Corra e desapareça

(Angélica)

Você sai pra correr e desaparece. Não porque foi sequestrada, te mataram pra levar seu tênis, caiu num buraco de esgoto ou foi levada por uma capivara pras profundezas do rio Pinheiros. E sim porque não aguenta mais ser esmagada por seus filhos nem por seu marido. Tem dificuldade de se mexer no espaço que eles decidiram que seria conveniente ou lhe caberia, a cozinha e a área de serviço. Exausta de tudo, senta no sofá, põe os pés em cima do pufe e com a cabeça em outro lugar, passa o tempo que eles permitem fingindo que está vendo televisão. Seu marido te traz um pacote de bacon de presente, seus filhos pulam ao seu redor querendo que você frite logo. As gotas de gordura poderiam ser suas lágrimas, se você não tivesse se esquecido de como se chora. Liga o ventilador e espera.

No final da tarde você coloca o top preto, um shorts e seus tênis que brilha com a luz pra que ninguém te atropele, devia usar em casa também. Aquele mesmo que pode ter te levado a sumir. Prende na cintura uma pochete, com a chave de casa e o celular. Se sente tão bem correndo que não seria um má ideia participar de alguma maratona, de preferência em Varsóvia ou nos Emirados Árabes.

Uma velha sai da garagem segurando um saco de lixo. Você detesta esses sacos azuis, rasgam com facilidade. E é o que acaba de acontecer. Se não visse uma perna cinza de cachorro, provavelmente de um poodle, sair do buraco e despencar bem na sua frente, ia continuar a sentir essa superioridade boba por comprar só os sacos pretos. Na sua cabeça, a velha decepou o cachorro na tábua da cozinha. Não foi a patinha com as unhas espetadas como um rastelo que te assustou, e sim imaginar que do seu lixo poderia cair um pé gordinho, um braço peludo ou uma cabeça com uma fivela presa na franja. Você sai em disparada, as patas do cachorro perseguem você.

Corra mais rápido, fuja, faça com que a endorfina chegue logo ao seu cérebro, você está na ciclovia vermelha, na beira do rio, e não tem nenhum obstáculo que te impeça. Esqueça como as crianças se chamam, você sempre troca os nomes delas mesmo, e também do apelido idiota do seu marido. Jogue ali na moita a chave de casa e a aliança e, pelo amor de deus, não pare de correr.

Só ao ver as capivaras aproveitando os últimos raios de sol, você consegue diminuir o passo. Como são grandes, assim que se aproximar delas, as patas do poodle, que querem que você não se esqueça da velha e do seu desejo de Jaqueline, a esquartejadora, vão desistir de você. Quando está quase fazendo carinho na cabeça de uma, se lembra dos dentes enormes, e chispa dali. Não tiveram tempo de te levar pro meio do pântano. Mas pelo menos você não escuta mais as patinhas batendo no chão, o que te dá um alívio momentâneo.

Como num lava rápido, os pedaços da sua vida vão caindo na pista cada vez que você passa embaixo de uma ponte. Se não tivesse escurecido, você teria saído das trevas, ou de uma parte dela. Não é hora de procurar sua localização no Google. Onde te der na telha, vire à direta. É difícil aguentar o cheiro do rio por muito tempo. É meio óbvio que você pegue o acesso da Ponte do Socorro.

Por a paisagem ter se tornado sombria, você vira a esquerda numa avenida iluminada. Um pouco pra frente, tem uma fábrica de doces conhecida com um café vinte quatro horas. Você se dá conta que está desidratada de tanto que sua língua gruda no céu da boca, mas não tem um centavo. O celular toca, com certeza é seu marido preocupado com o jantar. Seu estômago aperta um pouco. Do outro lado da rua, uma pintura medonha de umas mulheres quase peladas chamam a sua atenção. É uma boate, um inferninho pixulé. É ali mesmo, você imagina que os clientes devam se resolver lá dentro.

Apesar de ainda ser cedo, tem movimento. No fundo, um palco com um showzinho de strip-tease, logo chega uma delas e pergunta o que você quer, claro que te desdenha e te mede dos pés à cabeça. Você pede pra falar com o dono, a dona, ela diz e aponta pra um corredor ao lado do bar. Ao bater na porta, você escuta: entra, bisca! Assim que você está na sala, ela olha pra você e continua, estava esperando uma das meninas, mas como já te chamei de bisca, senta aí, bisca. Mexe nuns papéis e guarda na gaveta. Ela é trans, negra, com um cabelo comprido que pode ser seu ou peruca e está vestida com um roupão japonês vermelho. Matilde, a responsável por essa máquina de prazer, aqui se chacolha de um tudo e dá uma risada alta mostrando os dentes da frente separados.

