos embaixo se mexiam. Quando eu gozei, ela deu um gole da minha bebida e me devolveu.

_ Agora você já sabe o que fazer na próxima.

Isso foi antes de reconhecer no prédio em que eu estudava dois rostos que me eram comuns sob a luz azul e a do estrobo pelos três porões pelos quais eu circulava nos finais de semana, Lara e Selton. Eles passavam por mim no banco com mesa de concreto no jardim e diziam “E aí”, o suficiente para passarmos alguns minutos juntos sentados na grama um pouco mais afastado, falando sobre discos novos e velhos ou sobre misturar cores para a paleta perfeita das tintas.

A falta que não sinto de falar por horas a fio veio da minha mãe. Ela foi a primeira a morrer pela doença desconhecida que tornou nossa cidade um condomínio da milícia abandonado. De um dia para o outro, já não podíamos mais sair de casa sem imprimir as listas de controle de movimento e os itens de mercado discriminados. Minha mãe não pediu que ficássemos juntas, não fazia seu tipo convidar alguém para assistir filme dividindo um pote de sorvete com duas colheres.

_ Tereza, chamei a emergência. Há dois dias que minhas idas ao banheiro não melhoram, devo estar desidratada. Agora sinto uma falta de ar, também. Não quero que você vá me ver, a não que seja o médico te ligando.

_ Mas você vai ficar com seu celular o tempo todo, né?

Foi o médico que me ligou 8 dias depois. Uma desidratação causada por infecção foi irreversível. Eu peguei minhas coisas e fui para sua casa de volta. Mas tudo por ali era sufocante, as cortinas brancas de crepe na sala, um sofá gordo de courino marrom, as roupas dela que eu não iria usar. Pela janela da sala eu via famílias e mais famílias negociando com policiais nas barricadas para poderem ir para o interior. A duzentos quilômetros da nossa cidade havia sítios e fazendas, muitos deles comportando condomínios de campo. Os que tinham propriedade, saíram.

Os lixos do centro antes revirados por moribundos e espalhados pelas ilhas que dividiam as pistas das avenidas agora estavam secos. Não havia mais prostitutas, nem michês, nem travestis, nem mendigos. Não havia pretos e pobres. Nos jornais velhos e empoeirados que voavam, as imagens mostravam famílias nessas mesmas ilhas, dispostas até a comerem a grama seca que tinha restado.

Eu deixava as luzes da casa desligadas dia e noite. A casa era modesta e discreta o suficiente para não ser saqueada. Minha mãe nunca havia passado uma tinta no muro cinza da frente desde que meu pai foi embora, no meu aniversário de 6 anos. No dia que ela morreu, passei uma rajada de spray preto, sem pensar muito no que fazia, mas talvez sinalizando um luto que deu a necessária cara de assustadora que eu precisava para sobreviver ali.

Pela fresta da porta da frente e pelo barulho dos passos, cavalgadas e carros, eu fui percebendo que a cidade foi se esvaziando, como numa quinzena de bombardeio intenso. Passava o dia na parte debaixo da casa e me trancava do lado de cima à noite, para que nenhuma luz pudesse me fazer algum tipo de sombra. A despensa da minha mãe durou mais do que a existência dos mercados. Quando restavam duas sardinhas e um resto de gin, nem os guardas estavam mais vivos. Decidi que era hora de sair.

Mesmo de madrugada, a cidade era amarela da cor dos tijolos de suas muitas construções esfacelados. Nos primeiros quarteirões, nenhum sinal de que um resto de comida enlatada teria sobrado por ali. Senti uma vontade imensa de dançar. A imagem da primeira garota que me dedou no banheiro do clube me veio à cabeça. Será que ela não estaria por lá?

Meu estômago doía, mas eu pensava no meu cantil de vodka e na luz azul neon. Cheguei na porta do clube e antes de seguir o impulso de pular a grade que cercava seu ante jardim, esperei por uns minutos perto da arvore do outro lado da rua. Na rua deserta, nenhuma respiração era audível. Até as cigarras provavelmente tinham morrido. A trava velha da porta da frente se rompeu no meu terceiro chute. Meu coração pulava rumo ao queixo com o barulho que fiz, mas lá estava o corredor que levava até à pista e depois ao bar, de um lado, e ao banheiro de outro.

Com meio pulo, me sentei sobre o balcão até o olho acostumar com o escuro de um lugar fechado de novo. Eu balançava minhas pernas balbuciando “Kingdom of Ends”, this is all, nothing left. Em breve, nem eu mesma.

_ Porra, Tereza, se tu num tivesse começado a cantar, teria levado um tiro.

Eu não esperava escutar uma voz, muito menos dizendo o meu nome. Era Selton, com uma Glock.

_ E desde quando você usa arma de trapper?

_ Peguei do cara da minha república quando ele vacilou.

Ele deu um suspiro com a mão esquerda no peito, deixando a arma no balcão.

_ Não imaginei nem que tu tivesse viva, quanto mais que um dia fosse aparecer logo aqui.

_ Você tá aqui desde quando?

_ Aqui o som era legal, sabe? Mas tava ligado que o dono é um playba que foi pras montanhas. Ele deu uns estoques pros funcionários, mas eu já sacava que tinha umas caixas de importação no subsolo que ele misturava com bebida falsificada. Esperei ele trancar o lugar e montei meu bunker.

_ E você tá vivendo de que, se nem luz tem aqui pra fotossíntese?

Selton pegou minha mão para me guiar no escuro. No meio do corredor das antigas pias do banheiro tinha uma escada improvisada que dava para uma espécie de laje 3×3 em cima da pista. Ela era cercada por extensões do telhado das outras partes do clube, então não podia ser vista da rua.

_ Uma hora pararam os helicópteros e eu comecei a arrumar aqui em cima. Quando a comida acabou, virei um tatuzão da madrugada e fui conseguindo umas paradas, umas plantas e racionei a água pras raízes. E mais um monte de coisa que levou tempo.

_ E você dança?

_ Não foi assim tão simples me mudar para cá, mas vem cá.

Alguns vinis tinham ficado para trás nas estantes das bebidas do bar. Tinha um disco da Sophie, um da Nina Kraviz e o clássico Grace Jones. Mesmo se tivesse onde tocar, seria arriscado fazer barulho. Fechei os olhos e tentei visualizar o tobogã em que eu deslizava quando estava na pista. Selton encostou na minha boca com o bico redondo da garrafa quadrada de um Jack Daniels semi cheio. Revezamos nosso ritmo em completo silêncio tocando os discos só na cabeça. Na hora em que as palavras vieram, foi no momento em que estávamos acostumados a ir ao banheiro, onde muito mais do que só dedos costumavam a entrar por debaixo das minhas calças. E Selton ainda tinha o reflexo de tapar minha boca com a mãe enquanto minhas costas subiam e desciam pela divisão de alumínio dos sanitários.

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