(Bruno Vicentini)
“Os sonhos teus vão acabar contigo”, disse o outro ator.
Era a sua deixa. O espetáculo em noite de estreia. Devia dar início ao monólogo, que àquela altura, após tanto ensaio, ele tinha memorizado como um mantra. Havia entrado em cena e feito uma mesura em direção à plateia, que o recebeu com uma boa salva de palmas. Estava em sua marca, depois de uma breve deambulação pelo palco, reconhecendo os poucos elementos que formavam o discreto cenário, e tinha escutado a deixa. Era então a hora de dar a fala. Demorou um momento e coçou o bigode, passou a mão pelos cabelos mal cortados. O outro ator fumava um charuto, olhava com curiosidade. Dentro do teatro não se podia fumar, mas em cima do palco sim.
“Os sonhos teus vão acabar contigo”, o outro repetiu.
O pequeno tablado de madeira parecia quase grande demais só com os dois ali em cima. Enxergava agora as cabeças na plateia, flutuando, semiescondidas pelo breu, muito atentas. Quase não havia cadeiras vazias, mas isso porque o teatro era pequeno, minúsculo mesmo, era uma casinha de madeira. Todos esperavam alguma continuação, que a cena se desenrolasse. Voltou a olhar para o outro e o percebeu nervoso, a maquiagem perto de escorrer em meio à fumaça. Alguém na plateia quebrou o silêncio e riu baixinho. O outro mudou a pose: espanou um fiapo preso na manga do traje russo de época e depois descansou as mãos na cintura, bateu no chão os calcanhares das botas:
“Os sonhos… teus… vão acabar contigo!”
Aí ele pulou do palco, em direção à porta lateral do teatro, e saiu. Deixou o outro lá, sozinho. A plateia ressoou levemente, como um anjo depois de ouvir uma anedota suja.
Algumas pessoas pensaram que aquilo podia fazer parte do espetáculo, porque na dramaturgia moderna acontece de tudo, mas outras pessoas pensaram outras coisas.
***
Do lado de fora, pediu um cigarro ao vigia, que estava parado de braços cruzados bem em frente à porta:
“Noitezinha abafada, né?”
O vigia percebeu que ele era um dos atores, por conta da maquiagem. Além disso, ninguém vestiria aquelas roupas, um fraque inteiro branco, em qualquer outra circunstância. Alcançou-lhe o cigarro:
“É. Ainda demora?”
“O quê?”
“Você sabe… aí dentro.”
“Eu não apostaria nisso.”
Agradeceu e deixou o vigia para trás, descendo a rua do teatro em direção à grande avenida, perseguindo o barulho dos carros. Macacos nas árvores o observavam, pequenos saguis com cabelos que pareciam o dele.
No cruzamento da grande avenida com a rua do teatro, um homem pintava quadros e tentava conseguir um trocado dos carros. Com o sinal fechado, o pintor fazia uma expressão muito grave e olhava para uma árvore do canteiro central, depois golpeava a tela apoiada na sua frente, em cima de um cavalete, com pinceladas vigorosas, que pareciam punhaladas e por vezes quase viravam o suporte, enquanto os motoristas assistiam. Ficou fumando e cuidando de longe. O sinal era de três tempos e, antes que abrisse, o homem largava o pincel e caminhava por entre os carros, segurando um gorro para recolher moedas. Não se preocupava em mostrar o resultado, ainda que parcial, de seu trabalho aos motoristas. Quando os carros passavam, algumas pessoas esticavam o pescoço para tentar espiar a tela. Depois o sinal fechava e tudo se repetia.
Pisou no cigarro para apagá-lo e aproximou-se. O pintor pareceu muito animado quando lhe viu e gesticulou para ele. Entendeu que o homem queria um modelo vivo para um retrato. Ficou na posição indicada, assim, assim. O pintor voltou para a frente da tela e retomou as punhaladas. Mas a cada vez que o sinal fechava, tornava a tirar o gorro e percorria as janelas dos carros, em busca de moedas.
