O Homem de Pijamas caminha com passos rápidos pela avenida enquanto os Toscos aceleram seus tanques velhos e poluentes, gritando palavras de ordem e balançando bandeiras de cores que o Homem de Pijamas já não reconhece como suas. Não teve tempo de vestir uma roupa ou escovar os dentes. Pegou o celular, os documentos, desceu as escadas e saiu do prédio onde morava, na Avenida Paulista, correndo. Agora caminha porque perdeu parte do fôlego, mas sabe que não pode parar. Precisa aumentar a distância entre si e o que quer que esteja acontecendo às suas costas. Sente que, se olhar para trás, mesmo que por um só segundo, algo terrível irá acontecer. Prefere ignorar o som de tiros, bombas e risadas.
A ele se junta uma multidão de pessoas igualmente sem nome. Ninguém tem nome quando se está fugindo, não há tempo para perguntar. Ao seu lado caminham a Mulher de Terno, o Garoto de Uniforme e o Feirante de Avental. Não são parentes. Nunca se viram antes. Apenas agem como células de um grande organismo assustado. Outros também caminham, mas o Homem de Pijamas evita olhar para os lados e ficar com vontade de olhar para trás.
“Pra onde vamos?”, pergunta o Garoto de Uniforme.
“Não sei”, responde o Homem de Pijamas.
E o Garoto de Uniforme diz que precisa avisar a mãe, ele estava a caminho da escola quando foi acometido por uma sensação terrível. O mesmo tipo de sensação que faz os animais correrem da floresta antes que os homens percebam o incêndio. A mãe ainda deve estar em casa e preocupada. Ele também gostaria que ela saísse de lá. Eu só precisava sair correndo, só isso, diz o Garoto de Uniforme.
Os dois conversam sem trocar olhares. Nenhum deles quer correr o risco de vislumbrar o que ficou para trás. É como ter um monstro no ombro, respirando no seu cangote, esperando uma espécie de permissão para atacar. A Mulher de Terno tecla no celular enquanto avança, mas parece ficar irritada. Sem sinal, ela diz. O Feirante de Avental ainda segura o cacho de bananas
Um pelotão de soldados Toscos corta a procissão na direção oposta, marchando para o horror invisível. Batem botas, carregam fuzis, cantam sobre armas, morte e falos. Atrás deles, como num desfile carnavalesco separado por alas, os ricos Toscos cantam com suas camisas amarelas, óculos escuros e dinheiro escorrendo dos bolsos. As inocentes babás vestidas de branco são hipnotizadas e arrastadas por eles enquanto empurram carrinhos de bebê mais caros do que suas próprias casas. O riso é farto.
O Homem de Pijamas, o Garoto de Uniforme e a Mulher de Terno ouvem o próprio estômago roncar. Saíram tão cedo e com tanta pressa que mal comeram. O Feirante de Avental divide as bananas do seu cacho para manter a energia da marcha. Ninguém precisa falar nada, é de comum acordo o que é necessário fazer. Estão mais próximos, lado a lado, e ainda preocupados. Já se passaram muitos quilômetros, mas a sensação continua lá. Eles sabem que não importa o relevo, o clima, a silhueta dos prédios. Ao olharem para trás, tudo estará perdido.
“Amor? Alô? A-lô? Que droga de sinal!”, pragueja a Mulher de Terno.
Um berrante toca à frente, roubando a atenção da Mulher de Terno. Uma nuvem de poeira toma conta da via. O rebanho Nelore se aproxima, capitaneado por cavaleiros com as costas feridas. Atrás deles, em suas picapes a diesel, agropecuários Toscos chicoteiam os funcionários para que não parem. O grupo é obrigado a abrir espaço para os bois. Pobres animais, caminhando para o abate enquanto sentem o gosto de uma liberdade artificial.
“Eu preciso falar com a minha mãe”, diz o Garoto de Uniforme.
“Não há volta”, diz o Homem de Pijamas.
“O celular não funciona”, diz a Mulher de Terno.
“Bananas?”, pergunta o Feirante de Avental.
E os quatro seguem em frente junto com a multidão sem nome. Não há outra coisa a se fazer. Eu queria que a minha mãe também tivesse saído de casa, acho que ela faria isso, diz o Garoto de Uniforme. O Homem de Pijamas não fala nada, não há garantia de que a mãe do garoto tenha feito isso.
