Leandro Reis
Como os espectros que se aproximam e se sentam na cama quando estamos sonhando, engessando nossos membros, escancarando nossos olhos, o policial parecia estender um objeto na direção do homem; mas ele não estava lá. No canto da sua vista, o vulto do policial tremulava, preso no mundo imediatamente anterior ao seu.
Vivia dizendo que se algum infortúnio o fizesse voltar à casa, não passaria do vestíbulo. Nem bateria na porta, caso precisasse entrar, nem encostaria nas paredes ou nos corrimões. E agora estacava na porta impedido por uma faixa amarela e preta, a casa antiga ao mesmo tempo uma casa póstuma, o esqueleto de um peixe abissal regurgitado pelo mar e esquecido na areia.
Uma espinha de peixe que emanava de dentro das vértebras inúteis um odor impregnando o corredor do prédio. Mas nem isso ele parecia notar; assistia pela janela ao engarrafamento coagular a avenida e recordava os olhos vazios do Pai, o corpo do Pai apoiado no parapeito da área de serviço, atravessado pela luz, como se esperasse o sol lhe devolver a vista subtraída pela doença. O barulho das obras no aterro talvez fizesse o Pai imaginar a paisagem desfeita, um imenso descampado no lugar das águas cinzentas da baía, onde os cargueiros fizeram por décadas seu gesto colossal até o porto. Devia ver as sombras das máquinas como detrás de um lençol branco.
O policial tinha erguido a mão num gesto de espera e apontava para a prancheta em poder do homem, encarando uma folha preenchida. Segurava pelo cordão um binóculo e tentava acomodá-lo no ombro dele. Nos flancos do corredor, as frestas das portas revelavam os olhos acesos dos fantasmas esticando as caras para fora das tumbas naquele andar que ele, agora desperto, julgava um mausoléu.
Onde eu assino.
O senhor já assinou.
O engarrafamento se alastrava pelo centro até a beira-mar, que talvez não devesse mais se chamar assim, dada a ausência do mar, talvez já tivesse um nome desconhecido por ele, que se negava também a frequentar os arredores. Por isso notava demais, mesmo da moldura fraturada da janela, a ponto de distinguir numa mancha distante uma forma possível, uma estrutura cinzenta erguida na ausência do mar – uma das colunas que ligavam os muros da Seção 7. Em vez do porto, uma paisagem seca, muralhas cujas dimensões cercariam um bairro ou até uma cidade à beira da invasão. Mas eram eles os invasores, os amurados, ele elaborou, vago.
Ao redor do seu corpo, os movimentos dos policiais minguavam e alguns deixavam a casa. Nesse momento de dispersão, ele julgou ter ouvido – mas pode ter lido na ficha, ou feito associações viciadas – a descrição dos cadáveres: que a Mulher jazia no quarto do piano com os binóculos do Pai no colo, esbugalhada, ao contrário do Pai, imóvel e ereto na cadeira-de-rodas, à exceção da mão repuxando a alavanca, detalhe que fez um policial gracejar que o Pai tinha morrido de susto.
***
Quando deixou a cidade, a Seção 7 era apenas um projeto irreal, embora os boatos da desativação do porto já corressem teleguiados. Assistia às imagens aéreas na televisão sem se dar conta, admirando a extensão da terra guardada pelos muros, o enigma dos galpões de aço e dos canteiros de obras ainda embrionários. Depois percebia e tentava esquecer. Entendia que a única maneira de fugir é esquecer tudo, abandonar certos fotogramas num canto escuro e úmido da memória, entregues ao mofo, até que finalmente percam qualquer referência no mundo de agora.
Era possível então que deixasse essa crença, vendo através da janela do carro um passado ao alcance. Ele era uma perna inútil da centopeia que estrangulava a cidade, sem olhos como o Pai. Especulava: havia mais verdade na deserção do que no regresso, no repouso do que no movimento. Tinha desertado uma vez e podia fazê-lo de novo, mas agora uma deserção irrestrita, um projeto moral. Olhava para as docas ladeando a Seção 7, para os containers e máquinas abandonadas como uma vila evacuada às pressas, e pensava numa versão lunática de si recolhida aos hábitos do corpo, ocupando o tempo. Uma vida abstrata, decorrida em segredo, sem objetivar-se. Ser um simulacro, um homem sem rosto.
Margeando o asfalto, no que seria o espaço do mar abria-se um fosso seco, uma planície cinzenta onde brotavam cubos e retângulos de madeira, amontoados de entulho e vigas extraídas dos barcos abandonados à beira do cais. Por entre as casas improvisadas, os vultos se moviam debaixo de mantas, ao redor das fogueiras, agachavam diante do fogo com os pescoços apontando para os muros, velando a Seção 7. Alguns deviam ter se instalado no fosso há uma década, crentes na promessa anunciada pelos intermediários da Seção 7, de que os muros se abririam assim que construídos, absorvendo a mão-de-obra ociosa da cidade para um trabalho que nunca era especificado.