Se veio procurar trabalho, me mostra o que sabe fazer. Lógico que estou falando pra você dançar, ri e fala, das outras coisas não quero nem saber. Você responde que não é isso rindo também, simpatiza com Matilde, parece que falta um parafuso nela. Diz que precisa de um lugar pra dormir e de alguma coisa pra comer. Ela te olha desconfiada. Já vi que você aprontou. Aqui cada uma rebola por si, mas no final o bolso da titia tem… Você a interrompe mostrando o seu celular. Vê que tem cinco chamadas perdidas do seu marido, arranca o chip, guarda na pochete e dá pra Matilde. Uma pena que não foi o tênis, pelo tamanho dela, deve calçar uns quarenta e quatro. Ela abre um zoião ao ver que seu telefone é novo e caro. Pra ir pro quarto, vai ter que esperar, só quando a casa estiver vazia, enquanto isso, senta lá no salão, vou pedir pra te servirem alguma coisa.

Você fica num cantinho escuro da boate e pensa no que vai fazer da sua vida. Tenta lembrar de alguma amiga que more longe, mas só se recorda de uma prima que está no Afeganistão. Trazem uma cerveja quente pra você, a sede é tanta que não liga. Aos poucos o cansaço bate, você se encolhe. As bundas não param de se mexer na sua frente. Uma calcinha voa e, como num jogo de argolas, cai em volta do copo de um cliente. Não se martirize por sua bunda não ser tão grande como as delas e nem por você ficar ridícula mostrando a barriga já que está cheia de estria de tanto parir. Mais uma calcinha sai pelos ares, a mira não foi boa e ela acaba em cima de uma porção de calabresa. E você também não sabe dançar? Fez faculdade de artes plásticas pra nada? Um velho fica todo feliz com a calcinha que pousa na careca dele. Nem pra puta serve? Pede um uísque com bastante gelo.

Quem sabe se você pintar a fachada, e fizer umas putas sem cara de diaba, pode ficar por aqui por um mês. Mas e se forem as caras de demônias que fazem os clientes virem pra cá? Amanhã você acha uma solução. Tenta relaxar, você ainda vai ficar sentada aqui um bom tempo, no inferno não se dorme cedo. Isso, encosta a cabeça no balcão, se quiser tira o tênis, ninguém vai ver. Quando trouxerem a comida, você vai escutar o prato batendo na mesa.

Quase pegando no sono, você ouve uma voz conhecida, não sabe onde está, se é um sonho, a velha está dentro no lixo, as patas são da capivara e Matilde sempre foi japonesa. Você abre um olho e quer pular da cadeira. Respira fundo. O Pitoco, seu marido, está de pé no meio do salão. As meninas falam com ele como se fossem íntimos, dão umas bicotinhas na sua boca. Ele aperta a bunda de uma. Você quer entrar debaixo da mesa, mas fica em dúvida, aí sim ele vai olhar pra você. Prefere pôr o cabelo no rosto e ficar corcunda até que seu top se junte ao shorts e você se torne invisível.

Jaqueline, a decepadora, está espumando de ódio. Se tivesse uma faca na mão, acabava com ele. Pensa que as diabas poderiam ajudar você. Não, né? Se elas ajudassem a matar um cliente, o negócio ia falir e Matilde ia fazer estrogonofe de você. Não corra pra cozinha, pense em outra coisa. Só consegue pensar que ele compra os doces que leva pra casa na fábrica aí da frente e não em uma das lojas? Ele está indo pro corredor dos quartinhos, pegou a loira, a que tem a bunda maior de todas. Deixa esse papo de bunda pra lá e usa o cérebro.

Assim que ele desaparece, você sai correndo pra sala da Matilde. Agora ela está sem o roupão e veste uma fantasia de Chapeuzinho Vermelho, nem tenta entender que tipo de show vai sair dali. Pergunta se tem como espiar dentro dos quartos. Ela diz que sim, medida de segurança, caso uma das meninas grite. Mas pra que você quer saber? Você diz que explica depois, que ela vai ser bem recompensada, pede seu celular emprestado, põe o chip e implora pra que te leve pra lá depressa. Vai de furo em furo, até achar o seu marido e a loira bunduda. Cai no esgoto ao ver que ele nunca faz essas coisas com você. Matilde entende tudo só de ver a sua cara. Ainda bem que ressentimento passa em quinze segundos, até porque você não está mais preocupada com isso e sim em encaixar o visor da máquina fotográfica no furinho e tirar várias fotos.

Chama um uber, pega o chip de novo, devolve o celular pra Matilde e diz que vai trazer uma fantasia nova pra ela, da Pocahontas, nem que tenha que fazer na costureira. Se despedem com dois beijinhos no ar. Assim que entra em casa, as crianças perguntam onde você estava, grudam nas suas pernas e dizem que estão morrendo de fome, papai ainda não chegou. Você prepara algo pra comer e um tempinho depois seu marido aparece com o embrulho dos doces na mão. Ele fala que te ligou várias vezes, como você não atendeu, ficou preocupado. Você puxa o Pitoco pro canto, não quer que as crianças escutem, conta que foi sequestrada, por sorte o cartão tinha ficado aqui, mas levaram o celular e a aliança. Está muito nervosa. Ele te abraça, você reconhece o cheiro de hidratante barato. Seus filhos pegam os doces, estão contentes e você também. A mordida na bomba de chocolate faz o creme sair pelo lado da massa, enquanto você passar a língua pra que não caia, pensa em alguém que pode te indicar um advogado. A única coisa que te aflige é o que você vai fazer com as crianças.

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