A saliva que eu não tinha na boca

(Angélica)

Soube da morte de Belinsky no dia do meu aniversário. Até morto conseguia me infernizar. Podia até ser um presente, se não tivesse que ir no velório. Não dava pra dizer que eu estava mal, prestes a me deitar ao seu lado, já que atendi o telefonema da minha ex cunhada contente. Além do que, se inventasse algo, vai que a mentira se voltasse contra mim ou de ter, no mínimo, uns dez anos de azar, se tratando de Belinsky, tudo era possível. Depois da notícia, abaixei o tom de voz e fingi não estar eufórica. Sônia me confessou que estava aliviada, que o enterro seria a última coisa que ia fazer por ele. Como não tinha desculpa, me arrumei e fui pro cemitério do Araçá.

Assim que entrei no velório, vi que o caixão estava fechado. Havia poucas pessoas na sala. Ao cumprimentar Sônia, perguntei como ele havia morrido. Os vizinhos sentiram um cheiro horrível e descobriram que era do seu apartamento, bem mais do que o habitual. Chamaram a polícia, o corpo foi encontrado debaixo da cama, já estava em decomposição. Na minha cabeça, Belinsky teve algum tipo de sinal, sempre acreditou nessas birutices e se enfiou lá pra que já fosse se acostumando com o caixão. Ou estava brincando de esconde-esconde com a morte, o que também fazia sentido. Até porque vestia um terno preto e tinha um bilhete em cima do peito. O que estava escrito? Sônia disse tentando disfarçar o incômodo entre os lábios: Vou te amar por toda a eternidade. Minha espinha gelou. Tinha que me jogar praga mesmo depois de morto?

Belinsky, além de ser ensaísta e tradutor, também desenhava. Na época em que estávamos casados e com pouco dinheiro, comecei a fazer umas geleias pra vender pra fora. A que as pessoas mais gostavam era de mexerica, uma receita de família. O negócio foi tão bem que tive que me profissionalizar. Pedi pra ele fazer os rótulos novos, precisava ter os ingredientes em em algum canto com letras pequenas. Repeti umas cinco vezes o que era pra ele escrever. Fez uma ilustração minha mexendo uma panela com uma colher de pau, ficou muito bom. Pouco tempo depois, a vigilância sanitária apareceu, recebi uma multa tão alta que fui obrigada a fechar. Belinsky tinha escrito que a geleia era feita de mexerica com baba de gato e xixi de minhoca, se justificou dizendo que estava muito sem graça. Mais tarde entendi que não queria que eu tivesse independência financeira.

Mais pra frente, ele tinha que escrever um ensaio sobre os escritores russo e me pediu pra pegar um livro emprestado na livraria perto de casa. Emprestado? Jeito de dizer, custa caro, depois você devolve. Nem sei por que topei fazer isso, acho que foi desespero, não havia quase nada pra comer em casa. Levei uma bolsa grande, pus uns óculos escuros e uma peruca. Dei tanta bandeira que assim que estava saindo, o dono veio me perguntar se eu não tinha me esquecido de nada. Tirei meu disfarce. Quando coloquei Anna Karênina na sua mão, olhou pra mim e perguntou se eu era casada. Belinsky, e não eu, tentou se jogar embaixo de um trem da CPTM. Como o salto da plataforma foi curto, a única coisa que conseguiu foi quebrar os dois pés. Tive que levá-lo ao pronto-socorro e antes de ir embora de casa e casar com Lukin.

Eu e Sônia sentamos nas cadeiras que rodeavam a sala e ficamos observando as pessoas que vieram se despedir de Belinsky. Numa certa altura, chegou uma mulher chorando muito, muito mesmo. Ficou quase deitada em cima do caixão raspando as unhas na madeira. Dava uns gritinhos de sagui. E também se parecia com um, rosto curto, uma cabelo loiro desbotado e baixinha. Sônia quis saber quem era. Não faço ideia, respondi. Por essa cena ridícula, veio atrás de dinheiro, pode apostar. Eu acabo com ela, juro que acabo. Belinsky tomou o resto das minha economias de canudinho, estou cheia de dívidas por causa dele, depois de falar isso, Sônia pediu que eu fosse lá descobrir.

