Susy Freitas
Você quer me comer de quatro?
Rita antecipa a resposta e o corpo dela gira. Apoia-se firme nos joelhos e cotovelos. É fato que os seios pendem num formato pouco lisonjeiro e os furos das celulites ficam proeminentes, mas não importa. Como uma cadela do puro agora, ela geme sem passado ou futuro no ato, enquanto a dor das estocadas a atravessa da vulva aos rins. Murros de uma agulha elétrica. Apesar da tristeza dela caber nesse intervalo, Rita sabe que ali é melhor que os lugares para onde sua mente costuma levá-la.
Ajoelhado, Nicolas se esforça em movimentos irregulares. O quadril nunca se recuperou totalmente da fratura na infância, e as sequelas, ou o fantasma da dor na memória, fazem-no perder a potência. Ele aceita o óbvio e interrompe o ato, tornando o casal um artrópode arfante, que se desfaz aos poucos no colchão estirado no meio da sala de estar.
Não há vergonha ou esforço na cena. O membro de Nicolas pende impassível no trajeto da sala à cozinha, enquanto os quadris de Rita baixam e ela arreia sobre o travesseiro como um sapo, dedilhando notificações no celular. É uma dinâmica de desprezo total e conforto total, até uma caneca branca e gelada interromper o transe do rosto iluminado.
Bebe água, diz a voz dele como se fosse doce.
Ela obedece, retornando-os para a escuridão ao bloquear o aparelho. No último gole audível, Nicolas, já deitado com a barriga para cima, aponta para a trilha laranja formada pela luz dos faróis de um carro que passa lá fora e rasga o teto de uma ponta a outra, enquanto tenta ignorar o som familiar e sonolento das bandeirolas verdes e amarelas ao vento. Os Ss do tradicional molde das grades lembram cisnes que se beijam num lago negro.
Eu gosto disso.
Ele olha para cima; ela, para o rosto dele, um perfil que surge com o trajeto iluminado. Uma face num raio. Eletricidade no corpo. O fantasma de nariz grande e cicatrizes de espinhas na cara permanece impresso no desejo quando tudo se apaga. Por que ele nunca tira os óculos?
O jogo é dez horas e o Eduardo vem aqui, Nicolas solta com a intenção de que, de alguma maneira, o informe soe como um convite.
Tá, vou embora umas oito, Rita rebate, supondo que não faz parte do cenário. É melhor limpar logo isso por causa do cheiro, e ela sinaliza a poça de mijo num ponto à esquerda da escuridão, que os dois veem apenas dentro de suas cabeças.
Brasil e Holanda, ele pontua, numa última tentativa.
Brasil e Holanda…, ela repete. Pode passar um Veja nisso, né?
Rita deixa claro que se ele nunca falar, ela nunca vai saber. E mesmo quando souber, ele precisará relembrá-la de tempos em tempos.
Dois a um para a Holanda ao final do primeiro tempo. A quantidade de pessoas nas ruas da Praça 14 é alta, o que se constataria só pelo volume de latas de cerveja jogadas por todos os lados. O bairro é uma mistura de lixeira e banheiro a céu aberto nessa altura do jogo. Catadores de verde e amarelo aproveitam a ocasião, agachando-se com as grandes sacolas de estopa entre os grupos de torcedores que, na melhor das hipóteses, os ignoram. Uma ex-participante de reality show distribui autógrafos e tira selfies com os moradores que, extasiados, esperam aumentar o lucro com a venda de bebidas, comidas e afins após todo o investimento com a decoração da rua para a Copa. Foi assim que a mãe de Nicolas completou a entrada do carro quatro anos atrás.
Naquela época, ele se envolvia na atmosfera festiva dos jogos. Gritava a plenos pulmões, vestido com sua camiseta falsificada da seleção, num mundo dionisíaco e cheio de possibilidades. Agora as cores lhe davam náuseas. Desempregado, colocou o diploma de Biblioteconomia numa pasta e assumiu o mercadinho com a mãe, uma parceria que durou nove conturbados meses até ela morrer. Na cama do hospital, a idosa confessou ter causado o acidente que gerara a fratura no quadril de Nicolas quando ele tinha três anos. Eu queria fazer teu pai voltar pra mim. Me perdoa, meu filho.
