por Américo Paim
No seu modesto apartamento em Ondina, Sônia lê de novo a pergunta na tela do PC e decide responder que sim. É noite sem estrelas em Salvador.
Olha o mar da janela e suspira com o prazer do vento no seu rosto fino ainda bonito, de pele macia, que não denuncia os percalços vividos. Nunca imaginou que em pleno setembro de 2012, aos trinta e oito anos, viveria o que considera um progresso, diante do que se passou.
Na foto do porta-retrato sobre a mesa de canto, aparece sozinha. Foi ele quem tirou, em Sevilha. O casamento acabou há dois anos. No começo romântico, Frederico era inteligente, seguro sobre o futuro e o sexo era muito bom. Largou o trabalho a pedido dele, “professor destacado” que ganhava bem e depois virou apenas um sovina, o que custaria caro. Ele acertou as previsões que lhe interessavam, mas a relação deles não estava na lista. Concluiu o doutorado e fez pós-doc na Espanha, que durou quatro dos treze anos da união. Para ela ficaram os dois filhos – Eurico, agora com quinze anos e Abelardo, de quatorze – poucas lembranças legais e anos fora do mercado de trabalho.
Ela vai até a área de serviço. Diante da máquina, ri e recorda a noite da libertação. Pediu a ele, outra vez, uma lavadeira nova. Foi no apartamento do Stiep, sem vista para o mar, chegados da Espanha havia um ano. Ele disse que fosse lavar na casa da mãe, era mais barato. Ela aceitou seu conselho e desembarcou lá com roupas sujas e meninos limpos. O divórcio foi penoso, ele não facilitou nada.
O curso de Turismo EAD foi ainda casada. Engrenou intermediar excursões de estrangeiros ao Brasil, por uma empresa pequena, no Comércio. Há um ano, por Skype, conheceu Antônio, português do Algarve, que fazia o mesmo trabalho que ela, uns dez anos mais velho. Achou ele bonito e conversavam muito. Ele veio ao Brasil há seis meses, por duas semanas, e o romance começou de fato. Ela hesitou à época, mas não se arrepende. Hoje ele voltou ao tema do qual ela fugia, encerrando um e-mail assim: “Vem viver comigo?”.
***
A chegada a Lisboa foi em janeiro de 2013, sem os filhos e com seu divórcio ainda tramitando. Fred seguia intransigente. Ela veria os filhos nas férias escolares deles. Teria dinheiro para tal. Estava empolgada com o novo relacionamento, a chance de vida nova. Logo teria Eurico e Abelardo, parte do acordo com o novo parceiro. Acontece que tinha um divórcio a resolver. Não o dela. Antônio era casado, sem filhos, vivendo em regime de separação, em casas diferentes, há mais de cinco anos, conforme lhe disse e ela aceitou as condições. Ela estava crente.
Na expectativa que a solução era coisa de semanas, um ou dois meses no máximo, Sônia se empenhou em conhecer a cidade, transformar o apartamento montado no bairro de Santa Clara em um local perfeito para o casal e os filhos. Comprou decoração, pintou paredes, organizou o escritório doméstico para continuar com as excursões via remota, até que pudesse trabalhar em Portugal. Matava a saudade dos filhos e familiares com as ferramentas eletrônicas cotidianas. Antônio se esforçou para estarem juntos o máximo de tempo e a levou a passeios pela capital e para conhecer cidades próximas, como Sintra, Estoril, Cascais e Évora. Sônia logo se habituou ao modo de falar dos locais e se sentia bem adaptada. Ela estava bem confiante.
Em março, após muito desgaste com Fred, saiu o divórcio no Brasil. Vendo que seus filhos já começavam a lhe ter antipatia, ele cedeu. Ninguém entenderia, mas a primeira coisa que Sônia fez no dia que saiu o encerramento do processo foi tomar uma taça de vinho na área de serviço do seu apartamento, sentada de frente para a máquina de lavar. Ela estava animada, a sonhar.
Poucas semanas depois, em abril, a realidade visitou a brasileira através de uma ligação telefônica. Uma voz fina, aos gritos, lançava todo tipo de desaforos e ameaças. Era Gabriela, esposa de Antônio. Mal conseguindo discernir as palavras em meio a tanto ódio destilado, Sônia compreendeu que, apesar de lutar pelo divórcio, pelo visto ele não disse nada àquela mulher sobre existir outra pessoa. A vida virou um inferno. Às vezes ela percebia que alguém a seguia quando ia à rua. Havia ligações pela madrugada, sem que ninguém falasse, envelopes com insultos enfiados por baixo da porta. Houve até um dia que encontrou a porta do apartamento pichada: “puta”. Antônio teve que reduzir os encontros, passou a levá-la a lugares mais alternativos, em horários idem. Tinha contato com cada vez menos pessoas do círculo dele. Ela sendo isolada, aos poucos. A sorte era a vizinhança, com quem ela convivia bem. Foi o que lhe ajudou a superar aquela fase, que durou todo o primeiro semestre. Tempo desperdiçado. Ela estava muito decepcionada.
Que motivos teria para sentir diferente? Após seis meses no país, era apenas mais uma ilegal. Não podia trabalhar e nem se casar, o que resolveria a irregularidade. Esperava a qualquer momento alguém da Imigração à sua porta. Entendeu que isso não acontecia porque Antônio estava sendo chantageado pela esposa para que ela não abrisse a boca. Ele não admitia e sequer aceitava conversar sobre o tema pois “estava tomando as providências”. Ela seguia apaixonada e via a volta ao Brasil como um desastre pessoal. Se agarrava a qualquer esperança. Ela era vergonha e frustração.