Que infelicidade, né? Ela olhou pra mim como se já me conhecesse. Nem me diga, uma tragédia e tanto e disparou, os filhos estão arrasados. Que filhos?, perguntei perplexa. Os filhos de Belinsky, não puderam vir. Balancei a cabeça como se soubesse. Se você é a mãe já devem estar bem crescidinhos. A cara de sagui me olhou com desdém, não consegui dizer mais nada e me afastei. Ao voltar pra cadeira disse pra Sônia que ela tinha acabado de ganhar dois sobrinhos e eu um nariz de palhaça, ou melhor, um traje completo. Ela ficou branca e como pintava os cabelos de vermelhos, lembrava um rabanete. Começou a chorar. Se quiser, eu ajudo a acabar com os três, falei travando os dentes de raiva e fui pra beira do caixão outra vez, precisava esclarecer mais uma coisa. Por acaso ele te escrevia bilhetes? Bilhete do quê? Nada, deixa pra lá. As minhas esperanças de que aquele Vou te amar por toda eternidade pudesse ser pra ela foi pro ralo, infelizmente era pra mim.

A cara de sagui se afastou e eu fiquei rezando pra que levassem alma do meu ex marido pra outra galáxia. Ainda de olhos fechados, percebi alguém se aproximar, me virei e vi Glazkov. Era dono de uma editora e sempre passava trabalho pra Belinsky. Nos cumprimentamos e ele emendou, pena que ele andava tão atormentado nos últimos anos, era um tradutor brilhante. Nos últimos anos?, perguntei rindo. Em vez de se reter ao que estava escrito, começou a modificar as histórias. Você acredita que na versão dele de Crime e Castigo, Raskólnikov não só matou as duas velhas a machadas, como também quase todos os personagens. A revisora veio me alertar. Tive que arrumar outra pessoa pra fazer o serviço, o prejuízo foi grande, atrasou todo o meu cronograma. Fiquei muda e engoli a saliva que não tinha na boca.

Depois que estava com Lukin, fui trabalhar na livraria. Belinsky todos os dias aparecia por lá. Pegava um livro e ficava lendo ao lado da estante de pé. Na verdade, ia pra me espiar ou espionar. Não tínhamos o que fazer com ele. Aí começaram os bilhetes, dava um jeito de colocar um papelzinho na minha mão. Os primeiros eram de arrependimento, em seguida os que ele se considerava um corno, até que teve um em que ele dizia estar possesso de amor. O possesso estava escrito com uma letra em caixa alta e tremida. Só agora no enterro descobri por que Belinsky apareceu na livraria com um machado. Como não estávamos lá, ele destruiu os livros. Achamos que ele queria acabar com o nosso negócio, não era isso, foi lá pra nos matar. Antes de ir com polícia, deixou o Idiota de pé em cima da pilha dos destroços. Depois o internaram numa clínica psiquiatra.

Todos se reuniram em volta do caixão pra se despedir de Belinsky. Os funcionários apareceram pra levar o corpo, saímos da sala do velório atrás deles. Ao andar pelas mesmas alamedas do enterro do meu marido, tentei fazer uma ligação entre a sua morte e os instintos assassinos de Belinsky. Lukin caiu duro no meio da rua. Nada me tirava da cabeça que tinha sido envenenado, escrevia artigos pra um jornal de São Petesburgo contra o governo. Assustada, deixei por isso mesmo. Deram como causa da morte ataque cardíaco. Depois disso desapareci, nem o celular eu coloquei no meu nome. Às vezes ligava pra Sônia, mas a fiz prometer que não daria nunca meu número pra Belinsky.

O túmulo era pequeno e o enterro não demorou muito. Me despedi de Glazkov e da minha ex cunhada, pedi que ela me mandasse notícias. Como previ, ia ser atormentada pelo fantasma de Belinsky, não por um ser sobrenatural, mas se ele havia matado meu marido ou não. Continuei andando, de cabeça baixa, e ao sair pelo portão da Doutor Arnaldo, torci o tornozelo e despenquei na calçada: Belinsky estava na minha frente, de terno preto e sorrindo. Esticou a mão pra que eu me levantasse. Continuei imóvel. Ele se abaixou e, me pegando pelo braço com força, foi me arrastando até um carro preto estacionado no meio do trânsito. Por mais que eu gritasse, ninguém fazia nada. As portas travaram. Ao olhar pro banco de trás, vi um saco de carregar instrumentos, do tamanho de um saxofone. Belinsky não tocava nada.

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