Nicolas observa a catarse futebolística com mais pena que interesse faz um tempo. Os olhos dele vagam pelos vídeos de replay dos gols e melhores jogadas como um gato acompanharia o movimento da bola na televisão: ausente. No máximo, o incômodo no topo da perna direita e a paixão o despertam dessa alienação de outra natureza.
A Rita…, e não se completa o predicado na mente de Nicolas. Forma-se apenas a imagem dela olhando para a televisão por um instante, conferindo o placar indiferente, sozinha, numa penumbra de cortinas blackout.
Porra, onde tu tava?, Eduardo grita, tirando-o da confluência entre o passado e a imagem hipotética da mulher com uma tapa que deixa as costas de Nicolas ardendo. Os cachos do amigo estão repletos de confete e tem cheiro de catuaba, sinal do pastiche carnavalesco bem estabelecido na partida.
Fui pegar mais cerveja, seu animal.
Eduardo recebe a latinha e ri numa satisfação bonita, a única coisa genuína naquele cenário.
Vi tua paixão platônica ali atrás com os meninos, Nicolas Cage, abre o olho.
Silêncio constrangedor.
Rodeada por três homens, os três com uma linguagem corporal canina, as pontas dos pés voltadas para ela, a postura assertiva, uma mão desliza indesejada pelo ombro pálido. Rita destoa entre as cores vibrantes, com seu vestido bege e cabelos divididos ao meio, rígidos e oleosos, presos num coque que lhe dá um ar de matrona. Os homens parecem elétricos, buscam insistentemente demarcar território naquele olhar que queima, mas não se conecta a nada até que Rita e Nicolas se reconhecem na multidão.
Cheguei agora, foi embora a luz lá em casa, ela se justifica a Nicolas depois de tomar a iniciativa da aproximação.
Silêncio constrangedor.
Rita não usa a mesma roupa da noite anterior, porém, o cheiro e o brilho na pele a entregam enquanto ela tenta disfarçá-los, enrolando os braços em volta do próprio corpo: não tomara banho desde que saiu da casa dele mais cedo. A fragrância do suor é uma mistura dos dois, um perfume de sexo imenso, que atiça os conhecidos que a cercam sem que saibam o motivo. Nicolas não consegue reconhecer nela o próprio cheiro.
Vem pra cá com a gente, Rita, esses caras são um bando de zé bucetas. Eduardo toma a afirmativa como argumento e a guia gentilmente, posicionando-a entre ele e Nicolas, assim como toma da mão do amigo uma terceira latinha, que oferece a ela.
E a mãe, vai bem?, retruca um dos homens caninos, soltando uma risada com cheiro de cerveja que logo vira um coro com os outros dois.
Depois a gente desce na Lôra com vocês, decreta Eduardo ainda sorrindo, encerrando o assunto com um hang loose. Bando de bêbo bosta. Muito melhor você ficar com a gente, né, Nicolas Cage? Coração Selvagem esse cara aqui. Ei, porra, não me bate, filho da puta! Vamo embora, esse jogo já era.
A tevê, ligada ao notebook, se consome em vídeos engraçados de animais domésticos no modo de reprodução automática, enquanto lá fora rugem cornetas, fogos e gritos de gol. Nicolas dorme cervejas sofá adentro, e os pequenos espasmos involuntários que percorrem seu corpo expõem uma faixa da barriga morena que lembra a Rita um filhote de cachorro. Eduardo dobra os joelhos, sem conseguir se mover mais que isso para além do automatismo do braço que leva a lata à boca, numa dança patética que acompanha a trilha sonora das peripécias do filhote de gato que cai da cama ao tentar pular para uma cômoda na tela. Já Rita desenha no ar as voltas da grade da janela e assiste a todas essas cenas.
Tudo seria diferente se ninguém tivesse visto aquele vídeo. Ela deitada na mesa, pernas abertas, lubrificada e vermelha, com Silvio lhe dando tapas no rosto enquanto a penetrava sem cuidado. Raios e trovões audíveis ao fundo. Já faz três anos, mas ela continua sendo uma puta desde que ele compartilhou o registro. Por engano, disse ele. Por engano, logo após terminarem o namoro. Eu ia apagar, eu juro.