Em 2014 os meninos enfim visitaram. Primeiro no inverno europeu, mas não foi legal por causa do frio. Não apresentou Antônio aos filhos, não se sentia segura. Voltaram no verão e passaram ótimos dias no Algarve, em uma casa alugada por Antônio, que pouco tempo por lá ficou. Conheceu os meninos, o clima foi um pouco tenso por uns dias. A situação delicada que Sônia vivia ainda não tinha se revelado aos filhos e eles perceberam que havia algo errado. A história dela de que fazia viagens curtas e na volta renovava sua permanência por mais seis meses não convenceu. Depois de uma segunda visita a Coimbra, Eurico revelou à mãe que queria estudar Direito por lá. Na véspera da volta deles ao Brasil, pressionada pelo desejo de um deles de ir morar em Portugal, a mãe revelou toda a verdade. O mais velho se colocou a seu lado, o outro se revoltou. Foram embora e Sônia sabia que sua situação teria que se resolver, se quisesse rever Abelardo. Eurico, porém, voltaria em pouco tempo, para estudar no país. Ela chorou por toda a noite. Ela era alívio.
Entre 2014 e 2015 ela fez amigos, teve momentos românticos com Antônio, foi a eventos, estudou idiomas e outros assuntos sobre turismo, fez cursos de culinária e decoração à distância, renovou o guarda-roupa. Antônio seguia confiante no fim do processo de divórcio. A luta era pela divisão de bens, ainda sob ameaças da esposa e sem contar isso a Sônia, que o apoiava. Ela era esperança.
Em dezembro de 2015, sem solução e já bem cansada de tudo, Sônia ouviu de Antônio que ele estava doente e tinha pouco tempo sobrando. Era a opinião de vários médicos consultados, sem mais espaço para dúvidas. Dividida entre a compaixão e a decepção de não ter acompanhado o processo, sem ter com quem falar a respeito, ela contou a seu único confidente, o filho, já estudante em Coimbra. Ele se colocou à disposição para ajudar. A doença avançou rápido. Em desespero, Antônio apelou e Gabriela enfim lhe concedeu o divórcio, não sem antes sair com boas vantagens financeiras. Ele e Sônia se casaram logo e passaram a viver no apartamento dele, no bairro de Alcântara. Foi tudo muito sofrido. Eurico, que vinha aos sábados e domingos para ajudar, chegou a trancar o segundo semestre para ficar com Antônio, pois, precisando de dinheiro para as contas a pagar, Sônia assumiu o lugar do agora marido na agência de turismo, um arranjo que salvou a situação econômica do casal. Ela estava extenuada.
Por alguma alegria, eles fizeram umas viagens rápidas pelo país e chegaram a ir até a Espanha. As limitações de Antônio aumentaram a partir de agosto de 2016. Em setembro, Abelardo já reconciliado com a mãe, veio visitar. No final de outubro, Antônio morreu. Tristeza para Sônia e Eurico, que voltou a Coimbra para concluir a faculdade. As primeiras semanas foram preenchidas com muito trabalho, mas as lembranças que estavam por todo o apartamento, agora dela, estavam lhe fazendo sufocar. Aconselhada pelos colegas e os filhos, resolveu tirar uns dias de descanso. Queria aproveitar e decidir o que fazer de sua vida. Ela estava perdida.
A poucos dias de suas férias, que seriam na Espanha – tinha gostado da breve passagem pelo país – recebeu algo improvável: proposta de trabalho no Brasil, de uma empresa de São Paulo. Começaria em janeiro de 2017, com ótimas perspectivas e um salário maior do que o de Portugal. Era um trabalho desafiador, com uma visão de crescimento a curto prazo e muita segurança. Ela se sentiu balançar.
Conversou com seus filhos. Eles a encorajaram a seguir a carreira, tão impedida ao longo da vida. Estavam felizes com o que poderia lhe acontecer. Ela não conseguiu resolver e saiu de férias com o compromisso de dar uma resposta à empresa paulista. Ela estava confusa.
***
Viajou de excursão mesmo, em dezembro. Preços muito interessantes, por trabalhar na agência. Acertou tudo por e-mails com Miguel, da filial espanhola. Não se conheciam e desde sua história com Antônio não queria ver foto de ninguém. O roteiro, de ônibus, em vinte dias: Sevilla – Málaga – Valencia – Barcelona – Zaragoza – Madri.
No terceiro dia, ela e o cara de bigode e cavanhaque, falando bom português com voz pelo nariz, já haviam se olhado várias vezes. Seu jeito solto a atraiu. A chinesinha que sempre se sentava junto dela migrou para outro lugar. Ele foi rápido e ocupou o assento. Em dez minutos se revelou: era ele o Miguel. Tinha visto sua foto, estava encantado e não resistiu à oportunidade de estar com ela. Sônia gostou da ousadia, foi bom sentir aquela gastura de tesão e romance misturados. Fazia tanto tempo.
Ficaram juntos o resto da viagem. Teve sexo, promessas e conversas. Ela lhe falou da proposta de emprego no Brasil. Ele só falou de paixão e lhe garantiu que não era casado.