O sinal abriu e fechou umas quantas vezes. A posição em que estava era muito incômoda. Perdeu a paciência:
“Ainda demora, ô Botticelli?”
O pintor não disse nada, mas virou para ele o cavalete: no meio da tela, só um boneco-palito.
“Que filho da puta.”
Nos carros, os motoristas ficaram sem entender a piada, porque não tinham acompanhado aquilo desde o começo. O pintor, desta vez, fez uma reverência profunda antes de passar com o gorro:
“Todos estão convidados!”
Quis afogar o homem na grama do canteiro. Continuou subindo a rua, vermelho de raiva. Quando passava por uma árvore, olhava para cima, procurando os saguis, que, demônios em miniatura, riam da cara dele. Tentava memorizar os nomes das ruas. Perambulou por horas a fio.
Chegou então a um bar, um bom lugar para se estar sozinho, o local de um encontro marcado.
Acomodou-se numa mesa de lata, na calçada. O garçom veio perguntar o que ele iria beber. Respondeu que queria só um cigarro, se ele tivesse, obrigado. Emendou:
“Ela ainda demora?”
O garçom trouxe um cinzeiro:
“Eu não apostaria nisso.”
Começou a cair o frio e seus cabelos ficaram molhados de sereno, ou da caminhada. Quatro cigarros depois, o garçom já irritado, ela chegou. Tinha maquiagem no rosto. Uma atriz.
“Ué, tu não bebe nada?”
“Não queria beber se você não viesse.”
A mulher tinha os cabelos de cor indefinível e vestia uma túnica justa e preta, com fendas e transparências. Podia encenar uma androide ou uma sacerdotisa egípcia.
“E esse cigarro?”
“Filei do garçom.”
“Coitado. Amigo, por favor, uma cerveja. Um campari. Por enquanto é isso.”
“Os saguis tão rindo de mim.”
“Larga de ser trouxa. Os saguis tão sempre rindo, né. Não tem nada a ver contigo.”
“Vamos logo com isso?”
“Calma, acabei de chegar. Bebe uma cerveja pelo menos, vai. Te faz bem.”
“Duvido muito.”
“Sabe qual o teu problema?”
Esperou que ela dissesse. Em vez disso ela abriu a bolsa e jogou em cima da mesa um papel dobrado, onde havia um endereço.
“Valeu. Agora sim eu tomo a cerveja.”
Fez um sinal para o garçom, que trouxe a conta, mas ele só queria uma caneta emprestada. Rasgou o papel na metade. Anotou outro endereço e jogou o papel de volta para a mulher.
“Você se lembra da sua primeira vez?”
“Claro. Tu não?”
“Fica mais fácil?”
“Nunca.”
Ela bebia rápido, alternando os copos. Ele quase não bebia, mas ficava com o copo na mão, a meio caminho da boca. Quem dos dois se levantasse primeiro ia desejar merda para o que ficasse.
***
Não viu ninguém, mas sabia que o vigia estava por ali em algum lugar. Tentava, portanto, andar logo, e não fazer muito barulho. A alta madrugada permitia ouvir os sons que vinham da vegetação do entorno, sapos, grilos, cigarras. Nos fundos do velho teatro havia uma portinhola, que dava para as coxias e que alguém tinha deixado destrancada mais cedo. Torcia agora para que, com a confusão, ninguém tivesse se preocupado em trancá-la, o que comprovou ser verdade. Por dentro, o teatro era como uma grande caixa de madeira, que cheirava a esparadrapo. Quando fechou a porta atrás de si, a escuridão tomou conta. Tateou as paredes, tentando decifrar o caminho. Quando ouviu seus próprios passos ecoarem na madeira, soube que estava sobre o palco. Talvez estivesse fora da marcação, mas não importava. Também não fazia diferença manter os olhos abertos ou fechados na escuridão absoluta.
Pano.