Silvio casou um ano e meio depois, teve um filho e virou evangélico, mas ela continuou cristalizada naquele momento como uma estrela de cinema que morre num acidente de carro. Os meninos, mesmo os novinhos, riem quando ela passa para comprar pão. As crentes a olhavam com desprezo no trabalho, através da vitrine da loja. O pai ainda não fala com ela direito. Rita saiu da igreja, pintou o cabelo de preto, colocou quatro piercings, fez sete tatuagens de qualidade duvidosa e perdeu dez quilos. Porém, ainda era a garota alourada de dezesseis anos daquele um minuto e quatro, por mais que não se parecesse em nada com ela.
Nicolas e Eduardo também viram o vídeo. Nunca falaram sobre o assunto. Ao invés disso, Nicolas a beijou. O tapa que ela infligiu marcou o rosto bronzeado dele, três rastros vermelhos da têmpora ao maxilar. O sangue que se concentrou nos dedos de Rita a fez sentir viva e encharcada. Fizeram amor pela primeira vez. A prática se expandiu timidamente, criando um pequeno glossário que os dois acalentavam com carinho, numa rotina secreta de humilhações consentidas. Ela apreciava a constância mais que a variedade, e descobriu na violência de sua autoridade uma porta onde tristeza e felicidade, passado e presente, tudo poderia bem ser a mesma coisa: algo só seu.
Da tapa foi às mordidas em cantos estratégicos, visíveis apenas em momentos íntimos. Resultado: dentinhos roxos sob a pele morena e fina da cintura de Nicolas, que Rita tinha mania de beijar suavemente. Os indícios dos chutes no tronco eram um pouco mais complicados, pois demandaram que ele não jogasse mais futebol sem camiseta. Se Rita passasse pelo campo e o visse esbaforido, correndo atrás da bola com o tecido colado no corpo pelo suor, ria baixinho. Mais suave era a urina, que ela apenas deixava fluir amarela pelo rosto cheio de encanto e asco, recobrindo os óculos dele. Ver as lentes mudarem de cor a agradava em especial, confundindo a natureza dos fluidos que dela escorriam. A proteção antirreflexo das lentes criavam um pequeno arco-íris sobre os olhos dele. Nicolas seguia o roteiro de submissão e, no último arco da performance, poderia fazer o que quisesse, como quisesse. Rita estaria pronta, sólida, quase feliz.
Em questão de segundos, sons interrompem a dança de Eduardo, o desenho das grades de Rita e o fio de baba que começava a escorrer da boca dormente de Nicolas. Homens e mulheres urram subitamente em agonia na rua e o trio corre à janela para descobrir torcedores presos uns aos outros pelo galope selvagem da corrente elétrica que desce da haste metálica de uma bandeira do Brasil tocando um cabo de alta tensão. Eduardo tropeça nas própria pernas, sai sem fechar a porta e corre pelas escadas do prédio. A morte de todos é certa, rodeada por um alvoroço que mais lembra um tornado bicolor com cheiro de churrasco. Eduardo, já na rua, brada ao celular, provavelmente chamando os bombeiros ou uma ambulância.
O casal assiste a tudo do apartamento. O amigo os encara lá de baixo e aponta para um corpo específico, sem vida, como se quisesse dizer algo muito importante sobre o falecido e um nome se forma em sua boca, inaudível, enquanto lágrimas redondas se avizinham no rosto, grandes o suficiente para serem vistas de perto, mas não daquela distância. Nicolas e Rita apenas seguram as mãos, tomando cuidado para não se encostarem nas grades quando ela fecha a janela. Ela esboça um sorrisinho. Sua última fresta não dá conta da expressão de incredulidade de Eduardo. Uma vez trancados ali, os sons da morte se tornam abafados, um pouco mais distantes. O desamparo fica do lado de fora.
Nicolas?
O que é?
Você lembrou de passar o desinfetante aqui na sala?
Eu te amo.
