Leandro Reis
À mesa: começavam a jantar às oito. Eram quatro: o Pai, a Mulher, o garoto e a irmã do garoto, Joana.
A Mulher nunca botava o prato para Joana, embora ela não chegasse tão depois de começarem. A mesa era pequena para quatro pessoas, e isso era uma desculpa a se agarrar, mas em geral a Mulher não se justificava, pois era evidente para todos que a perseguia e o faria para sempre. Depois de fechar a porta atrás de si, Joana largava a bolsa no sofá, muitas vezes cantando, ao que o garoto se atentava, tentando adivinhar se Joana cantarolava as teclas pressionadas à exaustão pelo Pai ao piano. Recolhia prato e talheres no armário da cozinha e voltava para a copa, mais devagar à medida que se aproximava da mesa, um suspense que o garoto já supunha necessário de tanto que ela mostrava – sem mostrar – se divertir aprofundando a cova na bochecha para conter o riso. De frente para a Mulher, Joana afastava as panelas para pousar o prato. A Mulher virava para a esquerda, olhando para o Pai, que cortava a carne ou remexia o arroz. O garoto imaginava o olhar da Mulher caindo na panela de feijão e se dissolvendo na poça marrom.
Enquanto fazia o prato, Joana abria de leve os lábios, deixando ver os dentes separados, por onde as correntes de vapor deslizavam como em galerias subterrâneas. Ela lhe perguntava como tinha sido na escola, ele respondia que tinha sido normal, e ela que normal não era resposta.
Nesta noite em particular, Joana cobria os ombros da blusa gasta da faculdade com um xale, sem dúvida uma nova peça, a qual a Mulher olhou com alguma cobiça e muito desdém, porque Joana antes da primeira garfada se descobriu e pôs o xale no encosto da cadeira, com medo de sujá-lo. Ela e o garoto trocavam pedaços de frases sem inícios ou finais, tratava-se de conversa cotidiana e íntima que necessitava menos de palavras que de tons. Faziam isso todas as noites que Joana conseguia chegar antes da comida ser rapidamente guardada pela Mulher e ela tivesse que esquentá-la para um jantar solitário, tendo a música do Pai como uma trilha abafada, ou melhor, um jantar quase solitário, porque embora comesse sozinha, o garoto, já de pijamas, vinha lhe fazer companhia.
E não era realmente uma profecia difícil de ser feita, a da mácula no xale, e na memória do garoto aquilo se construiria até como uma comédia de filme mudo, daqueles pastelões e ingênuos, a que o Pai no início da doença se entregaria sem nunca esboçar sequer uma risada, prostrado na cadeira-de-rodas, impedido de empreender o gesto que Joana então elaborava naquela noite em particular, após condensar uma gargalhada num ronco ao perceber a gota de feijão riscando o peito até as letras que formavam a sigla da faculdade, um gesto que fazia do dedo médio um pincel na mancha marrom antes de absorvê-la na ponta da língua, produzindo um pequeno assobio.
O garoto deixaria o gesto se eternizar na memória como algo acontecido muitas e muitas vezes, relembrando seguidamente, distorcendo a ordem dos fatos e o cardápio do jantar. Não era raro que suas versões apagassem a Mulher e o Pai dos lugares à mesa, ou que não lhes desse voz, como se acostumaria a fazer com todas as lembranças nas quais eles interferiam. Nesta em particular, o Pai e a Mulher se levantavam, carregando o silêncio endêmico daquela casa e daquela gente para o quarto de dormir, deixando os irmãos à mesa, entregues à noite que avançava, entregues ao ímpeto do risco.
***
No parapeito: de madrugada, quando a Mulher e o Pai já tinham se recolhido, o garoto levantava da cama e se esgueirava no escuro, guiado pelo cheiro do tabaco vindo da área de serviço, onde Joana se refugiava nos intervalos dos pesadelos, cujos ruídos o despertavam no quarto ao lado, porque ao contrário da imersão perigosa que acometia Joana durante o sono, o seu era quebradiço, nunca sonhava e por isso necessitava das visões lúcidas e da memória, sobretudo precisava confundi-las, de modo a inventar os sonhos que não conseguia sonhar.
Ele via a luz vazando a cozinha, distante, a chama irregular da vela que Joana acendia, açoitada pelo vento salgado da beira-mar sibilando nos corredores de prédios idênticos. Via a claridade piscar e caminhava espalmando a mão direita na parede – pois ainda não havia os corrimões que ornariam a casa inteira à medida que a doença do Pai avançava –, caminhava com medo da chama ceder e acabar preso no escuro, no meio do caminho entre Joana e o quarto, sem poder alcançá-los, talvez morrer sozinho como um indigente naquele corredor imenso, cuja forma – ele concluiria mais tarde – já imitava uma vala coberta de azulejos.
