Aversão de si mesmo

Felipe me apoia no trilho do trem, um pouco acima do tornozelo. Linha Esmeralda da CPTM, entre a estação Ceasa e Villa-Lobos Jaguaré. Sentido Grajaú. Está escuro e ele se deita na brita para escapar do desinteressado olhar do maquinista. Estamos eu, ele e o mau cheiro do Rio Pinheiros presentes. É uma despedida triste, como todas são. Eu quero argumentar, fazê-lo mudar de ideia, mas essa não é uma das minhas capacidades. Nunca foi. O trem faz uma leve curva seguindo o único e imutável trajeto possível, a luz nos ilumina de longe. E vai chegando mais perto. Mais perto. A vibração no trilho aumenta. A luz branca corta a noite e adquire um aspecto de projetor de cinema. Vejo a vida como um filme. É o fim.

Sou o primeiro pedaço de Felipe a sair da barriga da mãe, numa cesárea de emergência na madrugada. O médico passa o bisturi abaixo do umbigo, me segura e nos puxa para fora com certa violência. Ficamos pendurados de cabeça para baixo por alguns segundos até Felipe começar a chorar. Um choro levemente acima da média. Assim como sua altura e seu peso. Assim como suas feições e tamanho dos membros. Assim como sua maldição. Dias depois vamos a outro médico, e o destino dá pistas do que virá no futuro. Pistas do meu fim. O médico tem duas opções para o exame do pezinho, o direito e o esquerdo. Escolhe me fazer sofrer. A agulha fura minha pele. Eu, o pé esquerdo, violado logo após chegar ao mundo. O pé direito goza com meu sofrimento, sabe que Felipe é destro. Nunca mais nos falamos depois disso. 

Felipe acompanha o pai nas partidas de tênis no clube. Ainda é muito novo para jogar, mas observa com atenção os golpes dos mais velhos. A movimentação em quadra, o split step. Um amigo do pai tem um filho de idade próxima, Rubens. Os dois pegam raquetes e se isolam na velha quadra de saibro, onde os adultos não jogam porque está em manutenção. Felipe ganha uma partida atrás da outra. Descalço, me suja de saibro e suor. É ligeiramente acima da média. 

Os primeiros campeonatos passam rápido. A glória infantil faz com que Felipe projete um futuro brilhante. Ele viaja para competir em outras cidades e obtém sucesso acima da média, mas encontra também as primeiras derrotas. Tudo bem, sem problemas. Não se pode ganhar sempre. Nada como um ponto após o outro. Felipe segue me usando de apoio para seus golpes de direita e me raspando no chão em seus golpes de esquerda. Eu percebo o que acontece, mas ele não me ouve. 

As derrotas são constantes. Felipe vive no limiar do quase. Quase ganhou o Aberto de Uberlândia. Quase foi para a final do Aberto de Sorocaba. Quase, quase, quase. O Aberto de Porto Alegre ele venceu, mas apenas porque o adversário teve uma infecção intestinal em decorrência de maionese caseira com curry e corações de galinha na chapa. Felipe não reconhece o papel da sorte no seu triunfo.

Consegue se rankear em nível mundial. Acima da média, claro, muito melhor que um jogador casual de fim de semana. Mas ainda muito distante do sonho. É um jogador completamente irrelevante. Fica viciado em vídeos do Kobe Bryant. Busca desesperadamente se tornar a melhor versão de si mesmo. Acorda às três da manhã, treina, descansa, come. Volta ao treino às cinco e repete também às nove, às duas e às quatro. Persegue uma visão aristotélica da vida onde acredita ter encontrado a sua razão de ser e só através dela pode existir. O sapo sapeia, a maré mareia e Felipe joga tênis, diz o vídeo de um filósofo careca logo ao lado no Youtube. É tudo uma questão de mentalidade. A melhor versão de si mesmo, a melhor versão de si mesmo, o melhor si mesmo da versão. O universo também espera que Felipe jogue tênis, e ele me usa para caminhar em direção ao abismo.

O jogo encaixa nas eliminatórias para as Olimpíadas. O pai coloca uma pressão branca de adulto frustrado nos ombros do filho. A chave avança. Após a semifinal, o pai dá um tapa no ombro de Felipe e diz que ter um filho nas Olimpíadas será o seu maior orgulho. Eu ouço a conversa através da meia molhada de suor e do tênis Adidas Court Ballistic. Não posso fazer nada mais uma vez.

Felipe perde para Rubens. Aquele Rubens. Aquele mesmo. A única derrota para o amigo de infância na história dos dois. De que adiantou não ter perdido até então? Felipe quer trocar os acontecimentos da infância por um bom game de saque, mas quando percebe está trocando cumprimentos com Rubens ao final da partida. Apenas a rede entre os dois. De um lado, o campeão. Do outro, um rapaz bom, acima da média. E só. Estende a mão para o juiz e vai para o vestiário ainda anestesiado pela falta de perspectivas.

De que adiantou o que fez? Todas as madrugadas de treino. Todo o Kobe Bryant. Kobe nunca ensinou o que fazer caso tudo desse errado depois de tentar tudo o que fosse possível. Felipe se odeia. Odeia ser apenas bom e nunca ótimo. Odeia saber que existe uma diferença intangível entre ele e os melhores. Rasga os posters de Roger Federer e Rafael Nadal da parede. Quebra suas raquetes Babolat Pure Drive no chão do quarto. Pega um tubo novo de bolinhas Wilson e as morde como se fossem maçãs. Uma por uma. Degustando o feltro amarelo esverdeado com fúria. E então, saciado, percebe que ainda existe uma chance. Mais obscura, mais arriscada. Uma chance que, para se concretizar, demanda um sacrifício.

Clunc. 

O trem atravessa o devaneio, lacerando a carne com suas rodas sem fio de corte. Eu e Felipe nos separamos por esmagamento. O maquinista sente um leve solavanco, como amassar uma lata de alumínio sob o pneu do carro. Minha consciência começa a desaparecer no mesmo ritmo da perda de sangue. Felipe grita de dor e abraça seu joelho, meu antigo companheiro. O barulho do trem ensurdece a existência. Um torniquete é feito para estancar o sangue dele, ainda consigo assistir. O mundo está nublado, os sons ficam distantes, etéreos. Sinto o toque de Felipe. Ele me arremessa na lama do Pinheiros. A última gota do meu sangue se mistura com a água podre. Enquanto as cortinas se fecham, penso que Kobe Bryant também morreu.

Na sala de espera do céu, sou informado que apenas almas inteiras podem entrar. Eu, como pé esquerdo, preciso esperar o resto do corpo morrer. Ao meu lado, apêndices, amígdalas e fimoses olham com curiosidade. O cara novo. O diferentão. As fimoses me dão pena, elas ainda têm muito tempo por aqui. Uma TV transmite a vida em tempo real, de forma que posso acompanhar Felipe por vários anos. 

Felipe se recupera a tempo de participar do classificatório para as paralimpíadas. Joga bem, acima da média. Manobra com destreza a cadeira de rodas usada nessa versão do esporte. Todos acham que foi um acidente, uma tragédia, que aquilo é uma linda história de volta por cima e superação. O adversário não toma conhecimento do ocorrido, também não sofre com infecção intestinal. A derrota acontece. Felipe não tem mais pés esquerdos para cor. A derrota acontece. A melhor versão de si mesmo jamais será suficiente.

Felipe não tem mais pés esquerdos para cortar.

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