A certa altura, as operações que deviam constituir a Seção 7 convergiram para a ideia de um complexo industrial, com fábricas, montadoras, atividades financeiras. Quase ao mesmo tempo, as fotos das maquetes começaram a sair, tão elucidativas quanto os discursos oficiais: fileiras de computadores em salas amplas, fachadas de fábricas ou galpões opacos. Quando os jornalistas perguntavam quem estava por trás do empreendimento, os intermediários da Seção 7 respondiam, primeiro, que as vagas seriam temporárias, e, depois, ditavam a média dos salários que iriam pagar. Subitamente, havia uma nova manchete. Talvez impulsionadas pela promessa de salvação da cidade, as obras do aterro ficaram prontas muito antes do esperado. Assim como os muros que logo começaram a ser erguidos em volta da Seção 7, que nasceria em segredo, já que também suas imagens passaram a rarear nos jornais, e depois de alguns meses desapareceram, desvanecendo também da memória e do afinco daqueles que buscavam desvendá-la.
Nos dez anos em que ficou fora, recebia as notícias com indiferença, como se não lhe dissessem respeito. Agora a Seção 7 era um organismo vital, ditando os movimentos da cidade ao gosto de seus espasmos. Com os vidros do carro fechados, ele notava finalmente o cheiro da casa aderido às roupas, do qual tentou em seguida se livrar abrindo todas as janelas, uma ideia ruim, pois à direita sempre algum farrapo atravessava do fosso para a pista retorcendo as feições derretidas em grunhidos por misericórdia, exibindo as costelas perfurando a pele ou ferimentos de contendas recentes contra seus iguais.
Como este que se aproximava engolido por uma jaqueta larga, que concorria para encurvá-lo, apesar do mormaço levitado do asfalto. O caminhar elíptico fazia seu corpo submergir na paisagem para depois aparecer entre os carros, no canto do retrovisor, onde o sol costumava se pôr, tingindo os navios de uma luz sanguínea enquanto abasteciam do outro lado da baía. A sensação de irrealidade aumentava à medida que a cidade se mostrava e se fazia real na pele do homem. Observava o farrapo com as mãos grudadas no volante, pois agora qualquer movimento poderia motivar uma reação, e uma reação de alguém sem nada a perder só pode ser violenta, ele pensou, tentando não enxergar nas próprias mãos aferradas no couro as ventosas do Pai, que no decorrer da doença tornaram impossível um aperto de mão por não conseguirem soltar o que porventura agarrassem.
O chiado de pulmão seco anunciou o farrapo debruçado na janela do carona, um zumbido interno que a Mulher também nutria com os cigarros em frente à televisão, franqueando a arcada amarela durante os programas de auditório. Da área de serviço, o Pai devia ouvir as gargalhadas da Mulher – a audição não lhe faltaria nunca –, porque as contrapunha com um mugido, represando talvez um berro que reiterasse seu antigo discurso contra o aterro, contra a Seção 7, quando os músculos da cara ainda se contorciam condenando o entretenimento que se servia enquanto a cidade estava sendo loteada, ele dizia, levantando a cabeça pelada, enquanto os investidores da Seção 7 avançam pelos negócios da cidade exaurindo os donos com dinheiro infinito e irreal.
Nós vê o que nós quer, a Mulher gritava da sala, Nós vê o que nós coloca pra ver. Ela sentia prazer em ver o Pai no fim da vida enganado por um charlatão, convencido a abandonar os remédios, depois de tanto humilhá-la por não saber conjugar verbos. Ao contrário do Pai, a Mulher desfrutou da Seção 7 até o fim, quando se juntou às centenas de moradores do centro nas janelas dos prédios, agitando com força as bandeirolas à medida que o desfile de blindados saía da avenida para o desvio na beira-mar, onde alguns militares desciam dos veículos para abrirem pela primeira vez os muros da Seção 7, de modo a celebrar sua conclusão, e fecharem em seguida, deixando que aplaudissem uma massa de concreto.
O farrapo juntou as mãos numa prece ou num princípio de desafio, se passasse a estalar os dedos. Não o fez – disse que lhe ajudasse com qualquer coisa, não podia voltar de mãos vazias porque o estômago já estava. O homem olhava para a jaqueta esgarçada e reconhecia nela os padrões de uma farda, como se o farrapo desempenhasse sua função esquecida no departamento de trânsito, representando sua vida anterior ao fosso, policial-farrapo que era.
No fim da avenida, os carros começavam a se mover, desafogando o trânsito e suas mãos empapadas do volante. O farrapo que representava o policial podia também ser depositário de outras vidas, como todo bom ator. Aproveitou esse fiapo de pensamento esdrúxulo para abrir o porta-luvas e contribuir com a vocação dele, passando o cordão em volta do binóculo antes de entregá-lo pela janela. As feições do farrapo não se alteraram, mas supôs que o tinha agradado, porque antes de fazer o caminho natural de volta ao fosso, ele, diminuindo à medida que o retrovisor do carro do homem se afastava, parou diante de uma caçamba de lixo e se acocorou no chão, colando o binóculo nos olhos e erguendo o pescoço na direção da Seção 7.