Mas o corredor nunca o engolia, e a promessa disparada na visão distante da luz se realizava ao virar à direita na cozinha, assomando a porta da área de serviço como um portal que guardava a figura estreita de Joana, sentada na tampa da máquina de lavar com as pernas esticadas na parede abaixo do parapeito, as solas dos pés coladas na superfície, formando um vão embaixo das pernas, na posição em que as mulheres tomam banho de sol – não ela, que não ia à praia e à meia-luz surgia branca como o sal, absorta na paisagem da cidade reproduzida nos olhos saídos do pesadelo.
Ao sentir os passos do garoto se aproximarem, Joana deslizava para o canto esquerdo, mordendo de leve o cigarro para equilibrá-lo. O garoto içava o corpo com cuidado, temendo qualquer barulho, e talvez o fizesse também, sem saber, para não perturbar a imagem da irmã fumando sozinha à espreita da cidade.
Numa dessas madrugadas Joana lhe passou o cigarro, como a selar um pacto noturno, inaugurando as noites seguintes em que se encontrariam ali para compartilhar aquela visão muda. Eles dormem e nós estamos vivos, é como estar à frente deles, olhando os pesadelos deles. Joana devia achar que dormir era o mesmo que ter pesadelos, pois só conhecia o sono como a profusão das coisas testemunhadas com os olhos fechados, que portanto todos permaneciam no presente eterno em que ela vivia, e que as pausas para o cigarro se tornavam a única fratura no tempo, suscetível a todo tipo de associações e gestos premonitórios, explicados depois por gestos mais simples.
Depois que o garoto se sentou ao lado dela, depois que Joana o viu erguendo o cigarro na boca, ele fascinado com a habilidade inata em traga-lo, Joana pode ter pensado ao fita-lo por alguns segundos detrás dos arabescos de fumaça que não demoraria a se converter num tabagista convicto. Pode ter pensado também, concebendo o pensamento como seus pesadelos, onde talvez acessasse previsões como o destino do Pai, que na posição em que o garoto estava, sua silhueta com o queixo erguido, como se tocasse o parapeito ao fundo, recortado sobre ele, o fazia exatamente como o Pai no estertor da doença, projetando o corpo para fora da cadeira-de-rodas de modo a escalar o parapeito e obter a visão parcial do trajeto dos navios na baía, ocultado pelos prédios cujo aspecto retangular ele devia comparar às caixas de remédio enfileiradas na prateleira – remédios que não tardaria a abandonar –, já que no resto da casa já não entrava exceto para dormir no quarto do piano, um piano àquela altura mudo, intocável como ele na área de serviço da casa, vigiado pela Mulher por sua vez imersa nos afazeres domésticos, mais acostumada com o odor do Pai – embora o preparo dos alimentos ajudasse a disfarçar – do que a própria casa, que ela impedia de empestear mantendo o corpo do Pai no caminho do vento.
Joana deixou o tronco vergar para trás e esticou as pernas como dois cabos de aço prestes a se romperem, pregando os pés na parede, delineando o músculo da coxa branca. O garoto sentiu-se convidado a imitar o gesto, sentiu-se convidado a muitas coisas, mas se limitou a observar a irmã sugando o final do cigarro antes de atirá-lo na cidade lá embaixo. Joana parecia por vezes as mulheres das revistas que seus amigos passavam entre as aulas, por vezes as mocinhas das novelas e dos filmes quando percebemos que são mais do que mocinhas, ou que nunca foram; nesses momentos ele não só a desejava quanto a odiava, pensava-a nas mãos gordurosas dos homens com quem a irmã saía, sempre homens, feições quadradas e queixos agressivos, nunca rapazes com idade de homens, como ele rapidamente aprenderia ao esquadrinhar o próprio corpo imberbe.
Ela disse então, acendendo outro cigarro, que gostava de sentir a parede fria nas solas dos pés, gostava de experimentar uma dormência da qual podia fugir. Sonhava, acordada, com pedras de gelo deslizando sobre a água, que a gente pode queimar os pés se ficar muito tempo em cima delas, e morrer afogado se saltar delas. O garoto parecia confuso com o tom da conversa, esperava Joana lhe passar o cigarro para ter algo na boca, e já deixava as pernas cederem escorrendo pela parede quando a irmã começou a mexer os dedinhos dos pés, um a um, separadamente, uma habilidade um tanto grotesca que exibia pela primeira vez, arrancando risos abafados do garoto, compelido a imitá-la sem o menor sucesso, os quatro pés encenando com os dedos um teatro de fantoches, uma peça ridícula e particular, consequência do pacto que adensavam nos movimentos secretos compartilhados no silêncio daquela casa morta, na qual o riso era permitido apenas enquanto ideia.