E então os pastores Toscos surgem no horizonte. Conforme caminham, cobram dízimo com suas maquininhas e celulares que aceitam pix. Como eles têm sinal?, pergunta a Mulher de Terno. É a fé, responde um deles. Posso ligar do seu celular?, questiona novamente a Mulher de Terno. Venha conosco, outro deles diz. Ela fala que precisa ligar para o marido, que está preocupada com ele. Eles rebatem que todos estão preocupados com algo, mas que não há nada a temer. O senhor é meu pastor e nada me faltará, dizem em coro. E os pastores Toscos envolvem a Mulher de Terno com seus corpos e palavras, com suas citações bíblicas e seus pecados. E não se caminhou mais ao lado da Mulher de Terno depois disso.
A marcha atravessa os limites da cidade de São Paulo, continuando pela estrada em direção ao litoral. Não porque é algo que deseja fazer, mas porque é o único caminho possível.
“Minhas bananas acabaram”, diz o Feirante de Avental.
“Pegamos mais durante a caminhada”, diz o Homem de Pijamas.
“Mas eu duvido que sejam da boa”
“Isso não importa agora”
“Não se acha banana prata como essa em qualquer lugar”
“Que diferença faz?”
“Minhas frutas, meu compromisso”
E o Feirante de Avental interrompe sua caminhada, mas não se vira para trás. Começa a dar passos de marcha ré, de forma que continua olhando para frente. Eu encontro vocês em Santos, ele diz. O Homem de Pijamas e o Garoto de Uniforme ouvem a voz, mas não ousam se virar para uma despedida.
A caminhada continua pela neblina da serra. O cansaço diminui um pouco com a descida, mas o medo gruda nos corpos como chiclete no cabelo. O Garoto de Uniforme começa a chorar baixinho. O Homem de Pijamas não sabe o que dizer para acalmá-lo. Ele quer a mãe. Chama por ela. Solange o nome. O primeiro nome que trocam e nem é o nome de um deles. O nome de uma pessoa sem rosto para os demais. O Homem de Pijamas consegue reparar que o garoto tem por volta de doze anos. É uma criança. Assustada com o barulho da guerra que os Toscos promovem contra o mundo civilizado.
À medida que os Toscos se juntam na Avenida Paulista, os sons aumentam, chegando até todos os cantos da Terra. É possível ouví-los em todo lugar. Eles atiram e cantam. E falam de armas e queimadas e culpados e morte. O chão do mundo treme com seus disparos de fuzis devidamente legalizados para uso civil.
O Homem de Pijamas percebe que caminha sozinho. O Garoto de Uniforme ficou para trás em algum momento. O Feirante de Pijamas não voltou. A Mulher de Terno foi abduzida. Ele queria ouvir “Bananas?” novamente. Sua companhia é a neblina da serra. É possível ver o litoral lá embaixo. O oceano parece não saber o que acontece. O Homem de Pijamas está exausto, sujo e com bafo. Não sabe porque carrega seus documentos. Sua única certeza é que se olhar para trás enxergará o que nenhum ser humano deveria ver. E verá isso através do relevo e da neblina, dos prédios, das ruas e dos carros.
O Homem de Pijamas para na estrada. Do que está mesmo fugindo? Que certeza tão grande é essa que ele tem? O que poderia ser tão terrível ao olhar que o fez abandonar sua casa nos trajes atuais? Os Toscos não podem ser tão ruins assim. São gente também. Só uma olhadela, ele pensa. Que mal vai fazer? O corpo já não sabe se virar, apenas seguir em frente, de forma que o esforço é grande. Os músculos doem para quebrar a rotina recém adquirida. Ele se vira de olhos fechados, ficando de frente para o que evitou até agora.
E então vê. Uma orgia ruim. Nítida como se estivesse lá. Como se tudo o que existisse de mais brega na humanidade estivesse sendo batido no liquidificador. O Homem de Pijamas ri, abre a boca em ângulos até então impossíveis. Vê a humanidade em seu estado mais baixo. Mais distante do ideal iluminista possível. Tosco. Tudo é tosco. De mau gosto. As danças, as crenças, a violência é tosca. Sente o corpo endurecer, a perda dos movimentos subindo do dedinho do pé em direção ao seu rosto. Os braços já não respondem mais. Vê, ao longo da estrada, os antigos companheiros igualmente congelados. A pele substituída por uma matéria escura e porosa. Inflamável. A Mulher de Terno, o Feirante de Avental, o Garoto de Uniforme. Todos olharam também. Todos transformados em estátuas.
Estátuas de pólvora.
Vestindo pijamas.
